“O despertar do silêncio”, é assim que a professora Shirley Vilhalva se refere ao momento em que descobriu sua surdez. Doutoranda em Linguística Aplicada, Shirley superou todas as barreiras de sua deficiência e se tornou uma referência no estudo de Libras (Língua Brasileira de Sinais), sendo reconhecida como a primeira mulher surda brasileira e professora a assumir o cargo de Diretora de uma escola pública.

No Dia Nacional dos Surdos, celebrado em 26 de setembro, o Jornal Midiamax conta a história de uma das figuras mais importantes no ensino de Libras no Brasil e relembra a chegada da Língua de Sinais a .

Filha de pais ouvintes, mas com primos surdos do lado paterno, Shirley Vilhalva conta que sua surdez é algo hereditário, ou seja, algo que vem de seus pais e antepassados.

“A minha jornada com a Libras tem dois momentos. O primeiro é que nasci em uma família com uma história de surdez que se estende por 70 anos entre primos do lado paterno; hoje tenho um sobrinho surdo do lado materno”, diz.

O segundo momento, conforme ela, refere-se aos anos 80, quando percebeu a necessidade de promover o reconhecimento e a regulamentação da Língua de Sinais por meio de uma lei.

“Tive que me reinventar ao entrar na comunidade surda; aquele sentimento de solidão no mundo foi diminuindo e o medo das pessoas também. Foi assim, através da Língua de Sinais, que comecei a compreender os significados dos sentimentos”, relata.

Antes de aprender Libras, Shirley estava sempre fazendo perguntas como “como é?”, “o que é?”, e “por que não é?”

“Eu conhecia muitas palavras, mas elas não tinham significado para o uso no cotidiano”, enfatiza.

Para a professora, a Língua de Sinais é uma língua completa, com estrutura independente da Língua Portuguesa Oral ou Escrita, o que possibilita o desenvolvimento cognitivo das pessoas surdas.

A Língua Brasileira de Sinais, amplamente conhecida como Libras, é utilizada por milhões de brasileiros, tanto por aqueles que são surdos como por ouvintes que a aprendem. De acordo com dados do IBGE (Instituto Nacional de Geografia e Estatísticas), estima-se que existam mais de dez milhões de pessoas com alguma deficiência auditiva no Brasil.

Em um marco importante para a comunidade surda e o reconhecimento da Libras, em 2002, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, a Libras foi oficialmente reconhecida como língua oficial do Brasil por meio da Lei nº 10.436. Esse reconhecimento contribuiu significativamente para a inclusão e a promoção dos direitos das pessoas surdas em todo o país.

Shirley Vilhalva
Shirley Vilhalva (Arquivo pessoal)

Memórias de infância

Em seu livro, “O despertar do silêncio”, a professora relata momentos marcantes de sua trajetória de vida. Entre inúmeras histórias de infância de uma criança surda, uma em especial ficou gravada em sua memória, quando ‘confundiu’ uma cobra com um homem.

“Quando aprendi a palavra ‘homem’, fui pegar água e, ao chegar perto do pote de barro, vi uma cobra-cega e imediatamente gritei: ‘HOMEM… HOMEM…’ apontando para a cobra. Minha avó, Júlia, correu, pegou uma vassoura e começou a procurar por um homem, ela não percebeu que eu apontava para a cobra e insistiu em procurar por um homem”, relata.

Até os doze anos, Shirley não sabia da existência de aparelhos auditivos. Foi só em 1976, quando um vendedor bateu à sua porta, que ela teve sua primeira experiência, a qual ela descreveu como uma descoberta incrível.

“Nunca tinha ouvido sons baixos antes; comecei a ouvir o vento, a chuva, os passos das pessoas, os sons da natureza, barulhos e ruídos que antes eram desconhecidos para mim. Mas alguns momentos depois, pedi que ele tirasse imediatamente, pois era muito barulhento. Ele me explicou que eram sons novos para mim”, lembra a professora.

No entanto, a vergonha e o bullying por parte de outras crianças a fizeram desistir de usar o aparelho auditivo.

“Não me adaptei ao aparelho e também sentia vergonha de usá-lo, pois as pessoas zombavam muito e faziam brincadeiras que eram ofensivas”.

