O sentimento é o de quem quer dar um voto de confiança

O sentimento é mais ou menos o de quem quer dar um voto de confiança, mas, ressentido, observa, com ressalvas, os rumos tomados. Foi assim o clima do encontro entre dezenas de empresários e o ministro da Fazenda Joaquim Levy, na tarde desta sexta-feira (29), no Rio de Janeiro. Impactados pela crise econômica e no mesmo dia do anúncio dos números do PIB, que mostrou retração na economia de 0,2% no primeiro trimestre, representantes da indústria aprovam o caminho ortodoxo adotado por Levy, mas têm lá seus receios.

O presidente da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), Eduardo Eugênio Gouvea Vieira, comparou o ministro a um piloto em situação de emergência: “É como um piloto que precisa parar o voo em plena tempestade. Ele é o fiador dessa correção de rota (de que a economia precisa). Mas precisamos evitar as velhas soluções fáceis”, afirmou após a realização do seminário que debateu, na sede da Firjan, os entraves e avanços do sistema tributário brasileiro.

Depois de criticar o fato de as empresas estarem sufocadas “até o limite de suas forças”, o representante do empresariado ainda cobrou ações para redução da carga de impostos à indústria e incentivos à competitividade. “A carga tributária adoece a economia”, afirmou Eugênio, que, nesta semana, saiu em defesa pública de Levy ao questionar fala do presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade. Na terça-feira, Andrade mandou recado a Levy, questionando se o ministro queria “nosso pescoço agora”, já que considerava o tamanho do corte do orçamento – R$ 69 bilhões – insuficiente. O ministro chegou a defender enxugamento de até R$ 80 bilhões.

O presidente do Conselho Consultivo do Grupo Gerdau, Jorge Gerdau, afirmou ao Terra que, apesar de ainda não poder fazer um balanço do desempenho de Levy à frente da Fazenda, a estratégia adotada “está absolutamente correta”.  “O ajuste fiscal é extremamente necessário para criar condições de retorno ao crescimento”, afirmou. Como todos do time que confiam desconfiando, ponderou que a estratégia de médio e longo prazo do governo federal para crescer ainda está longe de poder ser avaliada.

Empresário do ramo de indústrias gráficas, Sergei Lima concorda. “A gente tinha que fazer o ajuste de qualquer forma. Discutimos se o ajuste adequado é este feito, mas entendemos que é preciso fazer algo para não termos um problema muito mais sério lá na frente”.

‘Gripe ortodoxa’

Ainda com resquícios da gripe que o levou a nocaute na semana passada e serviu de justificativa para se ausentar do evento de anúncio do corte orçamentário, Levy ouviu muitas cobranças. Aos empresários, e mais tarde aos jornalistas, justificou que a retração da economia no primeiro trimestre comprovada pelo PIB negativo era esperada. “Era aquilo que a gente sabia. Havia muita incerteza, mas muita coisa de lá pra cá mudou. Desde a dúvida se ia faltar água, energia, se o Brasil ia ter o ‘down grade’ (queda no grau de investimento), se a Petrobras ia publicar as suas contas auditadas. Isso tudo afetou a atividade econômica”.

Na tentativa de vender um discurso de otimismo, Levy comemorou o fato de o Congresso já ter votado boa parte do pacote de ajuste fiscal, como as MPs 664 , 668 e 669 . Também reforçou que o Brasil manteve seu grau de investimento, índice dado pelas agências de avaliação de risco que mostram a confiabilidade ou não do mercado na economia dos países.