Ônibus velho, superlotado e que passa apenas de hora em hora. Essa é a realidade enfrentada pelos passageiros da linha 063, em Campo Grande. A situação gera reclamação de usuários do transporte coletivo, que agora pagam R$ 4,65 pelo serviço e pedem que o Consórcio Guaicurus disponibilize mais carros nos horários de pico.

Após receber reclamações de passageiros que utilizam a linha 063 (Terminal x Terminal Aero Rancho), a reportagem do Jornal Midiamax embarcou no ônibus, no horário de pico, para mostrar a realidade vivida por estudantes, trabalhadores e pessoas que precisam fazer o percurso utilizando transporte público.

A linha 063 fica sobrecarregada, pois sai do Terminal Moreninhas, atravessa a Avenida Cafezais, passando por sete bairros como Centro-Oeste e Los Angeles. Depois, entra pela avenida Gunter Hans até chegar ao terminal Aero Rancho, o bairro mais populoso de Campo Grande.

A equipe seguiu com os passageiros até o ponto da rua Castorina Rodrigues da Luz, para ouvir a população e constatar de perto a situação.

Enquanto a estrutura do ônibus inteiro vibrava, a nossa equipe de reportagem conversou com Luciana Beltrão, de 41 anos, que estava em pé ao nosso lado. “Essa linha é lotada em horários de pico, e ele só passa de uma em uma hora e só tem um ônibus. Muita gente precisa dele porque só ele faz esse percurso por dentro dos bairros”, disse ela.

Indignada, ela também comentou sobre a relação entre qualidade oferecida pelo serviço e o custo para a população. “A gente paga caro e não tem ônibus, quando tem é lotado. De jeito nenhum o preço é justo, não temos ônibus e não temos qualidade”, exclamou Luciana.

‘Querem ganhar o máximo com o mínimo’

Enquanto escutávamos a suspensão do ônibus ‘bater’ – principalmente a cada desnível na via –, dialogamos com Márcio Lopes, de 43 anos, que relatou o mesmo problema enquanto voltava do trabalho.  

Márcio Lopes (Foto: Kísie Ainoã / Jornal Midiamax)

“Quando entram os estudantes ele fica muito lotado. Tanto na parte da manhã como à tarde. Eles [Consórcio] sabem dessa rotina, podiam disponibilizar mais ônibus nos horários de pico. Boa parte da população depende do transporte público”, disse ele.

“O Consórcio quer ganhar o máximo [de dinheiro] com o mínimo oferecido. Precisamos de mais um carro na linha pelo menos nos horários de pico, 10 minutos mais cedo ou mais tarde. Se você perder ele, você só pega outro depois de 50 minutos”, desabafou.

‘Aperto’ diário

No ‘aperto’ rotineiro e agonizante do transporte público ofertado em Campo Grande, os estudantes também sofrem com a falta de qualidade. “Eu pego esse ônibus há 4 quadras da escola, pra boa parte dos alunos só essa linha serve pra você chegar em casa. É muito cheio tanto pra ir quanto pra voltar”, disse Ana Clara da Silva, de 14 anos.

A situação recorrente também causa indignação para a estudante. “É terrível, tem vez que a gente fica espremido na porta.  Eles deveriam por mais ônibus”, disse ela.  

Laila Figueiredo (Foto: Kísie Ainoã / Jornal Midiamax)

Pegando o ônibus todos os dias, a inspetora de qualidade Laila Figueiredo, de 36 anos, afirmou que a situação ainda é pior do que estava. “Eu pego todo dia pra ir e retornar do trabalho. É horrível, hoje está até vazio por conta da chuva. Normalmente a gente vai espremido lá na frente e só depois consegue passar a catraca”, detalhou.

Sobre a relação do custo da passagem e a qualidade do serviço, ela exclamou. “Só tem um ônibus que faz a linha do 63, e passa de hora em hora. Eu pego às 6h17, se eu perder eu só vou pegar às 7h10. Não acho o preço da passagem justo, deveriam no mínimo colocar mais ônibus nos horários de pico. Essa linha faz um trecho longo que atende vários bairros”, concluiu.  

Consórcio Guaicurus teve lucro líquido de R$ 68,5 milhões

O Consórcio Guaicurus obteve lucro de R$ 68,5 milhões nos primeiros sete anos de concessão – de 2012 a 2019 – e descumpre cláusulas sobre frotas de ônibus em Campo Grande. É o que indica laudo técnico pericial realizado pela empresa Vinicius Coutinho Consultoria e Perícia, a pedido da Justiça.

O documento foi produzido em ação movida pelo Consórcio Guaicurus em que pede o reequilíbrio financeiro do contrato de concessão firmado junto ao município de Campo Grande.

Assim, o laudo anexado ao processo na Justiça comprovou que, diferente do alegado pelo Consórcio, que estaria enfrentando dificuldades financeiras, os empresários que exploram o serviço de transporte público em Campo Grande viram seu patrimônio aumentar em 21,75% no período.

(Charge: Milton César / Jornal Midiamax)

Dessa forma, baseado nas planilhas da proposta vencedora do certame disponibilizadas pelo Consórcio Guaicurus para obter a concessão, ficou comprovado pelo laudo que a empresa obteve crescimento acima do projetado.

Apesar das falhas apontadas por passageiros ao serviço do Consórcio Guaicurus, as planilhas da empresa demonstram que, somente nos 7 primeiros anos de operação, o lucro líquido foi de R$ 68.572.889,10.

Frota sucateada

Outro ponto levado em consideração no laudo é a idade média dos ônibus de Campo Grande. Nesse quesito, ficou comprovado o descumprimento contratual por parte do Consórcio Guaicurus desde 2015.

Conforme a tabela produzida pela empresa de perícia, a partir de 2015 a idade média ponderada dos ônibus que circulam em Campo Grande está acima dos 5 anos, que é a idade ‘limite’ prevista no contrato de concessão com o município.

O número de ônibus em circulação também ficou abaixo do permitido pelo contrato nos anos de 2018 e 2019, quando havia 565 e 552 veículos em circulação, abaixo do mínimo estabelecido em contrato de 575 ônibus. O baixo número de veículos explica os constantes atrasos e baixa frequência de ônibus passando pelos pontos, reclamação constante dos passageiros.

Sem resposta

O Jornal Midiamax acionou a (Prefeitura de Campo Grande) sobre qual medida será adotada para resolver a situação. Em nota, através da (Agência Municipal de Transporte e Trânsito), a pasta informou que nos horários de pico o intervalo menor é de 25 minutos e no entre pico 50 minutos. Em tempo, será levantado dados in loco, para ajustes, caso necessário.

O Consórcio Guaicurus foi acionado, mas até publicação desta matéria não obtivemos retorno. O espaço segue aberto para esclarecimentos.

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