Cotidiano

Em esforço sobre-humano, brigadistas colocam vida em risco para salvar Pantanal do fogo

Por trás dos mais de 1,8 milhão de hectares já queimados do Pantanal sul-mato-grossense existe uma profissão que merece tanto destaque quanto à violência do fogo que consome fauna e flora do bioma. Quem se arrisca em meio às chamas não coloca em perigo apenas a própria vida, mas também a saúde psicológica, e enfrenta […]

Danielle Errobidarte Publicado em 09/10/2020, às 15h49 - Atualizado em 10/10/2020, às 11h58

Brigadistas trabalharam dia e noite para conter queimadas no Pantanal. (Foto: Henrique Arakaki)
Brigadistas trabalharam dia e noite para conter queimadas no Pantanal. (Foto: Henrique Arakaki) - Brigadistas trabalharam dia e noite para conter queimadas no Pantanal. (Foto: Henrique Arakaki)

Por trás dos mais de 1,8 milhão de hectares já queimados do Pantanal sul-mato-grossense existe uma profissão que merece tanto destaque quanto à violência do fogo que consome fauna e flora do bioma. Quem se arrisca em meio às chamas não coloca em perigo apenas a própria vida, mas também a saúde psicológica, e enfrenta diariamente o desânimo constante em ver os incêndios na maior planície alagável do mundo.

24 horas foi o tempo suficiente para o repórter fotográfico do Jornal Midiamax Henrique Arakaki experimentar um pouco da rotina sem horário ou conforto dos brigadistas do PrevFogo na fazenda Santa Clara, em Corumbá. Dividindo espaço com profissionais de outros estados, como Piauí, Pernambuco e Bahia, a profissão em Mato Grosso do Sul não é outra coisa senão acolhedora, e por isso, os trabalhadores aceitam integrar o fotógrafo à equipe.

Com a ‘sorte’ de terem extinguido um foco na Fazenda Santa Clara, os brigadistas finalmente poderiam voltar para a casa. A estadia não é maior que 24 horas. Eles estavam instalados no Hotel Santa Catarina, um dos locais que abrem as portas sem custos para quem precisa de apenas um lugar para dormir.

Em Corumbá, os que voltaram sabiam que seriam realocados para outro combate nas próximas horas: ou para o fogo ao redor da BR-262, ou para a Serra do Amolar. Em média, a cada 10 dias de combate, eles passam um na cidade branca.

Em esforço sobre-humano, brigadistas colocam vida em risco para salvar Pantanal do fogo
Brigadistas preparam mangueiras e EPIs para novo combate. (Foto: Henrique Arakaki)

Depois do almoço, a estadia do fotógrafo na Fazenda Santa Catarina lhe deu a oportunidade de conversar por algumas horas com os brigadistas. A jornada não tem hora para começar nem terminar – o fogo não espera. Os brigadistas do PrevFogo são contratados por seis meses pelo Ibama, e muitos esperam desde 2011 uma promessa feita pelo órgão, responsabilidade do Ministro do Meio Ambiente do Governo Federal, de que serão efetivados. Todos os anos precisam passar por uma prova de resistência, que a partir da efetivação passa a ser diária.

Divididos em vários grupos pelo Pantanal, eles sobrevivem de doações de fazendeiros e dos motoristas que se comovem com a realidade heroica. Quando passam por eles viaturas da PRF (Polícia Rodoviária Federal), ou fazem paradas em postos de combustíveis, reabastecem o fôlego e os mantimentos. Um motorista que passava pela equipe deixou trinta fardos de água, que durariam apenas alguns dias.

O trabalho à noite é menos desgastante e cansativo. Por isso, eles relatam que é mais fácil achar os focos de incêndio com a luz apenas da lua, a diminuição da velocidade dos ventos e por ser mais fresco sem a intensidade do sol. Os que saem de Corumbá recebem, além do salário mínimo – que é, em média, de R$ 1.045 – uma diária de R$ 180.

