Passar pela maioria das regiões de Campo Grande e não encontrar um atacadista é algo raro. Das grandes prateleiras aos incêndios enigmáticos, todo mundo tem uma história para contar nestes lugares, onde o preço costuma ser melhor.

Na memória, fica o tumulto de inaugurações, as extensas filas, promoções que causaram até briga, a vontade de dirigir o “carrinho” que levanta mercadorias e até a peregrinação por caixas de papelão para levar a compra embora.

Hoje os clientes podem até escolher os produtos no varejo ou atacado e acompanhar o passo a passo da entrega. Muita água passou por baixo da ponte até chegar ao momento atual. Alguém aí sabe dizer como tudo isto começou em Campo Grande?

Casa Soares: a primeira rede atacadista de Campo Grande

(Jornal divulgando novas unidades dos Supermercados Soares. (Redes Sociais/Reprodução)

Constituída no dia 4 de março de 1963, com registro na Jucems (Junta Comercial do Estado de Mato Grosso do Sul), na folha 191, com a sociedade “Irmãos Soares”, a Casa Soares teve ao todo 14 lojas, com o primeiro atacadista de Campo Grande. No dia 8 de dezembro de 1988, a empresa mudou a razão social e, em 24 de março de 1993, encerrou as atividades.

Nos autos do poder judiciário inclusive consta o decreto de falência. Mas, mesmo não dando certo, os estabelecimentos deixaram muitas memórias no coração de muitos campo-grandenses, já que gerou empregos – primeira oportunidade para muitos – na década de 60, 70 e 80, além de abrir espaço para vários fornecedores de Mato Grosso do Sul, que antes não tinham oportunidade de vender os seus produtos.

Primeiro atacadista de Campo Grande e, ao lado, exemplo de um dos grandes atacadistas existentes na cidade. (Redes Sociais e Alicce Rodrigues/Jornal Midiamax)

“Como o tempo voa… hoje, olhando para trás, trago à memória com saudades as doces lembranças do meu primeiro emprego, em 1984, quando fui admitido no querido Supermercados Soares de Campo Grande. Era uma época especial, em que tudo parecia mais simples e puro”, afirmou ao Jornal Midiamax um dos ex-gerentes, Lindomar de Alencar Ferreira, de 52 anos.

Advogado, terapeuta e pastor evangélico, Lindomar ressalta que carrega muitos ensinamentos do tempo de mercado.

“As contratações aconteciam na acolhedora administração da empresa, lá nos fundos do Atacado Soares, que ficava próximo à saída para Cuiabá, onde está o famoso prédio do Goianão atualmente. Dali, eu já fui designado para ‘Loja 05’, que fica no cruzamento das avenidas Bandeirantes com a Afonso Pena. Este lugar se tornou mágico na minha vida, pois, eu tinha apenas 13 anos e lá dei os meus primeiros passos profissionais”, relembrou.

Na época, Lindomar disse que a “Rede Soares” era um símbolo para a cidade, com dez lojas ao todo. “Mas, na minha opinião, a loja 05 onde eu trabalhava tinha uma pegada arrojada, com arquitetura peculiar, atraindo muitos olhares. Era localizada em uma região nobre, mesmo que no Centro, bem na borda do querido bairro Amambaí. E encantava, mas, não eram somente os moradores da região que frequentavam o local”, disse.

Conforme o ex-funcionário, gente de todos os outros bairros faziam compras ali e logo se fidelizavam, principalmente, pela praticidade e acessibilidade garantida aos motoristas, mesmo sendo grande o fluxo de trânsito na região.

‘Energia daquele lugar nunca se apagou’, diz ex-funcionário

“Ali o fluxo era muito grande e um dos encantos é que era perto da antiga rodoviária, então, tinha um fluxo de gente de todo canto ali, vindo de outras cidades também, de fazendas adjacentes, tudo para fazer compras na Capital. Eu mesmo tive a honra de entregar compras na rodoviária a muitos viajantes e a alguns clientes especiais, que moravam nas redondezas. A energia daquele lugar nunca se apagou em mim”, comentou.

