Quando se fala em pesquisa científica e em pesquisador, algum nome vem à cabeça? Uma pesquisa do CCGE (Centro de Gestão em Estudos Estratégicos) com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, de 2015, mostrou que 61% dos brasileiros gostam de ciência, mas a maioria não soube dizer o nome de uma instituição ou pessoa que faça pesquisa no Brasil. 

Já a 6ª edição da pesquisa Índice do Estado da Ciência, de 2022, revelou que 92% dos brasileiros confiam na ciência, especialmente quando é falado em mídias tradicionais. 

As duas pesquisas mostram que os brasileiros gostam do tema, mas há uma dificuldade para a população visualizar no dia a dia quem produz conhecimento científico.

Por outro lado, há os pesquisadores com dificuldades para “traduzir” a linguagem acadêmica para a sociedade. 

Mesmo que dominem o assunto, o desafio é fazer com que o conteúdo chegue de forma objetiva e aproxime o cidadão do que é produzido em universidades e instituições de pesquisas. 

Professora há 22 anos do curso de turismo da UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul), de Dourados, Patrícia Cristina Martins exemplifica que na área dela a maior dificuldade é mostrar que turismo não trata somente de viajar.

“O turismo é uma das atividades que mais cresce no mundo e o Bacharel em Turismo possui competências que lhe permitem atuar no planejamento e organização do turismo em diferentes áreas, como gastronomia, patrimônio turístico, parques históricos, consultas ou assessorias”, ressalta a professora.

Já o professor de filosofia da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Weiny César Freitas Pinto, afirma que uma das dificuldades da área é desmistificar que a filosofia é um assunto difícil e que as ciências humanas são pouco práticas. 

“As pessoas não conseguem perceber a importância da filosofia e das ciências humanas justamente porque elas são muito próximas da vida das pessoas. Basta a gente pensar que não é possível pensar e refletir sobre qualquer assunto sem recorrer a certas teorias e conceitos que vêm dessas ciências”, ele opina. 

Neste sábado (8), é celebrado o Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico e o Midiamax mostra os desafios de falar sobre ciência e as soluções encontradas pelos pesquisadores de Mato Grosso do Sul. 

Como “traduzir” a ciência?

Um dos projetos de Mato Grosso do Sul para compartilhar a ciência, especialmente a regional, é o “Mídia Ciência”, desenvolvido em parceria entre a UEMS e a Fundect (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul). 

O coordenador do Mídia Ciência, André Mazini, de 38 anos, explica que são usadas diferentes abordagens para tornar o que é produzido nas universidades e centros de pesquisas mais acessível à população, como arte, humor, referências à cultura pop, conteúdos para redes sociais.

Muito do que é produzido pelo projeto é divulgado na internet no site ou no Instagram @midiaciencia.

“A maior dificuldade, principalmente no contexto das redes sociais, é que as pessoas costumam direcionar a atenção para conteúdos que as entretenha, como um vídeo de um gatinho fofo, um meme, uma fofoca do Neymar. É um esforço constante encontrar maneiras criativas de trabalhar essas pautas de uma forma que possam ganhar a atenção das pessoas”, afirma André Mazini.

Para o público infantojuvenil, por exemplo, já foi produzido um teatro com referência ao jogo “Among Us” e a fábula Detetive Capivara que conta a história de um crime que é desvendado pelos pesquisadores de Mato Grosso do Sul. 

Já para o público adulto e especializado foi desenvolvido o “Comunica Cientista”, um treinamento de comunicação digital focado em pesquisadores sobre a importância de divulgarem as produções científicas. 

Na capacitação foi dado um panorama geral sobre como as pessoas se comunicam atualmente (indicadores sobre acesso às redes, tempo de tela, padrões de consumo de informação, etc.), quais são os principais canais de comunicação e a melhor forma de usar cada um deles. Por fim, um ator aborda a questão da filmagem, enquadramento, cenografia, entre outros.

A professora do bacharelado em turismo de Dourados participou do curso para os pesquisadores e ressalta que a aproximação com a comunidade é fundamental para devolver à sociedade o que é produzido na academia e para que os alunos coloquem em prática o que é aprendido em sala de aula. 

O curso de turismo da UEMS em Dourados conta com um Instagram (@turismouemsdourados) e um site (https://bituems.wixsite.com/turismo), em que são divulgadas as atividades e as possibilidades do bacharelado na área. 

“O curso está sempre em contato com o mercado turístico e sociedade levando informações. Recentemente iniciamos a produção de alguns podcasts que também farão esse papel que serão disponibilizados no Instagram”, afirma.

Já o professor Weiny, do campo da filosofia, tem dois projetos de extensão que visam aproximar a academia da comunidade: Projeto Ensaios e o Ágora. 

O primeiro visa divulgar os ensaios dos alunos em textos curtos e objetivos na internet (https://anpof.org.br/comunidades-canal.php?canal=projeto-ensaios), enquanto o segundo promove aulas, rodas de conversas e minicursos em espaços públicos.