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Incêndio na Fazenda Santa Clara, em Corumbá-MS. (Foto: Henrique Arakaki)

Sem muito tempo para descanso, são chamados do Passo do Lontra em direção ao quilômetro 706 da BR-262, para controlar as chamas próximas à rodovia. O fogo próximo a ponte sob o Rio Paraguai, entre Corumbá e Miranda, é o primeiro de uma noite que promete ser longa.

Por volta das 23h, são chamados pela terceira vez para controlar queimadas na Fazenda Santa Clara. Dois tratores emprestados por fazendeiros vizinhos ajudam a transportar água e os mantimentos. Mas na doação faltou o mais importante: o tanque chegou vazio. Para buscar água, a espera é de pelo menos três horas em outra fazenda próxima.

Os borrifadores d’água e assopradores só conseguem controlar focos pequenos e, por isso, a espera é a única certeza. Os “cálculos” também não são os mais precisos. Sem comunicação ou rádios individuais para contato entre eles, o tempo e distância entre uma fazenda e outra para encher o tanque pipa é calculado com a régua do “mais ou menos”.

Pelo trabalho exaustivo que têm, os brigadistas aproveitam esse momento de espera para descansarem, ali mesmo na caçamba do trator. A noite os riscos de encontrarem animais peçonhentos no caminho aumenta, por isso eles usam caneleiras e todos os EPIs (equipamentos de proteção individual) disponíveis. Enquanto uns dormem, outros cuidam a direção das chamas, e depois se revezam.

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Fogo em torno da BR-262, próximo a Corumbá. (Foto: Henrique Arakaki)

A madrugada não foi boa. Após três horas de espera, por volta das 2h do domingo parte da equipe que saiu para encher o tanque pipa ainda não havia retornado. Na fazenda que os reabasteceria, o que conseguiram de água mal dava para começar. Por volta das 6h30, todos já estavam em pé novamente.

A próxima “operação”, como é chamada por eles, é fazer uma ronda pelas áreas já combatidas. Numa trilha na Fazenda Santa Clara, que costuma receber turistas de diversas partes do mundo na alta temporada, os brigadistas encontram um homem colocando fogo na trilha que cruza as fazendas da região.

Por lei, os brigadistas não têm poder para decretar a prisão em flagrantes como esses. O que os resta é relatar às autoridades o ocorrido em relatório, feito diariamente. Apesar da gravidade, os brigadistas já desconfiavam que, pela insistência do surgimento de novos focos próximos uns aos outros, a queimada era criminosa.

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Brigadista aproveita tempo entre a chegada de água para descansar. (Foto: Henrique Arakaki)

Segundo eles, alguns fazendeiros ordenam que seus funcionários coloquem fogo em propriedades próximas, para que chegue até as deles e limpe o pasto para a criação de gado ou plantação de culturas. Assim, caso haja inspeção dos órgãos reguladores, a perícia não apontaria suas propriedades como foco inicial das chamas.

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Durante a noite, o trabalho é menos cansativo sem a luz do sol. (Foto: Henrique Arakaki)

Entre os brigadistas, muitos sabem que a maior parte dos incêndios são criminosos. Entretanto, a ajuda dos fazendeiros próximos é maioria em meio aos que insistem em degradar o bioma – ainda mais. Não existem sedes do Ibama e nem do PrevFogo pela região da Estrada Parque. A hospedagem, alimentação e o suprimento mais importante, a água, depende da boa vontade e disposição de quem mora próximo aos locais das queimadas.

No fim, muitos se sentem desanimados por perceberem que o trabalho das brigadas nunca será suficiente se esses atos de irresponsabilidades não deixarem de acontecer. Ao retornarem à sede da Fazenda Santa Clara, o pouco tempo de descanso é usado para repetir para si mesmo o resumo do trabalho de um brigadista em meio ao fogo: “tem que ser forte, ter a mente tranquila”.

Jornal Midiamax