A Aids é uma doença que marcou gerações, tirou de cena anônimos e artistas famosos e que sobrevive marcada pelo preconceito. Quarenta anos se passaram desde a epidemia na década de 1980, mas avanços na medicina oportunizaram a prevenção contra a infecção, de forma gratuita, e que alguém indetectável não transmita o por meio do sexo. 

Nesta sexta-feira (1º), é celebrado o Dia Mundial de Combate à Aids. A UNAIDS, órgão das Nações Unidas voltada à luta contra a doença, chama a atenção neste ano para o fortalecimento das comunidades para chegar ao fim da Aids. 

Além do preservativo, que protege contra gravidez e ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis), outros aliados no combate à infecção por HIV são o PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) e o PEP (Profilaxia pós-exposição), medicamentos antirretrovirais disponíveis gratuitamente pelo (Sistema Único de Saúde). 

Em 40 anos de circulação do HIV, percebeu-se que só o uso da camisinha não era suficiente para proteção e, assim, foram criadas novas estratégias nos anos 2000, com a prevenção combinada. 

Conforme explica o médico Roberto Braz, que atende no CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento), a PrEP protege o organismo antes da infecção. Ou seja, caso a pessoa seja exposta ao vírus ao ter uma relação sexual desprotegida, o sistema imune já estará preparado para combater o HIV. 

Os interessados podem fazer uma consulta no CTA ou em uma UBS (Unidade Básica de Saúde) e fazer a retirada do comprimido que deve ser tomado diariamente e garante a proteção. 

“Existe também uma forma de usar a PrEp que é sob demanda, em que você só usa quando vai ter relações sexuais. Então, aquelas pessoas que tem poucas relações sexuais e que conseguem prever essas relações podem usar a PrEP sob demanda que é uma modalidade mais recente do uso”, explica o médico. 

Comprimidos da PrEP (azuis) e da PEP (brancos). (Thalya Godoy, Jornal Midimax)

O especialista aponta que a pessoa pode tomar por quanto tempo desejar, mas que normalmente é usado em momentos da vida por quem é solteiro e tem muitas relações desprotegidas. 

Além disso, a rede pública de saúde também disponibiliza a PEP (Profilaxia pós-exposição), recomendável para quem foi exposto ao vírus sem proteção. Para quem estourou o preservativo, bebeu e esqueceu a camisinha, teve contato com agulha contaminada ou vítimas de violência sexual podem fazer o uso do remédio contra o HIV. 

A pessoa deve procurar uma unidade de saúde ou o CTA em até 72 horas após a relação sexual. Para garantir a proteção contra o vírus, será preciso tomar dois comprimidos no período de 28 dias. 

Experiências com o PrEP

Os campo-grandenses que já usaram ou ainda tomam PrEP aprovam o medicamento e frisam como é de fácil acesso no SUS. “Nas consultas me senti muito bem acolhido. Como é SUS, às vezes você espera um pouquinho, mas é uma consulta tranquila”, relembra um servidor público, de 33 anos.

Já um empresário conta que começou a tomar o medicamento para se sentir mais protegido em relação ao HIV, mas relembra que o PrEP não substitui o uso da camisinha, que combate outras ISTs. 

“Cada vez que você faz um retorno em quatro meses para buscar a medicação, você faz uma nova série de exames para ver como o seu organismo está, então isso é importante. Vale ressaltar que o SUS faz um papel incrível porque tudo isso é gratuito e em um atendimento humanizado, sem muitas filas”, aponta. 

Um professor de Campo Grande, de 27 anos, conta que fez o uso da medicamentação por um ano, mas que precisou interromper após ter algumas complicações decorrentes da Covid-19. 

“Acredito que é importante a gratuidade da medicação e também que seria incrível a ampliação do público-alvo, tendo em vista que já existem pesquisas que mostram o crescimento dos casos de infecção entre outros públicos [além da comunidade homoafetiva]”, alerta. 

Atenção, heteros!

Por muitos anos, criou-se o estigma que o HIV/Aids era algo exclusivo de pessoas homoafetivas, mas os dados mostram que as infecções em heterossexuais aumentam a cada ano no Brasil.

Levantamento do Ministério da Saúde indica que 44,4% dos casos de HIV em homens com 13 anos ou mais, entre 2007 a 2022, eram de homossexuais, enquanto heteros representam 30,4% e bissexuais são 8,2%.

PEP protege após exposição ao vírus. (Thalya Godoy, Jornal Midiamax)

O médico Roberto Braz alerta que, se essa tendência se manter, heteros podem passar para o primeiro lugar. “Os heterossexuais se sentem protegidos e acabam não fazendo testagem e isso mascara muito. Então, provavelmente tem muitos heteros, mas que não fazem diagnóstico. O que percebemos é que a tendência é que o aumento é maior entre heteros do que em LGBTs, mas continua maior em LGBTs. Se continuar nessa crescente, talvez os heterossexuais alcancem os mesmos números. Já há países em que isso acontece”, ele explica.

(Madu Livramento, Midiamax)

Por isso, é importante que todas as pessoas, independente de orientação sexual, façam testes e se protejam contra o HIV.

Aids continua matando em MS

vive, atualmente, uma estabilidade de casos após uma alta de infecções. 