Conforme Lindomar, a loja em que atuava era fornecedora da Embrapa (Empresa Brasileira de Agropecuária) e, enquanto pacoteiro, ele ia até a sede da empresa, na saída para . “Eu levava documentos e notas, com toda a dedicação que um jovem aprendiz podia oferecer”, comentou.

Dentro da loja, ele fala que guarda “com carinho na memória” os corredores, repletos de gôndolas com mercadorias diversas.

“Ao fundo, tinham os balcões do açougue e fiambreria e, ao lado, o balcão de frutas, verduras e laticínios. Meu caminho pelos diferentes setores foi uma jornada de aprendizado e crescimento. Fui promovido, orgulhoso, desde o cargo de pacoteiro até o açougue, passando pela fiambreria, frutas e verduras, frios e laticínios”, explicou.

Atualmente, quando passa no mesmo endereço, diz que vê como o tempo transforma tudo. “Vejo a loja menor, como uma típica loja de bairro, mas, logo lembro que não foi ela que diminuiu, fui eu que cresci”, brincou.

Lindomar sempre conversa com antigos funcionários nas redes sociais. (Arquivo Pessoal)

Sobre as visitas da vigilância sanitária e chegada dos caminhões, Lindomar relembra que era um momento tenso. “Ficávamos muito preocupados em garantir o controle de datas de vencimento e isso tudo sem os recursos tecnológicos de hoje. Antes usávamos os formulários de papel. E os caminhões de abastecimentos chegavam em profusão, alinhados ao lado da loja, na Avenida Bandeirantes que, naquela época, tinha pista dupla. Eram das marcas Danone, Batavo, Aurora, Paulista, Coca-Cola, Arisco e tantas outras. E eu quem colocava tudo nas prateleiras”, disse.

‘Turbilhão do Plano Cruzado’: funcionários tinham medo da polícia ser acionada

No ano de 1986, Lindomar brinca que os corações “batiam mais acelerados”. “Os funcionários de supermercados tinham que lidar com os fiscais do Sarney, que ficam com as tabelas de preços nas mãos e causavam até calafrios. Qualquer preço diferente do estabelecido era motivo para chamar a polícia na hora”, contou.

Ao falar da falta de produtos, durante a “crise do Plano Real”, se lembrou das carnes. “A fila se estendia e aí também tinham o óleo, com a placa indicando que era somente três garrafas por pessoa. Tenho em mente tudo isso e também alguns rostos, nomes e sorridos de colegas de trabalho. Sempre me pergunto onde estarão estas pessoas. O Soares poderia ainda estar brilhando, como uma das principais lojas de varejo do Mato Grosso do Sul, quiçá do Brasil”, finalizou.

Cliente também se lembra das extensas ‘filas da carne’

Silvina diz que fez muitas compras no mercado Soares. (Alicce Rodrigues, Midiamax)

A atendente de creche Silvina Soares, de 65 anos, disse que trabalha na e frequentava o Mercado Soares, que funcionava na Avenida Mato Grosso, entre a Rua 14 de Julho e a Avenida Calógeras.

“Era ali, um pouco abaixo do Colégio Dom Bosco, do outro lado da rua. Eu ia lá bastante, uma vez por semana no mínimo. E lembro desta época, de ficar horas na fila da carne, tudo limitado por pessoa. Era um dos mercados maiores que tinha em Campo Grande acho que acabou porque abriram falência”, afirmou.

Ao passar pelo caixa, Silvina disse que gostava de ir na amiga dela, que se chamava Edineide. “A gente sempre conversava”, relembrou. A irmã dela, a aposentada Arlete Soares, de 67 anos, disse que a coincidência do sobrenome sempre foi motivo para o pai dela brincar e dizer que era o dono. “Nosso pai parava e falava: ‘Vamos descer no meu mercado’. Ele colocava a carroça e fazia as compras lá”, contou.

