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O que a garotinha que não deu a mão para Figueiredo achava da ditadura?

Neste domingo (31), o golpe de estado que instaurou a ditadura militar no Brasil em 1964 completa 55 anos. O regime de exceção durou até 1985. Nesse período, não houve eleição direta para presidente. O Congresso Nacional chegou a ser fechado, mandatos foram cassados e houve censura à imprensa. A semana foi dominada por discussão […]

Richelieu Pereira Publicado em 31/03/2019, às 12h10

A menina Rachel Clemens Coelho se recusa a
cumprimentar o presidente Figueiredo
(Foto: Guinaldo Nicolaevsky)
A menina Rachel Clemens Coelho se recusa a cumprimentar o presidente Figueiredo (Foto: Guinaldo Nicolaevsky) - A menina Rachel Clemens Coelho se recusa a cumprimentar o presidente Figueiredo (Foto: Guinaldo Nicolaevsky)

Neste domingo (31), o golpe de estado que instaurou a ditadura militar no Brasil em 1964 completa 55 anos. O regime de exceção durou até 1985. Nesse período, não houve eleição direta para presidente. O Congresso Nacional chegou a ser fechado, mandatos foram cassados e houve censura à imprensa.

A semana foi dominada por discussão sobre se a data deveria ser celebrada, após o presidente Jair Bolsonaro determinar ao Ministério da Defesa que fizesse as “comemorações devidas” sobre o golpe. O que acabou virando uma disputa judicial e fez o chefe do Planalto recuar em suas declarações.

Diante disso, o que pensaria sobre essa polêmica a protagonista de uma das fotos mais famosas na história recente do Brasil, Rachel Clemens Coelho, que, aos 4 anos de idade, em 1979, se negou a cumprimentar o então presidente do Brasil, general João Baptista Figueiredo?

A imagem, feita pelo repórter fotográfico Guinaldo Nicolaevsky, se tornou um ícone da resistência aos governos militares e ficou famosa no mundo todo. Era uma visita oficial de Figueiredo à cidade de Belo Horizonte, para lançamento do automóvel a álcool, quando uma menininha de uniforme escolar se negou a dar a mão ao último presidente do longo período de ditadura.

Havia muitos fotógrafos, mas a maioria não registrou o momento constrangedor por motivos óbvios. Nicolaevsky, no entanto, deixou o instinto jornalístico dominar o medo da repressão e fez diversas imagens das tentativas frustradas do general tentando convencer a garotinha a cumprimentá-lo.

Garotinha infiltrada?

O rolo de filme do fotógrafo chegou a ser confiscado por registrar o presidente militar passando vexame, e houve investigação para saber se a tal menina havia sido “infiltrada” e orientada a fazer a “má-criação” carregada de significado político para a época.

Num texto que escreveu para um colega, o fotógrafo registrou o episódio. “Lançamento do carro à álcool em Belo Horizonte. A imprensa mineira e a nacional estavam presentes e um grupo de crianças foi levado ao Palácio da Liberdade para cumprimentar o presidente Figueiredo. Deu zebra: a primeira da fila negou o aperto de mão ao Presidente da República, apesar dos pedidos dos fotógrafos. Percebi que não aconteceria o aperto e fotografei”, contou.

Segundo Guinaldo, logo que fez a imagem ele percebeu a conotação política da foto. “Corri para a redação para revelar e transmitir a foto para o Rio. Para minha surpresa eles não publicaram a foto! Desconfiaram! Queriam o “cumprimento”. Fui ameaçado de dispensa caso não entregasse o fotograma. Foi exigido que mandasse o filme sem cortá-lo no primeiro vôo para o Rio. O que foi feito. Não publicaram nada… resolvi por minha conta, mandar para outros veículos, que publicaram com destaque até no exterior”, relatou.

Motivo despolitizado

Em 2011, Rachel finalmente explicou em público porque não cumprimentou o último general que presidiu o Brasil na época dos governos militares para uma rede de televisão.

Na internet, ela divulgou um post no próprio blog resumindo a estória. Segundo Rachel, o pai dela, chefe do Dnit em Minas Gerais, teria de participar de um almoço com o presidente. Ela soube na véspera, e exigiu da mãe ser levada para ver o general, de quem se lembrava por ver um quadro humorístico de Chico Anysio na tevê.

Chegando no Palácio da Liberdade, onde o presidente receberia um grupo de estudantes na solenidade, ela conseguiu se “infiltrar” e queria apenas avisar ao presidente que seu pai almoçaria com ele. Ele quis cumprimentá-la mas, como ela ainda não tinha conseguido contar ao chefe da nação do encontro que ele teria com o pai dela, houve a recusa.

Rachel conta que era ‘birrenta’ e falante. Como não tinha falado o que queria, se negava a cumprimentar Figueiredo que insistiu ante uma plateia constrangida e incrédula.

Ela morreu no ano de 2015, em Belo Horizonte, após sofrer uma para cardiorrespiratória aos 40 anos.

Jornal Midiamax