Cotidiano

Demora é principal reclamação em UPA onde idoso morreu sem atendimento

Usuários da unidade citam demora no atendimento como principal aspecto negativo da UPA Leblon, onde um idoso morreu no domingo (3).

Guilherme Cavalcante Publicado em 05/06/2018, às 12h30 - Atualizado em 06/06/2018, às 11h22

Demora em atendimento é principal queixa de usuários na UPA Leblon (Foto: Marcos Ermínio | Midiamax)
Demora em atendimento é principal queixa de usuários na UPA Leblon (Foto: Marcos Ermínio | Midiamax) - Demora em atendimento é principal queixa de usuários na UPA Leblon (Foto: Marcos Ermínio | Midiamax)

As dores de uma crise de sinusite levaram a empresária Priscila Lopes, de 37 anos, à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do bairro Jardim Leblon, em Campo Grande, nesta terça-feira (5). Na companhia do esposo e do filho, a empresária sentou a poucos metros do local onde o idoso Miguel Lisboa, de 78 anos, morreu enquanto aguardava atendimento na unidade, na madrugada do domingo (3).

“Como morreu esse senhor e estão acusando de negligência, imaginei que talvez o atendimento fosse ser mais rápido hoje. Mas, estou aqui desde as 8h20 e a gente não vê o pessoal ser chamado. Passei pela triagem e estou aguardando”, comenta a empresária, que entrou para a consulta por volta das 10h20.

Assim como Priscila, os demais usuários da unidade também apontam a demora no atendimento como principal aspecto negativo da UPA Leblon. “Não é só aqui que demora pra consultar. De madrugada é pior, às vezes a gente sai peregrinando por médico. Liga no SAMU pra saber onde tem plantonista, mas quando chega aqui parece que todo mundo está dormindo”, comenta a diarista Rita de Cássia Sales, de 39 anos, que esteve na unidade com sintomas de mal estar e dor de cabeça.

Na manhã desta terça, cerca de 60 pessoas, entre pacientes e seus acompanhantes, ocupavam recepção e corredores da UPA Leblon. De acordo com a Prefeitura de Campo Grande, 5 médicos faziam atendimento de adultos na unidade no mesmo período, conforme escala de plantão previamente divulgada. Para esta tarde, mais cinco médicos são esperados e, à noite, além da mesma quantidade de clínicos-gerais, 4 pediatras deverão cumprir expediente.

Demora é principal reclamação em UPA onde idoso morreu sem atendimento
Cerca de 60 pessoas, entre pacientes e acompanhantes, ocupavam recepção e corredores da unidade (Foto: Marcos Ermínio | Midiamax)

Diagnosticada com pneumonia, a auxiliar de limpeza Elizabete Veiga, de 33 anos, tem comparecido à unidade diariamente para tomar antibióticos e a cada visita precisa passar pelo consultório médico. “Hoje até que não demorou tanto, mas ontem teve um senhor reclamando que chegou de manhã e só foi ser atendido lá pelas 3h da tarde”, comenta.

Segundo ela, a demora no atendimento numa UPA é compreensível, principalmente quando o paciente recebe classificação azul ou verde. “Mas a gente não vê chegar ninguém estropiado, pra receber a classificação amarela ou vermelha. A gente fica sem entender porque o atendimento demora e os médicos não chamam”, protesta.

Sem Raio-X e cadeira de rodas

Acompanhada do namorado, a autônoma Ana Claudia Santos, de 36 anos, foi levada à UPA após um carro colidir com a moto na qual era passageira. Sentada numa cadeira de rodas e sem conseguir mexer a perna, ela reclamava de dor e da demora no atendimento.

“Eu dei entrada aqui umas 8h30. Tô aqui com a perna inchada, com muita dor e não sei se teve fratura”, disse segundos antes de ser chamada para a consulta, por volta das 10h20. Após receber atendimento, ela ainda trazia o mesmo semblante de indignação.

“Você acredita que vou precisar ir pra UPA Vila Almeida fazer um raio-X? O daqui não está funcionando. Devia ter um transporte para levar lá. Como uma pessoa com a perna como a minha pega um ônibus pra ir até outra UPA? Vou ter que gastar com Uber”, reclama.

Ainda na cadeira de rodas, Ana Cláudia é interpelada por uma senhora, Ilca Medeiros, que levava a vizinha Matilde Benites para atendimento na unidade, com pressão alta e forte dor de cabeça. “Você já está indo? Preciso da cadeira de rodas”, diz Ilca a Ana Cláudia. “Sim, só tem essa cadeira de rodas aqui, você acredita?”, completa.

Classificação de atendimentos

Reclamações de demora em atendimento nas UPA são bastante comuns. E neste período do ano, por conta das doenças respiratórias comuns do outono e do inverno, a demanda nas unidades de pronto-atendimento tendem a aumentar.

Demora é principal reclamação em UPA onde idoso morreu sem atendimento
(Foto: Divulgação | PMCG)

De acordo com a Sesau, em Campo Grande, são seis UPAs e 4 CRS (Centro Regional de Saúde), que atendem diariamente mais de quatro mil pessoas. Os atendimentos nestas unidades são feitos por classificação – sendo os mais graves primeiro – e não por ordem de chegada.

“A eventual demora no atendimento é decorrente da alta demanda, principalmente de casos classificados como azul ou verde, ou seja, de menor gravidade e que, pelo protocolo, têm até no mínimo 4 horas para serem atendidos”, informou a Sesau em nota enviada anteriormente à imprensa, que também destaca que casos de urgência são atendidos imediatamente.

Segundo a pasta, as segunda-feiras costumam receber fluxo maior de pacientes e as escalas são montadas com esta previsão. “Nestes dias, mais de 1 mil pessoas chegam a passar pela unidade nos três períodos e apenas 5% acabam aguardando mais de 4 horas por atendimento”, afirma a nota.

Para casos menos graves, a orientação da Sesau é para que o paciente procure uma UBS (Unidade Básica de Saúde) próximo de casa, a fim de evitar as longas filas e transtornos.

Morte sem atendimento

A demora no atendimento das UPA de Campo Grande voltaram aos holofotes após a morte de Miguel Lisboa, de 74 anos, que morreu na madrugada do domingo (3) enquanto aguardava atendimento na UPA Leblon. A família da vítima acusa ter havido negligência e relata que, apesar dos sintomas de infarto – forte queimação no estômago e pressão alta – o idoso somente recebeu atendimento médico quando desmaiou.

Um vídeo divulgado nas redes sociais mostra o momento em que o idoso recebe massagem cardíaca de uma pediatra que estava de plantão na unidade. Segundo a família, o médico clínico-geral teria interrompido o atendimento. Na sexta-feira (1º), ele já teria dado entrada num posto de saúde com os mesmos sintomas, mas recebendo alta quando a pressão foi normalizada.

A Sesau (Secretaria Municipal de Saúde Pública), no entanto, nega que houve demora no atendimento e afirma que o quadro de profissionais da unidade estava completo com cinco médicos e três enfermeiros (no período) escalados. A nota também reforça que uma sindicância será montada para averiguar se houve negligência por parte dos plantonistas.

Jornal Midiamax