Cotidiano

'Viver com sopa de pé de galinha': famílias amargam fim do auxílio emergencial em Campo Grande

Sem perspectiva para novo auxílio, comunidades temem fome nos próximos meses

Mylena Rocha e Gabriel Neves Publicado em 27/10/2021, às 10h50

"Agora vai prejudicar a alimentação. Vai apertar muito", disse morador.
"Agora vai prejudicar a alimentação. Vai apertar muito", disse morador. - Gabriel Neves/Midiamax

A última parcela do auxílio emergencial é paga nesta semana e, com isso, quase 407 mil pessoas devem ficar sem nenhum tipo de ajuda do governo federal a partir de novembro em Mato Grosso do Sul. Apesar dos valores baixos, entre R$ 150 e R$ 375, o auxílio garantia a comida na mesa de famílias em situação de vulnerabilidade. Agora, muitos não sabem como irão se alimentar nos próximos meses. 

Em uma comunidade localizada no bairro Noroeste, o relato dos moradores é unânime: eles nem viam a cor do dinheiro. O auxílio ia direto para a compra dos alimentos e, sem ele, muitos não veem outro destino a não ser a fome. 

O beneficiário Adilson Benites, de 48 anos, mora em um barraco com mais oito pessoas na comunidade. Ele relata que recebia o auxílio emergencial há cerca de seis meses. O benefício era de R$ 150, o que não dá para pagar a metade de uma cesta básica. Mesmo assim, o dinheiro ainda fazia muita diferença.

“Eu usava tudo para alimentação. Para comprar a cesta básica, já ia uns dois meses de auxílio, eu já mandava direto para o cara que vende a cesta. Eu não via nem a cor desse auxílio, era para pagar a comida”, explica. 

Para garantir a renda para alimentar a esposa e os sete filhos, Adilson faz bicos como mecânico ou carpindo lotes. Mesmo assim, os bicos não são tão frequentes e ele já se preocupa com a compra da comida. “Agora vai prejudicar a alimentação. Vai apertar muito, está muito difícil aparecer trabalho”. 

Luciano de Souza, de 46 anos, é outro morador que já prevê a fome se aproximando. Ele ficou emocionado ao contar sobre as dificuldades que enfrenta com a miséria e que não consegue cuidar da mãe, que precisa de muitos remédios. 

“O auxílio não dá para quase nada, eu compro um pouco de comida e uso o que sobra com os remédios da minha mãe”, diz. 

Souza afirma que também pega bicos para se garantir, como carpir terrenos. Com o fim do auxílio, ele afirma que terá que escolher entre comer ou pagar os medicamentos da mãe. "Agora vou ter que viver de sopa de pé de galinha, é o que vai dar pra comer", lamenta. 

Mãe de três crianças, Natália Domingos Pereira, de 27 anos, também se vê desamparada com o fim do auxílio emergencial. Por ser mãe solteira, ela recebia R$ 375, renda que fará muita falta. Com um bebê de colo, ela também não consegue emprego.

O jeito vai ser buscar o Bolsa Família ou contar com a ajuda da vizinhança. “Aqui o bom é que, quando pode, vizinho ajuda o outro. Tá difícil pra todos, também não podemos contar muito com essa ajuda. Eu faço compra miudinha, o jeito agora vai ser diminuir a compra até conseguir fonte nova de renda para se alimentar normal”. 

Moradores enfrentam dificuldades no bairro Noroeste. (Foto: Gabriel Neves)

Famílias desamparadas

O governo federal termina esta semana de pagar a última parcela do auxílio emergencial 2021, com valores de R$ 150, R$ 250 ou R$ 375, dependendo da composição familiar. Com isso, 406.969 pessoas devem ficar sem nenhum tipo de ajuda do governo federal a partir de novembro em Mato Grosso do Sul, segundo dados do Ministério da Cidadania.

Isso porque, atualmente, o governo realiza pagamentos mensais na conta de 493.787 pessoas em MS. Porém, apenas 86.818 fazem parte do Bolsa Família e devem continuar recebendo ajuda através do Auxílio Brasil, que inicia em dezembro, com pagamentos mensais a partir de R$ 400. Os demais não estão incluídos em outros programas sociais do governo.

Jornal Midiamax