Há 28 anos Simone canta e nos convida à reflexão: “Então é Natal, e o que você fez?”. Repetidos milhares de vezes em dezembro, os versos simples são, na verdade, uma pergunta complexa e que pode servir de gatilho para depressões de fim de ano.

Metas não alcançadas, a vida perfeita na internet e cobranças sociais são situações que geram frustrações. Esse conjunto de situações que acontecem no fim do ano, é conhecido como depressão de fim de ano ou síndrome do fim do ano. Popularmente chamada de “dezembrite”, a síndrome é classificada pelos profissionais da saúde mental como um Transtorno Afetivo Sazonal (TAS).

“Nesta época é comum que a gente comece a olhar para o nosso ano, para metas que estabelecemos no início. Mas quando estipulamos metas inalcançáveis, como emagrecer 10 kg, ler 100 livros, coisas do tipo, o não alcance das metas nos traz frustrações e tristezas. É importante ter metas, mas realistas e alcançáveis”, explica a psicóloga Camila Sichinel Cunha.

Aliado a isso, dezembro costuma gerar sensações de estresse e cansaço na população. Apesar de considerada sazonal, quando não tratada, a síndrome pode evoluir para uma depressão, por exemplo.

Redes Sociais: vilã da saúde mental

A um simples toque no celular, um mundo perfeito se abre. São fotos e vídeos de pessoas bonitas, famílias perfeitas, viagens legais, roupas da moda, luxo, riqueza. A vida nas redes sociais é sempre mais legal que a realidade. Sabe por quê?

Porque é esse o objetivo delas. Mostrar recordes bonitos e editados da realidade que geram desejo nas pessoas. Mais que isso, geram comparações, expectativas e também frustrações. Já que também basta um toque para sair do ‘mundo mágico’ e encarar a realidade.

“A gente olha para a vida perfeita das pessoas, mas o real não é perfeito. Quando olhamos para essas redes sociais, evidentemente vamos nos frustrar. Principalmente, porque o ser humano tem tendência de se comparar de maneira injusta e de criar situações mentais que não refletem a nossa realidade”, explica a psicóloga Camila Sichinel Cunha.

Para ‘sobreviver’ com a saúde mental em dia diante de tanto estímulo das redes sociais, é importante pôr os pés no chão e pensar com clareza. Avaliar de maneira fria e realista que aquela foto e vídeo são apenas um retorno, escolhido para estar ali. Nenhuma família ou vida é perfeita, todos temos problemas.

Fique atento aos gatilhos

Em meio a correria dos 31 dias de dezembro, que caracterizam o marco temporal de mais um ano terminando, quase tudo pode ser gatilho para desencadear a síndrome do fim do ano. Confira situações para ficar atento:

  • Metas não alcançadas: Fazer uma review da vida e ver que metas não foram atingidas gera frustração e tristeza
  • Cansaço excessivo: Há relatos do aumento de casos de Burnout no fim de ano, devido à exaustão
  • Luto familiar: A perda de entes queridos pode ser um gatilho para muitas famílias no fim do ano, devido à ausência daquela pessoa durante as festividades
  • Comparação injusta: Chamada na psicologia de distorção cognitiva, é uma forma de perceber a realidade distorcida
  • Felicidade inalcançável: A alegria, união e amor principalmente das famílias pode ser gatilho para muitas pessoas
  • Cobranças sociais e financeiras: Sensação de que todo mundo precisa ter dinheiro para presentes, festas e viagens, o que não reflete à realidade

É possível se prevenir?

Médico psiquiatra cooperado da Unimed Campo Grande e PHD em saúde mental, José Carlos Rosa Pires de Souza explica que o aumento no estresse no período de fim de ano se deve a muitas pressões sociais e econômicas do período.

“Têm muitos fatores emocionais, como perdas de entes queridos, além de reflexões com sentimentos de culpa, remorso, sobre o que deveriam ter feito e não fizeram. E também muitas cobranças sociais, como se as pessoas tivessem a obrigação de gastar, comprar presentes – e nem todo mundo está preparado para isso. Até porque, no início do ano, tem os boletos que precisam ser quitados”, afirma.

Apesar de rotineiro, pois acontece todos os anos, essas sensações podem gerar ansiedade intensa e até mesmo depressão. “É essencial entender que nem sempre tudo sai como esperado, e tudo bem. Importante é não ter cobrança, nem planejamento sobre o que não poderá cumprir e se culpar por não fazer. Se for fazer, que sejam metas mais realistas. Seja você mesmo, não seja levado pela opinião dos outros e busque sua individualidade”, explica o médico psiquiatra.

Buscar o auxílio especializado pode aliviar esse sofrimento psíquico e direcionar as emoções para comportamentos mais saudáveis. Vale ressaltar que a depressão e o transtorno de ansiedade não escolhem idade, gênero, condição social e nem nível intelectual. São doenças que precisam de tratamento e apoio psicológico e psiquiátrico adequados.

ano novo
Queima de fogos em Campo Grande (Divulgação/PMCG)