Fake news

A pandemia de Covid-19 trouxe inúmeros desafios para diferentes grupos da sociedade. 

Os cientistas desenvolveram uma vacina em tempo recorde, os profissionais da saúde trabalharam sobrecarregados e vulneráveis à infecção e os profissionais da imprensa precisaram descobrir como interpretar boletins epidemiológicos e dados científicos que eram atualizados com frequência. 

Outro desafio importante nesse período foi a propagação das fake news, que espalharam desinformação e desconfiança sobre a ciência, a exemplo das vacinas que há décadas possuem comprovação científica de serem seguras.

O coordenador do Mídia Ciência, André Mazini, explica que um dos objetivos do projeto é trazer informações qualificadas e seguras para a população e estimular que a comunidade científica se comunique nos canais disponíveis. 

“Temos percebido que muitos pesquisadores gostariam de se comunicar mais, mas não se sentem preparados para isso, ou por timidez, ou por falta de instrução, e nós temos tentado oferecer essa qualificação, com objetivo de aumentar o volume de informações confiáveis nas redes”, aponta. 

No caso do professor Weidy, que trabalha com filosofia, o grande desafio contra as fake news é fazer entender que a filosofia é uma ciência que segue protocolos rigorosos como outras áreas e não se trata de opiniões, doutrinações ou ideologias. 

“O pesquisador da filosofia e das ciências humanas realiza um trabalho rigoroso do ponto de vista científico como qualquer outro professor e pesquisador de outra área. Eu diria que essa é a grande fake news das ciências humanas”, ele afirma. 

Conheça produções científicas de MS

As universidades e instituições de ensino de Mato Grosso do Sul promovem centenas de pesquisas científicas em diferentes áreas de conhecimento, como os tijolos ecológicos produzidos com resíduos de minério em Corumbá e os livros didáticos na língua e cultura Kaiowá e Guarani.

Confira abaixo produções científicas desenvolvidas em MS:

IFMS

O IFMS (Instituto Federal de Mato Grosso do Sul) tem 123 projetos de pesquisa em desenvolvimento que contam com 218 pesquisadores envolvidos.

Uma das pesquisas de destaque da instituição é o “Projeto IFMS na Comunidade”, que conta com três estudos: 

  • Casa Pantanal: são dois projetos, sendo que um deles visa a produção de tijolos ecológicos com resíduos de minério da região de Corumbá, e o outro a construção de casas populares de baixo custo.
  • Identificação de solos: projeto desenvolvido pelo IFMS em Ponta Porã e Nova Andradina visa realizar a identificação e o monitoramento da degradação do solo, por meio de análises químicas e físicas em áreas assentadas da região Sul de Mato Grosso do Sul, realizadas em laboratório e in loco, para relacionar a degradação ao uso e manejo do solo, além de auxiliar na busca por soluções das áreas agrícolas degradadas dos assentamentos. A pesquisa busca implementar práticas agrícolas sustentáveis e proporcionar à comunidade assentada maior retorno econômico aliado à preservação do solo.
  • Criação de Peixes: desenvolvido em assentamentos do estado, o projeto visa implantar módulos produtivos para criação de tilápias em tanques elevados de geomembrana com o aproveitamento de água, modelo desenvolvido pelo IFMS, visando a produção em propriedades rurais e a disseminação da tecnologia.

UFGD

A UFGD (Universidade Federal da Grande Dourados) tem 477 projetos de pesquisa, executados por mais de 350 pesquisadores.

Confira algumas das pesquisas desenvolvidas na UFGD:

  • Produção de livros e materiais nas línguas Guarani e Kaiowá para alunos, professores e comunidade em geral;
  • Controle de pragas de eucalipto com macrobiológicos no Mato Grosso do Sul;
  • Desenvolvimento de alternativas terapêuticas para o controle de bactérias multirresistentes;
  • Qualidade de plantas medicinais cultivadas no cerrado sul-mato-grossense submetidas à diferentes sistemas de secagem.

UEMS

A UEMS (Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul) conta com 315 projetos de pesquisa em execução atualmente. 

Só no ano passado foram 119 grupos de pesquisa certificados, 412 artigos publicados em periódicos; 213 trabalhos publicados em anais de evento, 184 capítulos de livro e 26 livros.

Confira as pesquisas:

  • Núcleo de Pesquisa em Quadrinhos que estuda o interesse pelo gênero e aplicações e como o estudo das imagens é importante para o ensino;
  • Projeto de Direitos Humanos das Mulheres em Mato Grosso do Sul realiza debate e qualificações para gestores públicos sobre o tema;
  • Projeto “UEMS e Itaipu BINACIONAL entregas no Cone-sul e Sul-fronteira de MS” visa a construção e estruturação do Laboratório de Fertilidade do Solo e do Herbário Ernesto Vargas Baptista, formarão o Parque Analítico da UEMS em Mundo Novo/MS.