Cotidiano

Com clima de deserto, lagoas de Campo Grande agonizam e vida dá lugar à morte

Lixo também é um problema recorrente no Lago do Amor e na Lagoa Itatiaia

Ranziel Oliveira Publicado em 26/09/2021, às 07h22

Com efeito da estiagem, Lagoa na Avenida Tamandaré secou
Com efeito da estiagem, Lagoa na Avenida Tamandaré secou - (Foto: Leonardo de França / Jornal Midiamax)

Os cursos d’água de Campo Grande têm sofrido com a estiagem severa que assola o território sul-mato-grossense. O que antes eram cartões postais exuberantes como a Lagoa Itatiaia, Lago do Amor e o Parque Água Limpa, agora se tornaram espaços de terra seca.

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Lagoa durante uma seca em 2006. Área ao fundo foi reflorestada. (Foto: Arquivo Pessoal / Mário testa)

A situação drástica causada pelas altas temperaturas é visivelmente notada no Parque Água Limpa — reserva ecológica situada na avenida Tamandaré — que secou totalmente pela primeira vez, desde a sua criação em 2008. “Estamos há 9 anos aqui, é a primeira vez que isso acontece”, disse Mário Testa, de 40 anos.

Mário explicou que é gestor da Park Empreendimentos Imobiliários Ltda, que realiza a manutenção no entorno do parque ecológico, mas não tem a responsabilidade de gerir a reserva ambiental. Segundo ele, o local corresponde a uma área de 30 hectares de área reflorestada pela empresa, com mais de mil mudas plantadas.

Com a lagoa sem água, a fauna local foi gravemente afetada e os animais que ali habitavam foram aos poucos sumindo. “Com a seca, as capivaras sumiram, elas ficavam perto dos buritis. O tamanduá sumiu há algumas semanas e os preás pararam de vir”, disse ele.

O local que um dia foi a sede de uma fazenda, com um lago rico em vida, agora agoniza pela falta de chuvas e a morte iminente dos peixes que ali habitam.

Lago do Amor e o lixo 

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Pássaro anda sobre lixo e vegetação no Lago do Amor (Foto: Leonardo de França / Jornal Midiamax)

Para quem frequenta o Lago do Amor, no bairro Pioneiros, há mais de 10 anos, os efeitos da seca são visíveis, mas não ao ponto de mudar o cenário drasticamente.  “Aquele sumidouro não está com 10% do fluxo, normalmente é mais intenso. Quando chove você vê bem a diferença, o lago está bastante assoreado”, disse o comerciante Antônio Souza Gonçalves, de 57 anos.

Vendedor de coco e churros, seu Antônio explica que sempre recolhe o seu lixo e mantém o lugar organizado, porém o comportamento de uma minoria destoa do correto. “A gente guarda os cocos e põem na lixeira. A maioria do lixo vem da enxurrada. Nós catamos o lixo periodicamente, mas alguns clientes não ajudam”, disse ele.  

Morando há um ano em Campo Grande, Fabiane Escobar, de 34 anos, estava visitando o ponto turístico pela primeira vez. Na sua opinião, o fato do lago estar sujo tem um motivo muito claro. “São as pessoas que não têm responsabilidade ambiental”, disse ela.

Seca jamais vista 

Uma das situações mais lamentáveis atualmente na Capital é protagonizada pela Lagoa Itatiaia, porque, além do lixo, o local sofre com uma das maiores secas da sua história e a formação de bancos de areia. “Moro na região desde 2006, ela está bem seca. Acho que cada vez ela está secando mais. Ano passado secou, mas não como agora”, disse Juliane Martins, de 45 anos. 

Triste com a situação, a moradora relembrou as tardes em família que vivenciou na lagoa, ficando indignada com a falta de bom senso da população. “Aqui a gente considerava como um ponto de lazer. É triste ver ela assim. Tem bastante lixo, mas o que eu vejo são as pessoas sem educação, que não têm cuidado”, disse ela.

Para quem cresceu observando a lagoa, as secas fazem parte do processo natural das estações, mas a desse ano registrou um marco negativo para os moradores. “O que está acontecendo é por causa da seca, mas essa é a pior que a gente já viu nela”, disse o comerciante Anderson, de 28 anos.

Com mais de 18 anos de bairro, o comerciante observa o comportamento dos frequentadores da lagoa há anos e explica que muito da sujeira é deixada pelos próprios visitantes. “Tem muita sujeira, o povo é porco. Geralmente são pessoas de outros bairros que deixam o lixo”.

Nível da Lagoa Itatiaia caiu drasticamente (Foto: Leonardo de França / Jornal Midiamax)

Sem medida de contenção

A prefeitura de Campo Grande foi questionada pela reportagem sobre a possibilidade de uma intervenção ambiental no local, para evitar o agravamento da situação na Lagoa Itatiaia. Em nota, a gestão informou que se trata de uma Lagoa natural, portanto, ela tem o seu nível de água variando de acordo com o nível do lençol freático. De forma que, neste período de estiagem, é esperado que a Lagoa tenha naturalmente o volume de água reduzido.

Sobre o acúmulo de lixo, a administração municipal informou que em relação à limpeza, a demanda foi encaminhada para a Sisep (Secretaria Municipal de Infraestrutura e Serviços Públicos) para que sejam tomadas as devidas providências.

O clima

A estação das flores começou no dia 22 e pode ter chuvas abaixo da média climatológica, aponta prognóstico do Cemtec (Centro de Monitoramento do Tempo e Clima de MS), divulgado na quinta-feira (16), para a primavera.

Conforme a previsão, a média climatológica para o trimestre Outubro-Novembro-Dezembro indica que as chuvas variam entre 300 a 700 mm em MS. Segundo os modelos, a previsão indica que as chuvas não superarão a média climatológica, ficando abaixo ou dentro dela.

Jornal Midiamax