Cotidiano

Mortes por síndrome respiratória disparam, mas SES-MS nega ‘maquiagem’ nos casos de Covid-19

Estudo que sugere falta de testagem foi divulgado por Átila Iamarino; SES e Sesau afirmam verificar todos os casos de SRAGs internados.

Humberto Marques Publicado em 08/06/2020, às 15h28 - Atualizado em 09/06/2020, às 11h25

Comparativo põe Campo Grande com 11 mortes por SRAG para cada de Covid-19. (Imagem: Lagom Data/Fonte: Ministério da Saúde, dados até 18 de maio)
Comparativo põe Campo Grande com 11 mortes por SRAG para cada de Covid-19. (Imagem: Lagom Data/Fonte: Ministério da Saúde, dados até 18 de maio) - Comparativo põe Campo Grande com 11 mortes por SRAG para cada de Covid-19. (Imagem: Lagom Data/Fonte: Ministério da Saúde, dados até 18 de maio)

Uma postagem realizada pelo microbiologista Átila Iamarino, replicando dados de uma organização de pesquisa sobre o avanço das SRAGs (síndromes respiratórias agudas graves) no país, causou suspeitas de subnotificações de mortes por coronavírus, a Covid-19, em Mato Grosso do Sul, que mantém índice muito abaixo dos demais Estados e em comparação ao restante do planeta neste momento de pandemia.

Isso porque o estudo por ele destacado sugere falta de testagem para o novo vírus até mesmo em Campo Grande, fato negado pelas Secretarias de Saúde locais nesta semana. Na sexta-feira (6), o biólogo replicou um estudo da Lagom Data sobre as SRAGs, correlacionando sua incidência com a Covid-19.

“Pra quem é de estados com poucos casos de Covid-19, como MG, PR, MS e outros nessa lista, cuidado com essa síndrome respiratória aguda que também tá matando. Ela cresceu como a Covid, mata como a Covid, é infecciosa como a Covid. Mas só é mais comum onde não se testa Covid-19”, postou ele em seu perfil na rede social Twitter.

Estudo que sugere falta de testagem foi divulgado por Átila Iamarino; SES e Sesau afirmam verificar todos os casos de SRAGs internados.
Comparativo da Lagom Data vê razão de 1,7 mortes por SRAG para cada de Covid-19 nas capitais. (Imagem: Lagom Data/Reprodução)

A postagem de Átila replicou o estudo da Lagom, conduzida pelo jornalista Marcelo Soares, especialista em Dados e professor, e que vem se dedicando a realizar um acompanhamento diário da evolução do coronavírus no país. Seu comparativo indicou que cidades que têm baixa incidência de Covid-19 registraram aumento considerável nos casos de SRAGs.

Saúde nega subnotificações indicadas em post de Átila e confirma testagens

Em nota, a SES (Secretaria de Estado de Saúde) afirma que investiga 100% dos óbitos por SRAG em Mato Grosso do Sul, todos sedo notificados em bancos de dados como o Sivep-Gripe e testados no Lacen (Laboratório Central) para diagnóstico de influenza (A H1N1, A H3N2 e Influenza B), Covid-19 e painel viral (metapneumovírus, adenovírus, parainfluenza 1, parainfluenza 2, parainfluenza 3 e vírus sincicial respiratório).

“Os óbitos de SRAG que tem resultado negativo após testagem para todos esses vírus respiratórios são encerrados no sistema de informação Sivep-Gripe como óbito por SARG não especificada”, destacou a SES, apontando ser este o padrão seguido nacionalmente.

O último boletim da Influeza divulgado pela pasta, em 5 de junho, aponta haver 218 óbitos por SRAG neste ano no Estado, sendo 196 negativos para Covid-19.

Estudo que sugere falta de testagem foi divulgado por Átila Iamarino; SES e Sesau afirmam verificar todos os casos de SRAGs internados.
Comparativo da SES aponta alta de casos de SRAG em 2020, ano da pandemia de coronavírus. (Imagem: Reprodução)

“Portanto, não são SRAGs não especificadas pela ausência de testagem e sim por terem sido negativos (não detectável) para todos os vírus respiratórios pesquisados no Lacen-MS”, prossegue a nota, reiterando que todos os casos são tratados como Covid até se ter o resultado laboratorial negativo ou outro diagnóstico.

No boletim, a SES apontou 2.155 casos notificados de SRAG que mereceram hospitalização, sendo 78 de influenza, com 8 óbitos (3 por H1N1, 4 por Influenza A não subtipado e 1 de Influenza B).

No quantitativo total, foram 38 casos de H1N1, 6 de H3N2, 88 de Influenza A não subtipado e 35 de Influenza B. Quanto aos vírus respiratórios identificados, houve 101 casos de adenovírus, 107 de metapneumovírus, 110 de vírus sincicial respiratório, 84 de parainfluenza tipo 1, 76 de parainfluenza tipo 2 e 98 da tipo 3, perfazendo 576 casos –assim, haveria 1,4 mil casos fora dessas tipificações.

A Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), por sua vez, reiterou que todos os casos de quadro respiratório sintomáticos passam por testagem para identificação de coronavírus. Campo Grande sedia um sistema de drive-thru em parceria com o Governo do Estado no qual, após teleconsulta, é feita orientação para coleta de amostras.

Pacientes também são orientados a comparecerem a UPAs ou à unidade avançada no Parque Ayrton Senna para passarem pelo teste de identificação de Covid-19.

Nesta segunda-feira (8), Mato Grosso do Sul totalizou 16.536 notificações de coronavírus, com 12.482 casos descartados e 2.324 confirmados, havendo ainda 372 amostras sob análise no Lacen e 1.358 aguardando encerramento nos municípios.

Campo Grande totalizou 398 casos no boletim, ante 613 de Dourados, que tem o maior número entre os municípios do Estado. Os números foram finalizados às 19h de domingo (7). O balanço ainda aponta o volume de casos de SRAG e SG (profissionais de Saúde e de forças de segurança, contatos domiciliares com casos confirmados, idosos e portadores de doenças crônicas) aguardando encerramento nos municípios: são 1.730, sendo 661 na Capital.

Postagem

Nas redes sociais, o estudo replicado por Átila sugere que em Campo Grande, cada óbito causado pelo coronavírus teria outras 11,6 mortes por SRAG –síndromes que incluem a Covid-19. “Nos Estados, o que me preocupa é a seguinte lógica: se o problema é a Covid, governador resolve o problema testando mal e dizendo que venceu a Covid. Enquanto isso, pacientes com suspeita vão morrendo por síndrome respiratória, mas isso não é problema se não chamar de Covid”, postou Marcelo Soares.

Reunindo todas as capitais, ele chegou à média de 1,7 morte atribuída à SRAG para cada uma de Covid-19. “Mas isso varia muito por região e por capital”, advertiu. “Onde a taxa detectada de Covid é mais alta, menos mortes são atribuídas à SRAG. Nesses Estados, costuma haver mais testes”, explicou em outra postagem.

Átila – biólogo e doutor e microbiologia com parte de sua formação em Yale (EUA) e conhecido divulgador científico em canais como o seu no Youtube– tem sido uma das vozes mais ouvidas sobre a pandemia de coronavírus no Brasil, sendo responsável pela divulgação de projeções que mostravam a chance de a doença ter um avanço descontrolado no país, atingindo milhões de casos e de mortes.

Jornal Midiamax