Quantas vezes você já esboçou que ama o que faz da vida? Para José Milton Longo, o sopro de saber qual a profissão que seguiria surgiu no quintal de casa, observando a biovida que o cercava, por exemplo, a folha que nascia na árvore, caía no chão e seguia seu ciclo.

No Dia do Biólogo, celebrado neste domingo (3), o profissional conta os motivos que o fizeram deixar o interior de São Paulo para enraizar-se em Mato Grosso do Sul. E é dizendo ser um “caipirão” de Lins, interior de São Paulo, que Longo garante ter certeza que biologia seria a profissão para vida toda.

“A biologia está na minha vida desde criança, nas experimentações que fazia na escola, no próprio quintal de casa onde havia as interações”, detalha. “Na minha época era primeiro e segundo grau, tinha três áreas: a biológica, exatas e humanas. Era concentrado na biologia, era apaixonado até me envolver com o movimento estudantil”.

O currículo é extenso: Longo graduou-se em 1995, pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Em 2002, foi aprovado no mestrado em Ecologia e Conservação pela UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul).

“Comecei assistência social na Unicamp, mas a veia biológica falou mais alto. Eu abandonei e fui fazer biologia”.

As ciências biológicas incluem nuances que vão desde a saúde a economia. Longo conta que as características delas seduziram, inclusive pela chance de várias especializações. Ele ainda recorda que o curso despertava curiosidades sobre o planeta – naquela época o estudo da sequência do DNA ampliava nos estudos de turma, aguçava descobertas.

“Você tem possibilidade de estudar microcosmos, um ambiente de uma placa com crescimento de bactérias em laboratório, até ter a macroescala de trabalhar com ecologia, que é minha área. Além de aplicar o conhecimento teórico em interações de espécies, ecologia, vegetais, flora… Isso me seduziu para adaptar na graduação. Explorar essa área, ou ia, também, para área médica, molecular”, relembra.

Formigas nos Estados Unidos

Durante a conversa, a primeira pesquisa que vem à mente do biólogo tentou mudar uma realidade nos Estados Unidos, baseado na biologia encontrada no Pantanal.

Recém-formado, Longo aceitou uma proposta de americanos para lidar com o problema ambiental na América do Norte, onde a formiga devastou quintais: o trabalho de polinização e comunidades da formiga lava-pé. Agradecidos, os turistas doaram para custódia da turma de pós-graduação uma caminhonete exclusiva para o trabalho em campo.

“O centro de dispersão da formiga é na América do Norte, eles levaram para lá e se tornou um baita problema ecológico e de saúde pública. Na década de 30, levaram um carregamento de madeira [para EUA]. Essa espécie não tem predador natural e é super agressiva, só é contida na linha de neve. Ela adotou estratégias de reprodução bem diferente daqui e explodiu”, relata.

Segundo o pesquisador, a espécie acabou com a fauna de formigas locais. “Tinha casos de choque anafilático, não era igual à gente que crescia tomando picada de formiga. Nós desenvolvemos imunidade e eles, não. Isso rendeu um trabalho na [revista] Ecology. A formiga tem um parasita, uma mosquinha que só completa o ciclo da vida ovipondo. A larva sai e mata a hospedeiro, a formiga. Teve resultados em casa de vegetação, laboratório, mas na natureza exige mais recurso e investimento para estudo”, revela.

Pantanal é ‘parque de diversões’ e doutorado surgiu dele

Logo depois, o biólogo se interessou na grandiosidade da vida no Pantanal, a maior planície alagada do mundo – para um biólogo um verdadeiro “parque de diversões”. Um dos projetos indicou que há comunidades diferentes de morcego nas bacias do Rio Miranda e Rio Negro, desde a nascente a planície.

“Pontos de amostragem de morcego ao longo do rio são diferentes, a homogeneidade se dá porque as calhas e as matas funcionam como corredores e dispersão da biodiversidade. Foi uma tese de doutorado que desenvolvi por quatro anos, defendi em 2009. Conheci o Pantanal e foi amor à primeira vista. Lá, também estudei o sistema de polinização de Maracaju silvestre”.

Sequer dá para imaginar quanta vida há de ponta a ponta em cada rio, então, foi conhecendo as estações únicas na região pantaneira que José teve certeza que o Mato Grosso do Sul seria o berço de suas pesquisas.

“O Estado tem essa pegada de meio ambiente, foi o que me motivou vir para cá. Tive várias [experiências], uma vez estava na base da Ambep, foi uma mistura de sentimentos quando fiquei frente a frente com uma onça, estava numa distância segura, mas ela é territorialista. Vi as fezes dela fresquinha, quando olhei para cima, ela estava batendo o rabo. O coração veio pela boca, pensei: caramba! Eu ganhei o dia e quase perdi”.

emociona
José se emociona ao relembrar de coisas simples da profissão (Nathalia Alcântara, Midiamax)

Um texto longo, talvez, não consiga descrever o tamanho da bagagem da vivência de alguém. É como o biólogo aponta, já que algum tempo depois seguiu para a carreira de professor, um dos mais conhecidos na UFMS. Foram anos de pesquisa, amizades e conhecimento, até que se desligou para abrir a própria empresa de consultoria ambiental.

Mas, é falando de pequenos detalhes na natureza que os olhos de José enchem de lágrimas. Ele se emociona na sensação de pertencimento, mesmo que minimamente contribuindo para um espaço melhor.

“Sou sul-mato-grossense de coração, estou aqui há 25 anos, fiz meu filho, meu Danielzinho, que tem 19 anos, quase 20, está fazendo faculdade, é meu orgulho. Ele gosta muito daqui e eu também. São coisas simples [que emocionam], quando você decide seu objeto de estudo, quando tem uma aceitação de ideia do seu orientador, quando vê que seu trabalho tem uma relevância, quando foi procurado para emitir minha opinião e um conhecimento técnico. Sinto-me lisonjeado em prestar esse papel”.

O que é ser biólogo?

“É ter outro olhar, uma sensibilidade, ver você como ser humano inserido num contexto geral, e não o centro das atenções, não ter uma visão egocêntrica, mas comunitária e visão coletiva”, diz José Milton Longo sobre a profissão biólogo.

Ele celebra que a profissão permite ter a visão micro e macro do universo e trazer isso para o cotidiano e para as relações pessoais. “Pauta na ética, que a natureza te ensina. Olhar e entender que a crise climática é séria, ter essa visão de como isso afeta os ciclos, olhar para uma árvore e ver o apelo pela água, necessidade da poda correta, ou só se deslumbrar da florada”.

A bagagem continua, atualmente. José é responsável pela Delegacia Regional de Mato Grosso do Sul do CRBio-01 (Conselho Regional de Biologia 1ª Região). A principal decisão foi a construção da própria empresa, a Fibracon, há 16 anos.

“Envolvi-me com o conselho para valorizar a profissão do biólogo. Desde 2020 a gente participa para divulgar palestras, encontros… Assim que sai da faculdade, percebi que sem fazer mestrado ou doutorado não ia conseguir tocar minha própria pesquisa. Minha vontade não era trabalhar só nas pesquisas dos outros. Estou feliz, não abri a empresa para ficar rico, mas para trabalhar com o que amo”, conclui.

Neste domingo, a propósito, o CRBio-01 faz atividades em alusão ao Dia do Biólogo no Parque das Nações Indígenas, gratuitamente, com exposição e manejo de serpentes, animais taxidermizados e exposição de abelhas sem ferrões das 8h às 13h.