Cotidiano

Metade do lucro vai para gasolina: principal vilã faz motoristas de aplicativo 'pendurarem as chaves' em MS

Lucro passa por tantas deduções que o valor final de uma corrida chega a ser mísero

Fábio Oruê Publicado em 27/09/2021, às 14h00

Com tudo caro, motoristas por aplicativo enfrentam uma crise no setor de mobilidade urbana
Com tudo caro, motoristas por aplicativo enfrentam uma crise no setor de mobilidade urbana - Foto: Divulgação

Motoristas de aplicativo que antes forneciam 'sombra e água fresca' — literalmente — para os passageiros, mudando o panorama financeiro e de comodidade para milhares de pessoas, hoje sofrem vários 'baques' seguidos, por diversos motivos. O que antes eram 12 mil profissionais rodando por Campo Grande, hoje são apenas 7 mil, segundo estimativa da Applic-MS (Associação dos Parceiros em Aplicativos de transporte de passageiros, motoristas profissionais autônomos de Mato Grosso do Sul).

Os motivos para essa redução de 41% dentro da categoria são diversos: pandemia, crise financeira, diminuição de passageiros, mas a grande vilã para a debandada é a gasolina, que teve aumento médio de R$ 0,07 na Capital e passa dos R$ 6. No levantamento feito pelo Jornal Midiamax, há cerca de 50 dias, antes do último aumento, o preço do combustível podia ser encontrado até por R$ 5,63. Já o máximo era de R$ 5,94 e a média estava na casa dos R$ 5,69.

Desde 2019, quando Campo Grande vivia o auge dos aplicativos, o preço da gasolina subiu 44%, passando da média de R$ 4,08 para R$ 5,90. 

O combustível que move os carros, principal ferramenta de trabalho da categoria, é também para onde vai a maior parte do lucro que o profissional tem. "O motorista abastecendo R$ 100 daria 17 litros de gasolina, dando para umas 15 ou 16 viagens. Ganhando aproximadamente R$ 180. Menos os R$ 100 de combustível sobraria de R$ 80 a R$ 90 livre ao profissional", explicou Paulo Pinheiro, um dos representantes da categoria em Campo Grande.

"Só para você ter uma ideia: numa corrida de 10 km ela [empresa de mobilidade urbana] nos paga R$ 11. Menos R$ 5,50 de gasolina, menos 25% da taxa, nos sobra R$ 3,25", exemplificou Fuad Salamene, outro representante dos motoristas de aplicativo na Capital. "Para juntar algum valor bom temos que fazer de 25 a 30 corridas em umas 12h de trabalho", continuou. Segundo ele, de R$ 300 ganhos em corridas, o motorista gasta R$ 120 de gasolina.

Como mostrou reportagem do Jornal Midiamax, do número de motoristas que rodavam na cidade, pelo menos 30% trocou o veículo de quatro rodas pelo de duas e viraram motoentregadores

Motoristas viraram motoentregadores por conta da economia do veículo. (Foto: Marcos Ermínio/ Jornal Midiamax)
Motoristas viraram motoentregadores por conta da economia do veículo. (Foto: Marcos Ermínio/ Jornal Midiamax)

Sem perspectiva 

Nem a redução das taxas de aplicativos mais conhecidos, com a Uber e a 99 Pop, ajudaram a segurar os motoristas de aplicativo, já que a mudança é considerada 'irrisória' por grande parte deles. Além disso, a mudança também não ajudou a trazer de volta os cerca de 5 mil motoristas que deixaram de usar a plataforma.

"Não existe redução de taxa. O que elas fizeram foi aumentar o km de 90 foi para 1.18. Isso é irrisório", comentou Fuad. "Ainda não vimos esse aumento de motoristas voltando a trabalhar com as plataformas, pois essa mudança para nós ainda não é o suficiente", relatou Paulo. 

Com a melhora na situação da pandemia e o fim do teletrabalho em empresas e órgãos públicos, as pessoas voltam a sair mais de casa e a demanda pelo serviço de mobilidade urbana também pode aumentar. Para alguns motoristas ouvidos pelo Jornal Midiamax, nos momentos de pico, aqueles em que a população vai ou sai do trabalho, ainda compensa trabalhar. "Só saio no dinâmico", disse um. 

Motorista de aplicativo ainda não voltaram a ativa após abandono da plataforma. (Foto: Marcos Ermínio). 
Motoristas de aplicativo ainda não voltaram a ativa após abandono da plataforma. (Foto: Marcos Ermínio/ Jornal Midiamax). 

De acordo com Fuad, que roda em Campo Grande, as pessoas costumam sair mais nos primeiros 15 dias do mês, quando ainda têm dinheiro. "Do dia 15 em diante chega a ser desesperador", disse ele à reportagem. 

Por conta da debandada de profissionais e a demanda alta, para Paulo, somente quem perde é a população. "As chamadas ainda vão continuar sendo atendidas em um período mais longo do que anteriormente eram. Ou seja, antes as chamadas solicitadas eram atendidas em um intervalo de 3 a 5 minutos e essa mesma chamada passou de 7 a 10 minutos. Isso é terrível", opinou o representante. 

Luta por incentivos

Desde que a situação começou a ficar mais difícil para os motoristas de aplicativo, a categoria iniciou série de mobilizações em março deste ano, com objetivo de conseguir reajustes e condições melhores de trabalho.

Uma das pautas foi a redução do ICMS sobre gasolina em MS, que tem uma das maiores alíquotas do país. Apesar dos protestos, o governador Reinaldo Azambuja (PSDB) não concedeu a redução, que poderia melhorar o rendimento desses profissionais.

Para fugir da alta desenfreada da gasolina, a classe está em busca de incentivos para a instalação do GNV, que reduz os custos e aumenta o lucro dos motoristas. A discussão já foi iniciada com a MSGás, que propôs a mesma política que tem com os clientes de gás natural, incentivar a instalação de equipamento. Inicialmente, a ideia é oferecer um voucher no valor de R$ 2 mil como forma de incentivo aos motoristas para adaptarem os veículos, segundo Fuad.

Em nota, a MSGÁS informou que faz parte de um grupo de trabalho do governo do Estado que vai atuar em prol de buscar incentivos para a categoria. "O Grupo de Trabalho deve discutir questões como a redução de taxas do Detran, no IPVA (Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores) de carros convertidos e o incentivo estadual para a conversão de veículos convencionais em GNV".

*Colaborou Gabriel Maymone.

Jornal Midiamax