Audiência pública realizada na Câmara Municipal de Campo Grande sobre a rede de atendimento e proteção à criança e ao adolescente em situação de risco determinou uma série de medidas para evitar que casos como o da menina Sophia se repitam na Capital. A sessão foi marcada por protestos e ânimos exaltados.

O responsável por presidir a sessão, vereador Coronel Villasanti, deliberou sobre as medidas que devem ser adotadas pelos três poderes e segurança pública:

  1. Melhoria da capacitação com ação contínua dos profissionais da saúde, educação, conselheiros.
  2. Melhoria das condições da escuta especializada e depoimento especial.
  3. Ampliação dos conselhos tutelares para pelo menos nove em campo grande.
  4. Criação do centro integrado de atendimento a criança e adolescente onde todos os setores possam trabalhar no mesmo prédio.
  5. Criação da casa da criança, cujo projeto está sendo feito pela secretária de segurança pública.
  6. Vereadores se comprometeram a buscar recursos para construção de local especializado no atendimento de criança e adolescente.
  7. Fiscalização frequente da comissão permanente de direitos humanos. Fiscalizará a estruturação, funcionamento, atendimento, capacitação e cumprimento dos seus objetivos institucionais.
  8. Solicitação junto a delegacia geral de polícia para que a DEPCA (Delegacia de Proteção a Criança e ao Adolescente) tenha atendimento 24h.
  9. Melhorar estrutura dos conselhos tutelares
  10. Campanha publicitária de informação sobre rede de proteção.
  11. Avaliar a possibilidade de alternar a escolha dos conselhos tutelares por concurso público.

‘Transformando luto em luta’

Vestidos com uma camiseta que estampa uma fotografia ao lado da filha, Jean Carlos Ocampos e o marido, Igor de Andrade, relembram cada passo no processo de pedido de ajuda aos órgãos públicos, como o Conselho Tutelar.

Jean diz que a lembrança do sorriso da pequena é motivo para força na luta e evitar mais casos.

“Estamos transformando nosso luto em uma luta para que outras crianças não passem pelo que ela [Sophia] passou, para que outros pais não passem pelo que estamos passando. Estamos pedindo para que os órgãos deem mais atenção para quando tiver dois pais, duas mães, estamos reforçando para eles fazerem a obrigação. Foi uma negligência, teve descaso, foi omissão, porque olhavam para dois pais e esqueciam da criança. Fomos atrás, mas caminhamos no inquérito sozinhos”, disse.

Família acompanhou audiência pública (Foto: Henrique Arakaki/ Jornal Midiamax)

Ainda com a fala embargada, Jean lamenta os dias difíceis após a morte de Sophia. “Estou aqui por ela. Tem sido cada vez pior, falta ar, não conseguimos dormir e comer. A sensação é de revolta, assassinaram nossa filha. É um processo e estamos lutando para sair disso. Cada dia que passa a saudade aumenta, é muito difícil de prosseguir. Fazíamos tudo por ela. Trabalhávamos para comprar coisas para ela, hoje não tem mais”, disse.

Jean e o marido lamentam o fato de conheceram a história de Sophia após a morte, a audiência pública seria uma maneira de relembrá-la.

“O melhor lado dela conhecemos em vida. Ela era uma criança de luz, de alegria, doce. Todo mundo que passava na rua ela fala ‘oi’. Ela amava dançar, cantar. Nossa vida era cinza e quando a Sophia começou a frequentar nossa casa, trouxe luz e cor, tanto para a minha, a dela e família dela. Ela era felicidade, e vai ser para sempre nossa melhor lembrança”, diz Igor.

O Caso

Sophia Jesus OCampo, de 2 anos, foi morta e estuprada no fim de janeiro deste ano. Ela foi levada para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Coronel Antonino, na noite de quinta-feira, 26 de fevereiro, com sinais de estupro, já estava morta há pelo menos quatro horas, segundo as médicas que atenderam a menina levada pela mãe à unidade de saúde. A criança tem histórico de 30 atendimentos médicos recentes e a mãe já respondia por maus-tratos. Mãe e padrasto estão detidos.

Segundo o relato das médicas, quando a criança chegou à unidade de saúde, ela já estava morta há pelo menos quatro horas com sinais de rigidez, com hematomas por todo o corpo e sangramento pela boca. Ainda segundo as médicas, a mãe estava estranhamente tranquila e só ficou nervosa quando foi informada que a polícia seria acionada para o local.

Em exames feitos pelas médicas na unidade de saúde, elas constataram sinais de estupro na criança. Com a chegada dos policiais, a mãe da menina negou que tivesse levado a filha até a UPA já morta, mas disse que ela e o atual marido aplicavam ‘corretivo’ na criança.