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‘Sinto dor só de lembrar’, diz jovem que retirou chifres de silicone da testa

Ele conta que retirou os chifres porque sentia dores de cabeça e tonturas

Clayton Neves Publicado em 24/04/2015, às 17h36

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Ele conta que retirou os chifres porque sentia dores de cabeça e tonturas

Não foi o preconceito que fez Bruno Siqueira, de 18 anos, desistir de ter chifres na testa. Quase dois meses após a inserção, ele explica que retirou os dois implantes de silicone devido às complicações. “Eu tinha dores de cabeça e tonturas, sentia fisgadas, o sangue coagulava nos locais e estava muito inchado. Sinto dor só de lembrar”, relata.

O tatuador de Guarapuava, na região central doParaná, colocou os chifres de silicone em janeiro. Mesmo depois das dezenas de tatuagens – pelo menos 20 delas no rosto, dos piercings e dos alargadores, de colorir o branco dos olhos de preto e da língua bifurcada, ele se sentia insatisfeito com a sua aparência.

Logo que colocou os implantes, Bruno relata que sofria muito preconceito, mas que nunca pensou em retirá-los por causa de discriminação. “Todos os dias, alguém me dizia que eu devia seguir o caminho de Deus. Não é porque implantei chifres que não tenho fé, que quero me parecer com o diabo. Coloquei e creio em Deus, sim”, afirma.

Entretanto, ao perceber a rejeição do silicone, ele decidiu procurar o mesmo rapaz que colocou os implantes, um colega tatuador. “Para retirar foi mais complicado do que para colocar. Não é comum fazer a remoção”, explica. Bruno afirma que sentiu muita dor, mas que, agora, já está se recuperando. “Ficaram duas cicatrizes. Tenho usado boné para esconder. Não pretendo fazer nunca mais”, garante.

Sequência de modificações corporais
A primeira modificação corporal foi aos 11 anos, quando Bruno colocou o primeiro piercing, no nariz. Em seguida, vieram as tatuagens. As estrelas tatuadas em uma das coxas, aos 13, foi o primeiro contato que o jovem teve com a introdução de pigmentos por agulhas. “Hoje, sei que tenho pelo menos oito piercings. Quanto às tatuagens, já perdi as contas”, afirma.

Depois dos piercings e das tatuagens, Bruno decidiu fazer modificações mais radicais. Ele colocou dois alargadores, um em cada lado do nariz. O procedimento foi feito com o auxílio de um bisturi, em 2014. “Foi o procedimento que mais doeu até agora”, revela.

No ano passado, o jovem também injetou tinta na camada de proteção dos olhos, técnica conhecida por “eyeball tatoo”. “Chorei lágrimas pretas por dois ou três dias”, lembra. A tatuagem foi feita de graça, no Rio de Janeiro, durante um tempo em que Bruno passou trabalhando no estado. “Foram 20 minutos para pintar cada olho. Uma agonia”, define.

Ele conta que viu a técnica de tatuar o branco dos olhos pela primeira vez na televisão, em 2007. Desde então, ele não tirou mais a ideia da cabeça. Para a Sociedade Brasileira de Oftalmologia (SOB), o procedimento invasivo é desaconselhável e pode causar inflamação interna, levando à perda da visão.

Em 2014, a língua do jovem também passou por uma modificação. Agora, após a operação, ela é bifurcada; a característica é comum aos répteis. A repartição foi feita com a ajuda de um bisturi e, depois, foram dados alguns pontos. “Tive que ficar sem beijar por um bom tempo. Mas valeu a pena”, garante.

A última modificação que Bruno fez no corpo foi a implantação dos chifres na testa, sem nenhum tipo de anestesia. “A pele é cortada, descolada e, então, são colocados os implantes. Depois são dados alguns pontos”, conta.

Saída de casa
Logo que colocou os primeiros piercings e fez as primeiras tatuagens, Bruno teve que sair da casa da família. “Eles não aceitavam muito. Eu não tinha lugar fixo; às vezes, ficava na casa de amigos ou por aí”, relata. Só aos 16, quando começou a viver de tatuagem, como ele mesmo diz, é que pode bancar sua casa própria.

Hoje, ele mora com a gata Laurinha em uma casa no bairro Morro Alto. Ainda em abril, a filha Sophi deve nascer. Segundo ele, se um dia a menina pedir para fazer uma tatuagem ou por um piercing, ele garante que não será contrário. “Mas só quando ela for madura o suficiente”, explica.

Depois de um tempo, os parentes de Bruno passaram a aceitar a aparência do jovem. Ele conta que as crianças da família, principalmente, não apresentam nenhum tipo de estranhamento. “É engraçado ver como elas não têm preconceito e ainda acham o máximo”, afirma.

Preconceito
O preconceito de pessoas desconhecidas faz com que Bruno, às vezes, se sinta mal. “Nas ruas, as reações são diversas: há quem fique olhando, há quem ria, há quem queira tirar fotos, há quem me chame de gay…”, diz.

O tatuador conta que evita locais e ruas muito movimentados justamente por causa das reações negativas de algumas pessoas. “Elas não estão preparadas para o diferente. E eu sou diferente”, acredita. Bruno relata que, quando vai ao mercado, há sempre um segurança que o segue e olhares desconfiados. “Chega a ser constrangedor, parece que eu sou um bandido”, desabafa.

Próxima vontade
Bruno diz que o seu próximo desejo é a suspensão corporal. “A suspensão corporal consiste em suspender o corpo por meio de ganchos passados através de perfurações na pele”, explica. As perfurações são temporárias e abertas um tempo antes de o ato ser realizado.

Bruno concluiu o Ensino Médio, não fez faculdade e, por enquanto, não faz planos de frequentar uma. “Eu quero viver de tatuagem, não me imagino fazendo outra coisa na vida. E quanto ao meu corpo, o que eu tiver que fazer para me sentir bem, vou fazer”, conclui.

Jornal Midiamax