(Madu Livramento, Midiamax)

Dados do Sinan (Sistema de Informação de Agravos de Notificação), do Ministério da Saúde, apontam que em 2011 foram diagnosticados 111 casos, em 2018 chegou a 791, mas reduziu para 174 em 2022. De 2007 a 2022, foram 5.863 casos de HIV notificados no Estado, a menor taxa da região Centro-Oeste.

(Madu Livramento, Midiamax)

Já sobre o número de óbitos por Aids, Mato Grosso do Sul fica em segundo lugar na região Centro-Oeste, com 4.242 vítimas fatais entre entre 1980 e 2021. No último ano dos dados, foram 184 óbitos causados por Aids.

(Madu Livramento, Midiamax)

PrEP tem efeitos colaterais?

Roberto Braz explica que estudos feitos nos últimos quinze anos mostram que o PrEP é bastante seguro e não causa efeitos colaterais severos. 

Cerca de 90% dos pacientes não sentem nada, enquanto os outros 10% podem sentir um desconforto gástrico, como aumento de gases e amolecimento de fezes, durante uma semana no máximo, até a adaptação do organismo.  

Quem faz uso de anticoncepcionais ou gosta de beber também não precisa ficar preocupado porque o PrEP não tem problemas de interação medicamentosa. 

Médico Roberto Braz atende no CTA. (Thalya Godoy, Jornal Midiamax)

“Ele só tem uma diferença em relação a homens e mulheres, ou seja, pessoas que nasceram com vagina e nasceram com pênis, que é o tempo de ação. Nas pessoas que nasceram com vagina, precisa esperar sete dias para começar a fazer efeito. Para homens, pessoas que nasceram com pênis, a partir de duas horas, já começam a fazer”, aponta o médico. 

Ele explica que essa diferença está ligada a composição da vagina e que o medicamento demora mais tempo a fazer efeito na mucosa vaginal.

Medicamentos ainda são desconhecidos

A gerente de IST, HIV/Aids e Hepatites Virais da SES-MS (Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul), Alessandra Salvatori frisa que a maioria dos usuários que estão em uso regular da PrEP ainda são de raça/cor branca, com faixa etária de 30 a 39 anos e com escolaridade de 12 anos ou mais.

Assim, indica que ainda é necessário expandir o número de usuários em PrEP, que tem uma eficácia superior a 98% quando tomada regularmente.

“A rede de distribuição de PEP já está implantada em todos os municípios do nosso estado e tem uma boa procura e aceitabilidade por parte, tanto dos usuários, quanto dos prescritores. Com relação à PrEP, ainda temos alguns desafios de implantação em alguns territórios e também para alcançar as populações mais vulneráveis, que são os mais acometidos pelas novas infecções”, afirma. 

A opinião é compartilhada pelo médico Roberto Braz. O profissional ainda diz que o desconhecimento sobre a existência desses medicamentos é vista até entre colegas. 

“Falta muita informação, infelizmente até no meio profissional. Os profissionais da saúde tem colegas que não sabem o que é a PrEP. A PEP, como ela já tá um pouco mais há mais tempo, as pessoas sabem um pouquinho mais”, ele explica. 

Adesão da PrEP em MS

A gerente de IST, HIV/Aids e Hepatites Virais da SES-MS aponta que houve redução de 11% em novas infecções entre 2019 e 2021 no Brasil.

Contudo, Mato Grosso do Sul viveu um atraso em relação ao restante do país sobre o início da oferta, além da dificuldade para implantação e expansão da rede. 

“Em 2018, ano de início da PrEP no Brasil, tivemos, no nosso Estado, mais precisamente em Campo Grande, apenas 06 usuários com pelo menos 01 dispensa. Fomos, de fato, iniciar em 2019, mas, ainda assim, com pouca adesão: 187 pacientes. Em 2020, já tivemos 510 usuários e em 2023 estamos com 1.444 pessoas com uma dispensação”, ela enumera. 

Assim, a gerente da SES aponta que o Estado pode demorar para ver os resultados da estratégia com relação aos indicadores. “, por exemplo, têm, em 2023, 41.087 pessoas em uso de PrEP, número significativo de população vulnerável fazendo uso do medicamento e bloqueando os caminhos que o HIV usa para infectar o organismo”, exemplifica. 

Onde há PrEP e PEP em MS?

A PrEP e PEP estão disponíveis para qualquer pessoa, independente de orientação sexual e identidade de gênero. A gerente de IST, HIV/Aids e Hepatites Virais da SES-MS (Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso do Sul), Alessandra Salvatori, explica que esses medicamentos podem ser obtidos por pessoas que se sintam em risco de contrair o vírus HIV. 

Em quais cidades é possível obter PEP e PrEP em MS?

PEP – todos os municípios.

PrEP – Campo Grande, Dourados, Três Lagoas, , , Ribas do Rio Pardo, Maracaju, Jardim, Coxim, Naviraí e Costa Rica.

Onde fica o CTA?

O CTA em Campo Grande está localizado na Rua Anhanduí, nº 353, bairro Vila Carvalho (próximo ao Horto Florestal). 

O atendimento é de segunda a sexta, das 7h às 17h (sem pausa para o almoço). A testagem rápida vai até às 16h. É necessário levar um documento com foto.

Saiba Mais