Cotidiano

Mesmo com visual trevoso, drag assassinada é lembrada como divertida e iluminada

Eder Henrique, assassinado na noite de sexta-feira (20) é lembrado por sua drag queen com looks góticos e da luz e diversão que levava pelos lugares.

Dândara Genelhú Publicado em 21/12/2019, às 12h55

Apollo Black era a drag queen de Eder.
Foto: Reprodução/ Instagram
Apollo Black era a drag queen de Eder. Foto: Reprodução/ Instagram - Apollo Black era a drag queen de Eder. Foto: Reprodução/ Instagram

Conhecida por ser “anti-diva”, dona de looks trevosos e shows de cair o queixo, a drag queen Apollo Black era muito mais do que uma gótica da noite LGBT+ de Campo Grande. Eder Henrique Brites Ferreira Coenga, artista que dava vida a Apollo, é lembrado pelas colegas de trabalho como um rapaz divertido e iluminado.

Eder, que foi assassinado na noite da última sexta-feira (20), era conhecido por suas performances excepcionais. “Tudo que ele fazia era extremamente elaborado, tanto como Eder, quanto como Apollo”, lembra Rafa Spears, drag e grande amiga do jovem.

“Conheci a Apollo quando eu tinha uns 14 anos e ela era uma das minhas maiores inspirações no mundo drag. Ela me apoiou desde essa época, porque só fui me montar de drag queen mesmo aos 20 anos”, conta Rafa, de 26 anos.  A drag, que além de amiga era colega de trabalho de Eder, comenta que o jovem dava muita importância para a arte. “O que ele costumava dizer para a gente é que tudo vira arte, ele explicava que até o lixo poderia virar arte se você trabalhasse nele”.

Mesmo com visual trevoso, drag assassinada é lembrada como divertida e iluminada
Apollo Black e Rafa Spears, montadas e sem caracterização.
Foto: Reprodução

Entre suspiros de pesar, Rafa ri ao lembrar das histórias engraçadas que já viveu com Eder. “Já aconteceu de, em viagem, a gente não conseguir pegar um carro de aplicativo, porque ele era muito gótico na hora de se montar. Às vezes ele estava com chifres enormes na cabeça e acontecia dos motoristas inventarem qualquer desculpa para passar reto”, conta com tom de felicidade.

“Mesmo que ele fosse trevoso assim, sempre de preto, a pessoa dele era extremamente iluminada”, afirma Rafa Spears. A drag conta que estava trabalhando na noite do crime e que “ninguém esperava que isso viesse a acontecer, foi do nada. A hora que eu peguei o celular e vi a notícia, já comecei a avisar as outras manas. Na hora me veio tudo que vivemos, todas as viagens de trabalho”.

Show de réveillon

Apollo Black, drag de Eder, se apresentaria em uma casa de shows na noite da virada do ano. Jhannine Perry, drag de 22 anos, dividiria o palco com ele. “Estava conversando com ele para pegar algumas ideias, já que é mais veterano do que eu, mas acabou que não consegui falar mais com ele, infelizmente”, lamenta.

Mesmo com visual trevoso, drag assassinada é lembrada como divertida e iluminada
Jhannine Perry e Apollo Black.
Foto: Reprodução/ Instagram

Logo no início da carreira, Jhannine conheceu Eder em uma competição de drag queens. “Eu nunca tinha visto ele porque era bem nova no ramo, mas ele me aconselhou e elogiou pela competição. Foi uma conexão incrível, daí começamos a conversar, viramos amigos e fizemos diversos shows juntos”.

A drag que era muito próxima de Eder explica que mesmo parecendo ser um pouco fechado, o rapaz levava diversão por onde passava. “Ele era muito brincalhão, mesmo sendo muito na dele, acabava brincando muito. Sempre ajudava nas dificuldades, era muito amigo e companheiro de todos”.

Com o ocorrido, Jhannine comenta que irá homenagear Eder na virada do ano. Quando questionada se já tem alguma ideia sobre a performance, ela responde de prontidão: “Careca!”.

“Ele era conhecido pela careca na drag dele. No início do ano eu já tinha feito uma apresentação careca, em homenagem, mas vou finalizar o ano assim, careca igual ele, como tinha que ser”, comenta com a voz trêmula das emoções. Segundo o representante da casa de shows LGBT+, Deko Giordan, a festa de réveillon será mantida em forma de tributo.

Mesmo com visual trevoso, drag assassinada é lembrada como divertida e iluminada
Uma das características da drag de Eder era a cabeça raspada. Foto: Reprodução/ Instagram

Apesar do bar ter cancelado a programação na noite da sexta-feira (20), ele garante que neste sábado (21) estarão de portas abertas. “A alegria, o carinho e o profissionalismo de um artista não se apagam fácil! Acreditamos que é assim que ele gostaria que fosse”, disse.

Emocionada, Jhannine conta sobre a apresentação que fizeram que mais lhe marcou durante a carreira. “Na apresentação, ela representava uma deusa e eu me sacrificava para dar vida a ela. Pensando nessa performance, isso era tudo que eu queria hoje, dar um pouquinho da minha vida para ela continuar aqui com a gente”, suspira ao contar o desejo. 

Jornal Midiamax