Há quem diga que o douradense não é generoso e só pensa no próprio umbigo. Se isso tinha algum lastro de verdade, se desfez nos últimos dias. É o que mostra a trajetória de um catador de recicláveis de 70 anos, que ainda trabalha nas ruas da maior cidade do interior de Mato Grosso do Sul, que também é conhecida como a ‘Capital do Agronegócio', mas que, diante de uma adversidade, recebeu gestos de solidariedade.

Por volta das 17 horas da tarde de terça-feira (29), após ter estacionado uma Shirenay, 50 cilindradas, para pagar uma conta, Bráulio Batista Bento, conhecido como ‘Seu Trajano do Papelão', quase passou mal ao se deparar com agentes de trânsito que colocavam seu ganha-pão em um caminhão-guincho. Por irregularidades, seu instrumento de trabalho foi recolhido.

Naquele instante, o idoso levou um susto. Ele disse que ainda tentou argumentar com os agentes de que precisava do veículo, que estava atrelado a uma carretinha, para continuar garantindo sobrevivência. “Dependo dela para me manter. Levanto todos os dias antes das seis e cruzo a cidade em busca do material. Depois volto para casa, almoço e retorno para as ruas”, conta Bráulio.

Segundo informações da (Agência Municipal de Trânsito), o veículo estava estacionado de forma irregular na vaga de idoso. Além disso, o condutor não apresentou CNH (Carteira Nacional de Habilitação). Ainda segundo a agência, o veículo e também a carretinha estavam irregulares. 

Em conversa com a reportagem do Jornal Midiamax, o idoso também relata que a sua jornada diária é longa. “Fico mais de oito horas nas ruas para conseguir latinhas e papelões para levar até a Vila Industria, onde deixo tudo que pego”. O valor é pouco, mas é com esse que ele recebe o pagamento dos ‘dias de luta' e até então, quase sem glórias.

Mineiro de nascimento, com registro em Capina Verde, interior de Minas Gerais, o idoso, que também corre atrás de uma aposentadoria que demora para chegar, desembarcou em em 1958 e aqui se instalou. “Quero me aposentar, mas ainda não chegou a hora. Mas sinto que as coisas estão mudando para o meu lado”, relata.

Para alguns incrédulos que viram o recolhimento da motocicleta, a situação de Bráulio com certeza mudaria e para pior. O idoso ficou sem o veículo.  Entretanto, a história teve outro desfecho. Enquanto tudo acontecia na Avenida Marcelino Pires, o coach Bruno Telles passava pelo local e decidiu apontar o celular para registrar a ocorrência.

‘Corrente do bem'

Pouco depois, as imagens circulavam nas redes sociais começavam a chamar a atenção das pessoas e encontrar morada no emocional de cada um. Mais do que propagar a triste história do ‘Seo Bráulio', Bruno decidiu se aproximar do idoso e ouvir sua história. Emocionado, ele se ofereceu para levá-lo até sua casa.

“É importante dizer que a motinha estava com problemas. Ele tinha comprado o veículo há alguns anos, mas até então não tinha conseguido regularizar a documentação. Além disso, ela e também a carretinha estavam bem ruins. Diante daquela situação me solidarizei com o sofrimento dele e resolvi fazer alguma coisa. Aí então eu disse: nós vamos conseguir uma moto pro senhor”, explica Bruno ao Jornal Midiamax.

Aos poucos Bruno percebeu que não estava sozinho e que alguns amigos começaram a ligar para ele e também oferecer apoio. Aos poucos a ‘corrente do bem' foi ganhando corpo e arrastando gente. “O Felipe, que é um rapaz que eu conheço bem pouco, criou o grupo da ‘vakinha virtual' e eu então tomei a frente desse movimento. Decidimos então direcionar as doações para uma conta-poupança no nome do ‘Seo Bráulio', que ele tinha na Caixa”.

‘Mudou minha vida'

Até fechamento dessa matéria, as transferências para a conta do catador de recicláveis já passavam de R$ 12 mil reais. A arrecadação já é suficiente para comprar uma nova moto, contudo, Bruno achou melhor resolver também a documentação do condutor. “Seu Bráulio não tem habilitação e aí decidimos levar ele para a autoescola Padrão. Para a nossa surpresa ela decidiu doar os custos com a CNH (Carteira nacional de Habilitação) A e B”.

Mas as mudanças não param por aí. De catador de recicláveis, o idoso decidiu dar um passo e se transformar em um pequeno empresário. Com as doações (que ainda podem ser feitas por meio da chave 67998619171 – Bráulio Batista Bento – Caixa Econômica Federal), ele irá comprar uma Pampa e montar uma estrutura de garaparia e venda de sucos e salgados. “Esse papelão que aconteceu comigo, mudou minha vida”, brinca o idoso.