Cotidiano

Dia do Surdo: com população de 104 mil em MS, surdos ainda buscam por inclusão na sociedade

Em Mato Grosso do Sul, mais de 15 leis foram aprovadas para dar mais espaço à comunidade surda

Mariane Chianezi Publicado em 26/09/2021, às 08h04

None

Em Mato Grosso do Sul, mais de 104 mil pessoas comemoram neste domingo (26), o Dia Nacional do Surdo. A data, importante para a comunidade, celebra as conquistas aos surdos, mas também leva à reflexão sobre o quanto a inclusão ainda é necessária na sociedade.

O professor e presidente da AFAPS (Associação de Famílias, Amigos, Profissionais e Pessoas Surdas), Adriano de Oliveira Gianotto, de 39 anos, foi o primeiro surdo a conquistar o título de doutor em MS. Em recente colaboração em um trabalho de conclusão de curso de acadêmica da UFMS, Liliam Veronese, (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), explanaram sobre a importância da associação na vida das pessoas surdas, além das dificuldades que a comunidade enfrenta em situações do dia a dia.

Diariamente a associação recebe demandas dos associados surdos pontuando reclamações sobre as dificuldades de se comunicarem em locais onde precisam de atendimento, como lojas, delegacias, postos de saúde e supermercados.

Em Mato Grosso do Sul, são mais de 15 leis que beneficiam a comunidade surda. Isso para os adultos. Quando se fala em crianças, a situação é ainda mais difícil, pois o ensino carece de muitas adaptações. “Muitas vezes até tem intérprete de libras, que traduz a explicação dos professores para o estudante surdo, mas não fica com o estudante surdo na hora do intervalo (recreio), na entrada e na saída da escola, fazendo com o que o ambiente inclusivo seja deficitário, ineficaz”, cita o trabalho.

Na construção de uma sociedade melhor para os surdos, há leis aprovadas, como o projeto de lei nº 10.074/21, de 31/05/2021, que dispõe da inclusão de Libras (Língua Brasileira de Sinais) no ensino da rede municipal de educação.

“As pessoas surdas merecem respeito e dignidade de poder se comunicar, em todo e qualquer lugar que queiram ir”, diz trecho do trabalho de Liliam Veronese sob orientação do Dr. Adriano Gianotto.

Primeiro doutor surdo em MS

[Colocar ALT]
Dr. Adriano de Oliveira Gianotto | Foto: de arquivo pessoal

Surdo de nascença, Adriano de Oliveira Gianotto tem 39 anos e nunca deixou que as barreiras do preconceito fossem a diretriz da sua vida. Apesar das dificuldades que sempre enfrentou, desde a infância, ele não desistiu dos estudos e, na última semana, conseguiu se tornar o primeiro doutor surdo de Mato Grosso do Sul.

O canudo do curso de doutorado em Desenvolvimento Local, na UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), só foi conquistado porque Adriano expõe as necessidades da comunidade a qual pertence e luta para que ela ganhe, cada vez mais, espaço na sociedade.

Sua intimidade com os livros começou desde cedo quando ele ainda frequentava o Ceada (Centro Estadual de Atendimento ao Deficiente da Audiocomunicação). Depois, a vida acadêmica do campo-grandense passou pela Escola Estadual Adventor Divino de Almeida e continuou na faculdade de Pedagogia, onde conseguiu se formar com êxito.

Nessa trajetória, em busca de melhorias para os surdos, o pedagogo teve a pesquisa como aliada no doutorado com o tema “O protagonismo da pessoa surda do ponto de vista do desenvolvimento local”. O trabalho trouxe um resgate histórico em relação à educação voltada para esse público, em Mato Grosso do Sul, e propôs meios de inserção dos surdos nas instituições de ensino. Além de pesquisa bibliográfica, o estudo faz uma análise qualitativa a partir de entrevistas com surdos e ouvintes.

O doutor conta que durante a faculdade chegou a se sentir “invisível” e também sofreu muito bullying. “Não desisto, este é o esforço de estudo no caminho do sonho. Sou corajoso, guerreiro, vencedor e tenho fé”.

Setembro Azul

Conhecido como Setembro Azul, o mês de setembro é marcado por diversos eventos da comunidade surda. Assim, são celebradas várias datas, como forma de conscientizar a sociedade sobre a acessibilidade e também de comemoraras conquistas obtidas ao longo dos anos.

História

Então, sabia que a escolha do mês de setembro não foi feita por acaso? Pois é, o mês tem datas importantes para a comunidade surda, sejam elas lembranças das perdas do passado ou celebrações das conquistas. Confira:

  • 6/09 e 11/09: lembram o Congresso de Milão de 1880, no qual foi proibido o uso das Línguas de Sinais na educação dos surdos. Esse marco fez com que os surdos tivessem que se adaptar às línguas orais até que as línguas de sinais fossem novamente aceitas.
  • 23/09: anteriormente celebrado no dia 10/09 o “Dia Internacional das Línguas de Sinais” em Assembleia Geral das Nações Unidas, o dia 23 de setembro foi oficialmente aprovado em dezembro de 2017, na 72ª Assembleia Geral das Nações Unidas. No Brasil, a data estimula a discussão sobre a falta de acessibilidade em Libras, tanto nos ambientes físicos, quanto nos ambientes virtuais.
  • 26/09: Dia Nacional do Surdo. O dia foi escolhido por ser a data de fundação do INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos), a primeira escola para surdos do Brasil!
  • 30/09: celebra o Dia do Tradutor, no qual são feitas várias homenagens aos Intérpretes de Libras.

Mas, por que o Azul?

Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas identificavam as pessoas com deficiência com uma faixa azul no braço, por considerá-las inferiores. E os surdos também eram obrigados a usá-la. Com o fim da guerra e o passar dos anos, a cor passou a simbolizar, ao mesmo tempo, a opressão enfrentada pelos surdos e o orgulho da identidade surda.

Essa ressignificação do azul ficou marcada na Cerimônia da Fita Azul (Blue Ribbon Ceremony) em 1999, que lembrava os surdos que foram vítimas da opressão. Nela, o Dr. Patty Ladd (surdo) usou uma fita azul no braço pela primeira vez como símbolo do movimento. Hoje, a cor azul-turquesa é usada por ser uma cor viva e vibrante, que representa a riqueza cultural de uma comunidade surda.

Jornal Midiamax