Política / Transparência

Processo por violência doméstica impediu Trutis de registrar armas, aponta PF

Policiais apreenderam três armas - um fuzil, um revólver e uma pistola - com o deputado federal Loester Trutis (PSL-MS). Nenhuma em seu nome.

Jones Mário Publicado em 06/02/2021, às 08h32 - Atualizado em 07/02/2021, às 07h37

Deputado federal Loester Trutis (PSL) | Foto: Reprodução | Facebook
Deputado federal Loester Trutis (PSL) | Foto: Reprodução | Facebook - Deputado federal Loester Trutis (PSL) | Foto: Reprodução | Facebook

A Polícia Federal apreendeu três armas na casa de Loester Trutis (PSL-MS) durante a Operação Tracker, em novembro do ano passado. Nenhuma delas no nome do deputado federal. Segundo as investigações, um processo por violência doméstica impede o parlamentar de conseguir o registro. O processo corre em segredo de Justiça.

Além da arma que motivou prisão em flagrante – um fuzil T4 calibre 556 mm, da marca Taurus, equipado com lanterna, mira optrônica, cinco carregadores e bandoleira de três pontos, avaliado em R$ 10 mil -, os policiais acharam uma pistola calibre 9 mm, com carregador e 14 munições, e um revólver calibre .357, com dez munições, na mesa da sala do deputado. Também acabaram recolhidos um pote em formato de caveira, com diversas munições.

O fuzil pertenceria a Jovani Batista da Silva, ligado ao chamado “Movimento Conservador de Mato Grosso do Sul”. Ele também foi alvo dos mandados de busca e apreensão cumpridos na Operação Tracker. Silva declarou à polícia que emprestou a arma ao deputado após o suposto atentado de fevereiro de 2020, a fim de reforçar a segurança de Loester Trutis. Porém, preferiu o silêncio quando perguntado se o parlamentar pagou pelo fuzil ou chegou a usá-lo.

Fuzil, Loester Trutis, Armas apreendidas
Fuzil de uso restrito achado na casa de Trutis foi periciado pela PF (Foto: Reprodução)

O decreto 9.847/2019 veta compra ou registro de arma de fogo a quem responde processo criminal ou é alvo de inquérito policial. Impossibilitado de regularizar o fuzil em seu nome, Trutis contou aos investigadores que o registro seria transferido para sua esposa, Raquelle Lisboa Alves. Ela estava com o deputado quando os policiais bateram à porta de sua casa na Vila Carlota, em Campo Grande.

Já o revólver e a pistola confiscados do deputado seriam de seu assessor parlamentar, Ciro Nogueira Fidelis. Ele alegou aos policiais que deixou as armas com Loester Trutis após irem a um estande de tiros. Fidelis voltaria de Uber e não quis levar o armamento consigo.

O revólver e a pistola ainda não foram periciados, motivo que levou o MPF (Ministério Público Federal), via PGR (Procuradoria-Geral da República), a concordar com o pedido de dilação de prazo das investigações, feito pela Polícia Federal à ministra Rosa Weber. É ela quem relata o inquérito no STF (Supremo Tribunal Federal) que investiga o suposto atentado.

MPF concorda com dilação de prazo para investigações da PF

Em manifestação assinada pelo vice-procurador-geral da República Humberto Jacques de Medeiros, o MPF opinou por aguardar o resultado da perícia das armas confiscadas com Trutis para emitir parecer sobre a competência do STF para investigar o caso. Isto porque a Polícia Federal encontrou projéteis na estrada vicinal em que o Toyota Corolla de Trutis ficou parado na manhã do suposto ataque. As munições teriam saído de uma pistola 9 mm da marca Glock, não localizada pela polícia. O MPF quer saber se as armas apreendidas foram usadas para disparar os projéteis encontrados, o que evidenciaria a possibilidade de o atentado ter sido armado pelo parlamentar.

Ainda durante a Operação Tracker, os policiais encontraram uma pistola Taurus calibre 9 mm, guardada em uma maleta na suíte da casa do irmão de Trutis, Alberto Carlos Gomes de Souza. Como o registro da arma não foi apresentado e o calibre era “compatível com os fatos investigados”, os agentes apreenderam a pistola. Mais tarde, ela acabou devolvida ao irmão do deputado.

Para polícia, Trutis armou atentado de olho em ganho político

As investigações da Polícia Federal se voltaram contra Loester Trutis a partir de trabalhos periciais. Laudos balísticos, de exame de local e informações de georreferenciamento entraram em rota de colisão com o que alegava o deputado e seu assessor.

Assim, a PF concluiu que o atentado foi simulado pelo parlamentar, de olho em dividendos políticos e eleitorais. Trutis é um entusiasta voraz da flexibilização do acesso às armas.

A polícia identificou que ele sequer foi seguido no dia do suposto ataque a tiros. Além disso, a descrição dada pelo deputado federal sobre o veículo supostamente envolvido no atentado atentado contra ele levou os investigadores a uma caminhonete “antiga e deteriorada, que certamente não teria condições mecânicas razoáveis para ser utilizada em um atentado em face de alguém que estava embarcado em um potente Toyota Corolla”, conforme descreve o inquérito.

Com base no trabalho da PF, a ministra Rosa Weber deferiu os pedidos para busca e apreensão contra Trutis, seu irmão, Alberto Carlos Gomes de Souza, Fidelis e Jovani Batista da Silva. Os mandados foram cumpridos durante a Operação Tracker, em novembro do ano passado.

Para a magistrada do STF, as provas obtidas no âmbito da investigação podem implicar Loester Trutis nos crimes de porte ilegal de arma de fogo de uso permitido, disparo de arma de fogo, dano e comunicação falsa de crime.

O deputado chegou a ser preso durante o cumprimento dos mandados, pois portava um fuzil de uso restrito.

A defesa de Trutis tentou trancar as investigações ao apresentar dois habeas corpus idênticos no plantão de fim de ano do STF. O primeiro foi negado em caráter liminar pelo presidente da corte, ministro Luiz Fux. O deputado desistiu do recurso e apostou suas fichas no segundo habeas corpus – que terminou derrubado na última quinta-feira (4).

Jornal Midiamax