Cotidiano

Odebrecht é suspeita de dano ambiental e prejuízo a pecuaristas de MS

Incidência de mosca perigosa é atribuído a usina do grupo

Midiamax Publicado em 12/05/2017, às 17h19

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Incidência de mosca perigosa é atribuído a usina do grupo

Pecuaristas e pequenos produtores de leite do município sul-mato-grossense de Nova Alvorada do Sul estão desesperados com o surto da mosca da cana, que causa a morte dos animais. A suspeita sobre a origem do problema leva o nome de uma gigante presente nas manchetes do País todo, a Odebrecht. Uma das 3 usinas sucroalcooleiras que a Odebrecht Agroindustrial tem em Mato Grosso do Sul é acusada de despejar um resíduo poluente, a vinhaça, que em excesso, fermenta em contato com material orgânico, e faz com que as moscas proliferem.

Os produtores filmaram o local onde supostamente a vinhaça é jogada:

Milton Barbosa é um dos produtores atingidos. Ele atua em questões ambientais junto ao Sindicato Rural do município, e trava uma batalha contra a empresa há 7 anos. Milton calcula um prejuízo de R$ 350 mil. Das 3 fazendas que possui, uma fica a 4 km da Usina e foi o local mais afetado pelo aumento das moscas. O produtor critica a Famasul (Federação de agricultura e pecuária de Mato Grosso do Sul) que afirma ter atrapalhado um processo movido pelo Sindicato contra a empresa.

“Ela é um caso sério, faz 7 anos que já está essa briga. 2011 que explodiu. A gente tinha um processo, mas, misteriosamente alguns diretores junto com a Famasul retiraram esse processo. Fizeram uma assembleia com os produtores, trouxeram só produtor de cana. Em 2012 começaram a aparecer as moscas, falaram que era do estábulo, que não era deles, contrataram a Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] para fazer pesquisa, que está dizendo que é culpa realmente das Usinas”, explicou.

Milton afirma que hoje “compra leite de caixinha para beber”. Um projeto que regulamenta o resíduo produzido pelas Usinas foi aprovado na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul, movido pela Comissão de Meio Ambiente, mas o produtor acredita que a normativa não resolve a questão.

“Virou nada, aprovaram uma lei totalmente nova, sem função, sem nada. Esse inquérito está rolando desde 2012 e até agora nada. Nós éramos 38 produtores de leite aqui, hoje acho que tem uns 3. Eu produzia mais de mil litros por dia, hoje eu compro leite de caixinha pra beber, tem produtor de gado que perdeu mais”, comentou.

Pequeno produtor, Ademilson Rosa Pinheiro, 49, teve que vender as poucas vacas que tinha e agora trabalha com uma carreta para tentar sobreviver. “Estamos sofrendo, está complicado. Agora mesmo estão atacando de um jeito que até os cachorros estão loucos. Elas começaram quando começou a jogar aquela vinhaça. Para a Usina, para de jogar a vinhaça, aí para as moscas acabam. Volta a jogar a vinhaça, volta as moscas de novo”, esclarece.

“Mas esse ano, vou falar pra você, veio de um jeito, elas ferroam a gente, é doído. Meu irmão tem uma vaca lá que está demais, acho que não vai aguentar não. O nosso é sítio. Nóis tudo produzia, paremo tudo, parei faz uns 3 anos [sic]. Eu agora tenho bem pouquinho, tinha umas cento e poucas cabeças de vaca. Eu tenho umas 30 cabeças agora, tive que vender, não tem condições. E agora até o meu irmão vai vender também, porque não tem condições”, complementou.

MPE investiga

Em 2012, motivada pelas denúncias dos produtores o MPE-MS (Ministério Público Estadual) instaurou inquérito para investigar o suposto dano ambiental provocado pela Usina. Questionado, o MPE afirmou, por meio da assessoria de comunicação, que o promotor de Justiça “está aguardando a perícia que está sendo realizada pelo Departamento Especial de Apoio às Atividades de Execução (DAEX)”.

Com 68 anos, Ruth Nair Barbosa viu 68 vacas morrerem na propriedade após serem picadas pela mosca. Ela explica que os pequenos produtores e os camponeses que vivem do leite que produzem foram os mais atingidos. Ela estima ter perdido mais de R$ 300 mil.

“Vendi tudo, acabei com tudo porque morreu 68 vacas. Eu tinha 755, vendi tudo. Foi em 2011 que começo a morrer, tenho b.o de delegacia, da Iagro, ia morrendo eu ia lá e fazia ocorrência. Eu acho que comecei a perder 2010 e 2011. A vaca deitava, eu corria, trazia soro pra fazer essa vaca deitar. A vaca abortava, ela não tem força pra botar o bezerrinho pra fora. Umas novilhas novas, de primeira cria, 40 que começou a dar cria, morreu as 40. Sábado e domingo, você não tem noção como estava. Eu estava com uma bezerrinha novinha dormindo sozinha no galpão”, relatou.