Amélia conta que vendia churros no mercado. (Alicce Rodrigues, Midiamax)

A também atendente de creche, Amélia Sabino Ferreira, de 64 anos, fala que vendia churros no mercado. “Tinha uma máquina de churros e eu trabalhava lá. Tinha bastante movimento e eu ficava nessa loja do centro e também na frente do outro mercado, ao lado do museu”, disse.

Dono de um comércio na frente do antigo Supermercado Soares, o qual existe desde 1951, o empresário Cláudio Renan, de 79 anos, disse que ia muito ao mercado, além do avô, tio, sogra e a esposa.

“Acredito que ali foi uma das primeiras lojas. Depois, adquiriram o espaço ao lado. Era o centro de distribuição deles. Eu comprava de tudo ali, pão, queijo logo cedo, tinha de tudo. E me lembro desta escassez da carne também”, comentou o empresário.

Empresário mostra onde funcionava um dos supermercados Soares. (Alicce Rodrigues, Midiamax)

O motorista José Carlos Arruda, de 51 anos, relembrou que, quando vinha de Corumbá passear em Campo Grande, sempre via a Casa Soares. “Eles tinham duas unidades centrais, uma nos altos da Afonso Pena e também a da Barão, onde foi um Comper depois e agora é uma igreja. A loja da Afonso Pena era a mais bonita, era tipo o Comper da Mato Grosso hoje”, comentou.

Ex-funcionários do 1º atacadista fazem ‘encontro anual’

Antigos endereços do supermercado Soares hoje abrigam outras lojas, na e Barão do Rio Branco. (Alicce Rodrigues, Midiamax)

Nesta busca por histórias, a reportagem também tentou entrevistar um dos proprietários da antiga rede. O filho de um deles, Fernando Augusto de Oliveira Soares, contou que eram quatro irmãos os proprietários e apenas o pai dele é quem está vivo.

“Tem muitas pessoas que trabalharam com a gente e inclusive estes antigos funcionários organizaram um encontro, uma festa anual que fazemos, algo que começou por parte deles. Foi uma empresa muito grande aqui em Campo Grande, com bons fornecedores, que iniciaram suas atividades com os Soares dando oportunidades, principalmente, porque antigamente era difícil se colocar no mercado e assim sucessivamente”, afirmou.

Atacadistas chegaram com variedade de produtos e tecnologia

Modelo de atual atacadista. (Alicce Rodrigues, Midiamax)

O tempo passou, a Rede Soares deixou de existir e novos estabelecimentos comerciais se instalaram na capital sul-mato-grossense. Atualmente, inúmeros atacadistas na cidade. Conforme consta na Jucems, existem 3.720 supermercados atacadistas ativos em Mato Grosso do Sul, sendo 1.538 em Campo Grande.

O Atacadão, por exemplo, possui lojas no Coronel Antonino, Aeroporto, Costa e Silva e inaugura a quarta unidade, no Centenário, nesta sexta-feira (25). O Assaí também possui quatro lojas: Jardim América, Mata do Jacinto e Santo Antônio, além da unidade Aero Rancho, prevista para inaugurar até o fim do ano.

Atacadistas possuem autoatendimento (Alicce Rodrigues, Midiamax)

Já o Grupo Pereira, detentor das marcas Comper, Fort Atacadista, Sempre Fort e Bate Fort, possui dez atacadistas na cidade. O primeiro, inaugurado no dia 23 de setembro de 2009, é a loja da Avenida Presidente Vargas.

A loja ainda não passou pela reforma, como na unidade do Coronel Antonino, por exemplo, porém, a previsão é que até setembro ocorra uma reforma e a unidade inclusive tenha padaria e açougue.

Há dez anos, o motorista de aplicativo Márcio Antônio de Souza, de 47 anos, que mora no bairro Santo Amaro, deixou um mercado próximo de casa e passou a ir somente no atacadista. “Tem muita facilidade, como a quantidade e variedade de produtos. É algo que você não encontra em um mercado comum. É um ou dois. Aqui já vem embalado, é só pegar e levar”, finalizou.

Funcionário manipulando empilhadeira em atacadista. (Alicce Rodrigues, Midiamax)

E você, tem alguma história no seu mercado ou atacadista favorito? Conte pra gente!

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