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Cineasta prepara filme sobre a vida de brasileiro fuzilado na Indonésia

O filme, em edição e ainda sem título, vai contar três histórias paralelas

Midiamax Publicado em 26/04/2015, às 13h18

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O filme, em edição e ainda sem título, vai contar três histórias paralelas

Vozes femininas entoavam mantras, que chegavam trazidas pelo vento, vindas de um templo na vizinhança. O cenário era uma imensa casa de madeira, pé-direito alto, sem paredes, aberta para um jardim exótico, de plantas tropicais. O fotógrafo e cineasta Marcos Prado, 54, estava à vontade. Bem à vontade. Bali, a ilha indonésia famosa pelas ondas perfeitas, pelo verão eterno e agora pela pena de morte, é um destino corriqueiro para ele. Tratava-se de sua décima viagem ao paraíso. “Dos sonhos e dos pesadelos”, como Marcos definiu.

“O dinheiro compra qualquer coisa aqui. Bali é um lugar bárbaro”, comentou, soltando uma das gargalhadas que acompanham suas histórias. Marcos é, por natureza, um contador de histórias. No trabalho e numa boa roda de conversa. O assunto do final de tarde perfumado pelo cheiro de incenso era o seu próximo filme. Ele estava na Indonésia para finalizar um documentário sobre o carioca Marco Archer, o Curumim, fuzilado em janeiro, aos 53 anos, os últimos 11 passados no corredor da morte.

“Conheci o Curumim na adolescência, no Rio. Todo mundo frequentava a barraca do Pepê, na praia do Pepino. Anos 80, início dos 90. Ele já era uma figura conhecida, provedor da droga nova, o skunk”, lembrou. “Em 1989 vim para Bali pela segunda vez e o Curumim estava aqui. Tínhamos muitos amigos em comum, embora não fôssemos amigos. Era um cara inteligente, piadista. Não era um traficante com uma arma na mão. Foi um transgressor, um playboy que não quis crescer”.

Três em um

Sócio do cineasta José Padilha, 47, na Zazen Produções, diretor de Estamira (2004), Paraísos Artificiais (2012), e produtor de Tropa de Elite e Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro, Marcos acompanhou os últimos três anos de Archer na prisão, a convite do próprio.

Foram algumas visitas, telefonemas semanais e muitas, muitas cartas trocadas. Cartas em que Archer conta a sua saga, ano a ano. De adepto do voo livre e das areias cariocas a traficante flagrado com 13,4 quilos de cocaína no aeroporto de Jacarta. Em uma delas, de 16 páginas, ele relata com detalhes a fuga do aeroporto pela porta da frente e os 16 dias em que passou como fugitivo, de ilha em ilha na Indonésia, até ser pego e condenado à morte.

“Curumim escrevia muito bem. Nas cartas, referia-se a si mesmo como Max. Uma vez, no Rio, a polícia bateu no apartamento em que ele estava para prendê-lo. Ele se apresentou como Max e ficou na sala com os policiais esperando o Marco Archer. Como este nunca chegava, os homens foram embora, direto para a casa da mãe dele. Lá viram um porta-retratos e só então perceberam a farsa. Este era o Curumim”, contou Marcos, que afirma que Archer não revelou a maior parte de sua história nas entrevistas que concedeu à imprensa.

Segundo o cineasta, Archer queria deixar um legado, sua própria vida como exemplo para jovens que sonham em viver uma vida fácil sobre as ondas do Pacífico: “Acreditei piamente que ele ia se safar. E imaginei que este filme terminaria com o Curumim em liberdade, recomeçando. Ele sabia das mancadas que deu, queria fazer palestras, ser herói”.

O filme, em edição e ainda sem título, vai contar três histórias paralelas, que juntas compõem o retrato da corrupção que rege Bali. O eixo do documentário é a história de Archer e a reconstituição de sua trajetória, da infância até o fuzilamento.

“Eram três sócios na empreitada da cocaína. O Curumim, um brasileiro que não posso revelar o nome e um italiano, dono de um barco, cuja participação seria levar a droga para a Austrália”, disse Marcos. “Quando o Curumim foi preso, o italiano, conhecendo os esquemas de Bali, mandou o Iuri, um garoto também italiano, buscar mais seis quilos de pó no mesmo fornecedor. A ideia era vender a droga e comprar a redução de pena do Curumim. Só que o Iuri também caiu”.

O garoto, então com 20 anos, foi para o presídio de Kerobokan, bem no centro da ilha de Bali, conhecido como Hotel K, pelas regalias dos presos que têm dinheiro para comprar uma boa vida lá dentro. Na sua cela, Iuri encontrou um surfista brasileiro, Rogerinho Rock’n’Roll. Ele havia sido pego com quatro gramas de haxixe e, ao invés de pagar a propina que o libertaria, deu uma surra no policial. O destempero lhe rendeu anos de cadeia. Policiais plantaram drogas em sua casa e o acusaram de tráfico.

“O Rogerinho sempre foi encrenqueiro. Ele se tornou o protetor do Iuri em Kerobokan. Os dois acabaram transferidos para o presídio de Nusakambangan, onde estava o Curumim. E os três viraram grandes amigos”, disse Marcos. “A família do Iuri pagou US$ 400 mil de propina. Ele foi condenado a pena de morte que virou prisão perpétua e saiu com nove anos por bom comportamento. O Rogerinho, com o seu gênio de cão, foi só se complicando mais. E o Marco tinha certeza que se tivesse US$ 1 milhão conseguiria comprar o esquema. A base do filme é este trio”.

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