“Arrendei inteirinha a minha fazenda. Eu estou com 2 vacas que sobrou também. E vai morrer também. Eu parei com tudo, porque depois que derrubaram nosso processo no sindicato eu fiquei desanimada”, complementou.

Pesquisa comprova dano das Usinas

Realizada como tese de Doutorado na UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul) a pesquisa intitulada “Dinâmica populacional e surtos de stomoxys calcitrans em usina sucroalcooleira e propriedades pecuárias adjacentes” foi realizada por Taciany Ferreira de Souza Dominghetti e comprova o aumento da mosca da cana – cujo nome científico é Stomoxys calcitrans -, nos períodos de safra da cana de açúcar.

A pesquisadora analisou a Usina da Odebrecht em Nova Alvorada do Sul de janeiro de 2013 a dezembro de 2015, e monitorou o local por 21 dias, entre agosto e setembro de 2014. Uma das propriedades contempladas pelo estudo é a fazenda de Milton Barbosa. A pesquisa apontou aumento das populações da mosca entre os meses de abril/maio a dezembro (safra) e redução da população entre janeiro a março/abril (entressafra). Assim a tese introduz o assunto:

-Na região Centro-Oeste, especialmente em Mato Grosso do Sul, a recente ocorrência de surtos por S. calcitrans e as graves perdas econômicas em rebanhos de gado de corte criados extensivamente têm sido associadas com a crescente implantação das indústrias sucroalcooleiras. A capacidade de reprodução e multiplicação desta praga em subprodutos orgânicos gerados pela usina acarretam explosões populacionais e, consequentemente, graves problemas para ambos os setores envolvidos.

“Neste contexto, fica evidente o efeito da atividade (agrícola e industrial) de produção da cana-de-açúcar sobre a dinâmica de S. calcitrans, principalmente quando se observa os picos populacionais no período mais frio do ano, quando as condições climáticas são menos favoráveis para a mosca-dos-estábulos. Assim, no período da safra, ocorre aumento significativo na abundância de S. calcitrans, pois utilizam a enorme oferta de subprodutos orgânicos gerados pela usina como locais de reprodução”, apontou a tese.

Assembleia deve investigar novamente

Membro da Comissão de meio ambiente da Assembleia, o deputado Felipe Orro (PDT) afirma que os produtores trouxeram o assunto à tona novamente esta semana, o que deve motivar nova apuração.

“Primeiro nós vamos levantar o que efetivamente está acontecendo, vamos pedir laudos de laboratório. O ex-deputado Márcio Monteiro, Petila, nós fomos lá pra ver in loco, tinha empossamento [sic]. A empresa veio, fizemos um projeto de lei, o governo mandou outro projeto e aí acalmou, e daí volta. Nós queremos é que a Usina gere emprego e que respeite questões ambientais. Eles me passaram uma situação muito delicada”, comentou.

A Famasul declarou, por meio da assessoria de comunicação, que não tem nenhuma ação judicial relacionada ao assunto. A Federação explicou que realiza desde 2009 “uma série de ações de fomento à pesquisa, de capacitações, além de eventos informativos”.

“Entre essas iniciativas, destacamos o curso ‘controle de mosca de estábulo’, que desenvolvido pelo Senar/MS, visa auxiliar o produtor com técnicas de manejo com objetivo de minimizar o problema. As ações desenvolvidas pela instituição, além do curso citado, inclui a elaboração de folder informativo, de cartilhas, participações em audiências públicas, visitas a campo, entre outros”, declarou.

A Semagro (Secretaria estadual de meio ambiente, desenvolvimento econômico, produção e agricultura familiar) foi questionada, mas até a conclusão da reportagem, não respondeu.

Outro lado

A Odebrecht tem 3 Usinas em Mato Grosso do Sul. Além da unidade de Nova Alvorada do Sul, o complexo agroindustrial está presente em Rio Brilhante (unidade Eldorado) e Costa Rica (unidade com mesmo nome da cidade). De acordo com o governador do Estado, Reinaldo Azambuja (PSDB), a empresa possui mais de R$ 50 milhões em benefícios fiscais.

Por meio da assessoria de imprensa, a empresa declarou “seguir integralmente todas as normas recomendadas pelos órgãos técnicos competentes e as legislações ambientais vigentes no Estado de Mato Grosso do Sul sobre aplicação de vinhaça”. 

 “Desde 2012, a Unidade Santa Luzia tem um programa estruturado de controle e monitoramento da mosca dos estábulos. Uma equipe multidisciplinar conta com equipamentos adequados (armadilhas reflexivas, inseticidas e bandeiras para controle do inseto) e realiza visitas frequentes e assistência aos produtores rurais da região.A empresa ressalta ainda que participa ativamente de todas as discussões sobre a questão da mosca do estábulo, junto às autoridades locais, Embrapa, Biosul e produtores da região”, esclareceu.

Jornal Midiamax