ainda não chegou a 1 milhão de habitantes, mas há tempos ganhou o status de cidade grande. O trânsito hoje comporta mais de 600 mil veículos que formam um vai e vem diário pelas travessas, ruas e avenidas. E é na rotina corrida da capital, que completa seus 124 anos em 26 de agosto, que as histórias nascem.

Histórias como a de Enoque dos Santos, 29, que nasceu e vive até hoje na avenida Guaicurus. Há cerca de 30 anos, seus pais, então recém-casados, aproveitaram a oportunidade de realizar o sonho da casa própria e compararam uma casinha de esquina no bairro que mal tinha asfalto.

É ali, na avenida Guaicurus com a Eduardo Razuk Jorge que Enoque viu a cidade crescer e o desenvolvimento chegar. “Eu me lembro de brincar na rua, andar de bicicleta, não era tão movimentado e o asfalto terminava em frente a minha casa. Hoje a gente se habituou a ajudar vítimas de acidentes”, conta.

O barulho intenso, os acidentes e o cadeado na mangueira de jardim são detalhes de quem vive na maior avenida de Campo Grande. São mais de 10 km de extensão que abrigam casas, todos os tipos de comércio e, claro, de histórias.

Rua exclusiva de uma única casa(Foto: Henrique Arakaki/Midiamax)

Menor rua tem casa e CEP exclusivos

Menor rual
Consegue identificar a menor rua de Campo Grande? (Reprodução, Google Maps)

E qual a menor rua de Campo Grande? Uma travessa, de 28 metros e que compreende apenas uma casa. Na verdade, um escritório de advocacia, localizado na travessa Tibau, e que tem a exclusividade de possuir um CEP próprio.

Localizado bem próximo a avenida Ceará, o proprietário Jose Manoel Marques conta que, apesar da frente da casa estar na travessa Tibau, oficialmente consta a entrada na lateral. Mas mesmo em 20 anos trabalhando no local, não sabia que o endereço tinha tantas curiosidades. ” Aqui sempre foi escritório, mas o bairro oficial é Jatiúca Park, bem pequeno eu imagino”.

Tibau é um nome tupi, que significa “entre duas águas”. É o nome de uma cidade praiana no Rio Grande do Norte, mas, em Campo Grande, tem como característica ser a menor rua, rodeada por bares, universidade e casas.

Menor rua de Campo Grande(Foto: Henrique Arakaki/Midiamax)

Torres de transmissão promoveram o desenvolvimento

Pelos 10 km da avenida Guaicurus, é possível ir do rodoanel, na região norte, até outro extremo da cidade. A avenida abriga oficinas de caminhões, comércios, a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Universitário, além do museu José Antônio Pereira, um cemitério e diversas casas e comércios.

É possível, no entanto, que a principal característica da Guaicurus sejam as torres de transmissão de energia elétrica, espalhadas por toda a extensão da grandiosa avenida. Instaladas em 1973, as torres chegaram muito antes do comércio e das casas e foram percursoras do desenvolvimento.

Torres de transmissão de energia (Foto: Henrique Arakaki/Jornal Midiamax)

O gerente do departamento de de transmissão da Energisa, Adilson Carvalho Panizza, explica que as torres foram instaladas há 50 anos, como forma de levar energia elétrica para municípios da região oeste do Estado. A cidade então cresceu em volta das torres.

Com a cidade crescendo, as torres também passaram a levar energia para todos os novos bairros da região sul de Campo Grande. De acordo com a prefeitura, a avenida Guaicurus é divisa para seis grandes bairros.

Universitário, Moreninhas, Centro-Oeste, Alves Pereira, Los Angeles e Lageado, são grandes bairros de Campo Grande localizados na região sul, depois da avenida Guaicurus. Juntos, abrigam mais de 100 mil pessoas, conforme dados de 2010 do IBGE.

Enoque nasceu e cresceu na casa(Foto: Henrique Arakaki/Midiamax)

E quem mora na maior rua de Campo Grande, o que quer?

Segurança, transporte de qualidade e paz no trânsito são as principais reclamações de quem mora na avenida Guaicurus e proximidades. É unânime a sensação de insegurança, principalmente devido aos furtos e roubos, constantes na região.

Reportagem do Jornal Midiamax de fevereiro de 2023, mostra que os moradores da região se sentem inseguros, principalmente devido ao avanço da droga nos bairros e dos consequentes furtos nas residências. “Agora colocamos cadeado na mangueira de jardim porque já fomos furtados muitas vezes”, conta Enoque dos Santos.

Angelina dos Santos, 57, diz que mora na região há mais de 40 anos e reclama dos furtos recorrentes nas casas. “A gente não pode deixar nada para fora, que levam tudo”, conta ela, que também reclama da falta de .

Mais de 20 acidentes por mês na avenida

A extensão da via e o fluxo de veículos aliado à imprudência fazem da avenida Guaicurus perigosa. Nos seis primeiros meses do ano, foram registrados 126 acidente, sendo 47 com vítimas e uma morte confirmada.

Os dados da de Trânsito expõe a reclamação dos moradores, de alta velocidade, imprudência e acidentes. De acordo com a Agetran, de 2018 a 2023, oito cruzamentos foram semaforizados e implantados 10 redutores de velocidade.

Sonia Pereira, 60, sai do bairro diariamente para trabalhar no centro e diz que convive com a insegurança, que também inclui o trânsito. “A gente tem medo sim, porque o ônibus demora a passar, os carros e motos passam correndo e ainda tem os furtos”, diz.

Apesar do asfalto bom em maior parte da avenida, com alguns pontos mais críticos de ondulações, o último investimento de pavimentação asfáltica na Guaicurus, foi entregue em 2014, há nove anos.

Guaicurus é a maior?

A título de curiosidade, os dados de maior e menor rua de Campo Grande foram fornecidos pela Semadur (Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano). Oficialmente, a maior rua de Campo Grande é a avenida Zila Correia Machado, com 15,6 km de extensão e localizada no rodoanel.

A avenida Presidente Ernesto Geisel poderia liderar o ranking, se não fosse a mudança de nome, que ocorre por três vezes em sua extensão de mais de 11 km.