Somente aos 20 anos, em 1985, Shirley voltou a usar um aparelho auditivo. Dois anos antes, ela havia concluído o ginásio e começou o magistério, com o sonho de se tornar professora de surdos e dar ‘voz’ a pessoas como ela.

Shirley Vilhalva
Shirley lecionando (Arquivo pessoal)

Trajetória na educação

Com uma trajetória marcada por barreiras impostas pela sociedade e uma gravidez inesperada, Shirley precisou se manter firme para alcançar seu objetivo de se tornar professora.

Em 1984, enquanto passeava pela cidade de Campo Grande, se deparou com uma placa que dizia “Ceada – Centro de Atendimento ao Deficiente da Audiocomunicação”. Foi lá que ela conseguiu seu primeiro como professora.

“Fui lá em busca de um fonoaudiólogo, mas senti algo diferente em minha busca, como eu estava cursando o magistério, arrisquei pedir para fazer um estágio e assim comecei a realizar meu sonho”, conta a professora.

Na época, ela lecionava no maternal para pessoas com surdez severa e profunda. No daquele ano, com a esperança de ser convocada para dar aula no próximo ano, uma vez que havia concluído o Magistério, Shirley teve uma grande decepção.

“Fui impedida após um consenso da Diretoria de Especial e do Secretário de Educação, que argumentaram: ‘Como uma pessoa surda pode ser professora de surdos?”, recorda.

Primeira diretora surda do Brasil

Shirley se comunicando em Libras
Shirley se comunicando em Libras (Arquivo pessoal)

No entanto, ela não se abalou e, em 1986, assumiu a presidência da Assums (Associação de Surdos de Mato Grosso do Sul), participou da diretoria da Feneis (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos) no e, em 1988, ingressou no curso de pedagogia na faculdade FUCMAT, atual (Universidade Católica Dom Bosco).

Em 1993, um ano após o nascimento de sua filha Natany Rebeca, Shirley foi indicada para ser Diretora do CEADA, tornando-se assim a primeira professora surda a assumir a diretoria de uma escola.

“Como a primeira diretora surda de Mato Grosso do Sul em uma escola pública, representei a Comunidade surda ao nível estadual e nacional. Minha experiência inicial foi muito difícil, pois minhas colegas professoras e coordenadoras não acreditavam que eu poderia atuar”, destaca.

A partir desse ponto, Shirley consolidou sua carreira, assumiu a Consep (Conselho Estadual ao Portador de Deficiência) como Conselheira, implementou o projeto de intérprete dentro da sala de aula para alunos surdos a partir da 5ª série na Rede Municipal de Campo Grande e recebeu o prêmio “O Mestre que Marcou a Minha Vida” por seu trabalho na divulgação de Libras em Mato Grosso do Sul.

Língua Terena de Sinais

Aula em Libras feita por Shirley
Aula em Libras feita por Shirley (Arquivo pessoal)

Com a participação ativa de Shirley, Mato Grosso do Sul se tornou pioneiro na promoção da Língua de Sinais em comunidades indígenas. se destacou ao se tornar a primeira cidade do Brasil a co-oficializar uma língua indígena de sinais, a LTS (Língua Terena de Sinais). A partir disso, o município conta com cinco línguas oficiais: o português, Libras, terena falada, terena de sinais e kinikinau.

“No contexto do Mato Grosso do Sul, a oficialização da Língua Terena de Sinais contou com a contribuição de diversos pesquisadores e colaboradores associados ao IPEDI (Instituto de Pesquisa da Diversidade Intercultural), uma OSC (Organização da Sociedade Civil).”

Shirley explica que o objetivo principal do projeto foi promover o reconhecimento da política linguística e o direito de todos os brasileiros, sejam indígenas ou não, a terem suas línguas maternas reconhecidas.

“O primeiro passo foi assegurar a planificação linguística necessária para oficializar a língua indígena de sinais. Isso ocorreu porque a comunidade de língua de sinais, como a Terena, demonstrou a existência e a importância de sua língua terena de sinais”, explica.

O reconhecimento da língua terena de sinais já foi conquistado tanto no âmbito acadêmico quanto na política local. O próximo passo importante é o reconhecimento dela como língua de instrução, um processo que está atualmente em tramitação no Conselho Estadual de Educação.

Hoje, Shirley Vilhalva é mestre em Linguística e doutoranda em Linguística Aplicada, pós-graduada em Docência e Tradução em Libras, e professora na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).