Cotidiano

‘Não é só pelo diesel’: em MS, caminhoneiros parados pedem de intervenção a ‘Fora Temer’

Iniciada há nove dias, a greve dos caminhoneiros segue por rumos incertos, ao menos em Mato Grosso do Sul, por assim dizer, já que caminhoneiros nos pontos de bloqueio afirmam não reconhecer lideranças que assinaram acordo com o governo Federal.

Guilherme Cavalcante Publicado em 29/05/2018, às 08h29 - Atualizado em 30/05/2018, às 08h55

Caminhoneiros relatam ameaças a quem "desertar" paralisação (Foto: Henrique Kawaminami | Midiamax)
Caminhoneiros relatam ameaças a quem "desertar" paralisação (Foto: Henrique Kawaminami | Midiamax) - Caminhoneiros relatam ameaças a quem "desertar" paralisação (Foto: Henrique Kawaminami | Midiamax)

Iniciada há nove dias, a paralisação dos caminhoneiros, que interditaram estradas Brasil afora contra sucessivas altas do diesel, segue com uma lista de reivindicações que inclui desde ‘intervenção militar’ até a renúncia do presidente Michel Temer (MDB). Ao menos em Mato Grosso do Sul, já que caminhoneiros nos pontos de bloqueio não reconhecem lideranças que assinaram acordo com o Governo Federal.

Há até relatos isolados de suposta intimidação e ameaça. É difícil quem fale abertamente a favor de abandonar a mobilização. Até mesmo o Sindicam (Sindicato dos Caminhoneiros de Mato Grosso do Sul), alinhado à AbCam (Associação Brasileira dos Caminhoneiros) – que assinou o acordo com o governo -, afirma que a paralisação da categoria deve continuar normalmente.

“Pelo menos aqui, em MS, o movimento preferiu continuar parado. Os integrantes acham que o governo não está sendo honesto e que na redução de 46 centavos anunciada nas refinarias, talvez nem metade chegue nas bombas nos postos de combustível”, comenta Roberto Sinai, integrante do Sindicam-MS. Muitos motoristas, no entanto, dizem que sequer sabem ‘quem é Sinai’.

“Se fosse só pelo diesel…”

'Não é só pelo diesel': em MS, caminhoneiros parados pedem de intervenção a 'Fora Temer'
Paralisação da categoria chega ao nono dia e caminhoneiros afirmam que seguirão parados (Foto: Henrique Kawaminami | Midiamax)

Durante os 9 dias de protestos, ficou cristalizada a percepção de que a greve dos caminhoneiros não possui comando centralizado.

De motoristas de caminhão autônomos a caminhoneiros empregados em pequenas e grandes empresas, o movimento reúne reivindicações diversas, que podem manter a mobilização, mesmo com os acordos anunciados pelo Governo Federal.

A propósito, a palavra greve é normalmente rejeitada. Por outro lado, as frases de apoio à “intervenção” militar persistem mesmo após o Governo Federal usar, justamente, os militares para desmontar o movimento em diversas partes do Brasil. Além disso, tem quem pede a renúncia do presidente Michel Temer, redução total de impostos e até a volta do voto impresso.

A infiltração de grupos políticos é admitida até oficialmente. Segundo a  AbCam, intervencionistas teriam cooptado as manifestações para fazer oposição ao governo.

“Não tem grevista aqui. Estamos paralisados, é esse o nome. Não tem líder e todo mundo fala por todo mundo”, comenta o caminhoneiro Ademir Junior, que está num ponto de manifestação no posto Caravagio, na BR-163, desde a terça-feira (22).

“Se fosse só pelo diesel, a gente já voltava a trabalhar. Se fosse só pelos caminhoneiros, a gente já teria conseguido o que quer. Queremos a redução dos impostos. Não é só pelos caminhoneiros”, comenta.

A poucos metros, próximo a uma faixa com os dizeres “intervenção militar já”, outros caminhoneiros não querem dar nomes, mas falam que a redução do combustível não é suficiente.

'Não é só pelo diesel': em MS, caminhoneiros parados pedem de intervenção a 'Fora Temer'
Caminhoneiros xingam colegas que passam sob escolta (Foto: Henrique Kawaminami | Midiamax)

“Os pedágios são muito caros, cobram da gente até eixo erguido. Queremos que a categoria seja realmente beneficiada, somos muito explorados”, comenta um manifestante que parou no posto na segunda-feira (21) à tarde.

Bloqueios e ameaças

Em Mato Grosso do Sul, de acordo com a PRF (Polícia Rodoviária Federeal), havia até a noite da segunda-feira (28) seis pontos de bloqueio, no qual caminhoneiros só passam por escolta. Mas os motoristas estariam paralisados em pelo menos ouros 35 pontos de rodovias federais.

Em quase todos, é possível encontrar caminhoneiros que divergem sobre a decisão de permanecer parado. As denúncias surgem de forma velada. Segundo eles, o movimento não é democrático e quem afirma que vai abandonar a paralisação, sofre com ameaças.

'Não é só pelo diesel': em MS, caminhoneiros parados pedem de intervenção a 'Fora Temer'
Mensagens em apoio a “intervenção” militar tomaram conta dos protestos de caminhoneiros (Foto: Henrique Kawaminami | Midiamax)

“Não tem liberdade de ir e vir, como eles falam. Tanto é que você vê caminhão de remédio e de combustível sendo escoltado pela PM, não é? Se houvesse essa liberdade que eles dizem que tem, eu ia seguir em frente. Mas, é só sair qualquer um que eles correm atrás, seja de carro ou de caminhão, e mandam parar. Teve até gente armada fazendo ameaça”, relata um caminhoneiro que preferiu não ser identificado.

Em outro grupo, um caminhoneiro também afirma que paralisou sob ameaças de ter o veículo vandalizado. “Não faz sentido eu estar aqui. Se a greve é dos autônomos, os autônomos que parassem. Eu não coloco um litro de combustível no meu caminhão, porque eu trabalho para uma empresa, ganho salário e comissão. Não que eu ache normal o preço, mas por que eu vou brigar por diesel?”, comenta.

'Não é só pelo diesel': em MS, caminhoneiros parados pedem de intervenção a 'Fora Temer'
Caminhão com combustível é escoltado por viatura da PRF (Foto: Henrique Kawaminami | Midiamax)

E tem também quem afirme que a visão dos manifestantes é limitada. “Não consigo entender, pois estou num lugar que tem água, comida, tem até churrasco. Mas, minha senhora está em casa e não consegue comprar um tomate para dar de comer pros meus filhos. Não acho que isso esteja certo”, conclui.

Apesar da negativa de parte da categoria retomar a normalidade, a expectativa da AbCam é que nesta terça-feira a desmobilização da categoria seja percebida com mais intensidade.

“O nível da adesão [à desmobilização] está aumentando gradativamente. Estou aguardando posição do grupo que está fazendo o levantamento. Apesar de ainda não termos um número exato [sobre o total de caminhoneiros que já se desmobilizaram], dá para dizer que de 70% a 80 % já levantaram acampamento”, disse José da Fonseca Lopes, presidente da AbCam, à Agência Brasil.

Jornal Midiamax