Política / Transparência

MP tenta impedir derrubada de 2,9 mil hectares do Pantanal para criação de gado

Em recomendação ao Imasul, órgão vê risco ambiental irreversível caso desmatamento para criação de gado extensivo no Pantanal seja autorizado.

Jones Mário Publicado em 09/02/2021, às 14h40

Área de vazante na Fazenda Girassol (Foto: Reprodução/Imasul)
Área de vazante na Fazenda Girassol (Foto: Reprodução/Imasul) - Área de vazante na Fazenda Girassol (Foto: Reprodução/Imasul)

O MPMS (Ministério Público Estadual) emitiu recomendação para que o Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul) não autorize a derrubada de 2,9 mil hectares de vegetação nativa para criação de gado na Fazenda Girassol, localizada no Pantanal do Paiaguás, em Corumbá. Segundo o órgão, os estudos de impacto ambiental contêm uma série de falhas e omissões.

As irregularidades indicam risco de “significativo impacto ambiental, possivelmente irreversível e que poderá alterar drasticamente o regime das águas e significativamente todo o ecossistema, descaracterizando a paisagem da planície do Pantanal”, diz o MPMS.

A recomendação cita parecer do Ceippam (Centro Integrado de Proteção e Pesquisa Ambiental), que integra Ministério Público e UCDB (Universidade Católica Dom Bosco). O centro encontrou problemas no relatório de impactos ambientais apresentado pelos proprietários da Fazenda Girassol ao Imasul em 2017, como uso de dados desatualizados.

MP tenta impedir derrubada de 2,9 mil hectares do Pantanal para criação de gado
Fazenda Girassol fica ao norte do Rio Taquari (Foto: Reprodução/Imasul)

Além disso, identificou análise rasa sobre a provável existência de áreas de refúgio e reprodução de aves migratórias e de fauna ameaçada de extinção na área. De acordo com o “Relatório Anual de Rotas e Áreas de Concentração de Aves Migratórias no Brasil”, o Pantanal do Paiaguás é importante para a avifauna migratória. Pelo menos 13 espécies de aves com esta característica foram identificadas nos levantamentos de campo do imóvel rural.

A Fazenda Girassol ainda abriga duas espécies protegidas por lei, o jatobá e o pequi, bem como a aroeira, ameaçada de extinção. A área também registra a ocorrência do cumbaru, espécie em situação de vulnerabilidade na lista da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza, na sigla em inglês).

A promotora da 2ª Promotoria de Justiça da Comarca de Corumbá, Ana Rachel Borges de Figueiredo Nina, deu dez dias para resposta do diretor-presidente do Imasul, André Borges Barros de Araújo, e dos proprietários da Fazenda Girassol. Caso a recomendação não seja acatada, o MPMS pode ir à Justiça. O ato foi publicado na edição de hoje (9) do Diário Oficial do órgão.

Quase um terço das áreas de criação de gado no Pantanal estão degradadas

A Fazenda Girassol fica ao norte do Rio Taquari e tem 9 mil hectares de extensão. Seus proprietários querem desmatar 1,1 mil hectares de vegetação típica de Cerrado e mais 1,8 mil hectares de pastagem nativa do Pantanal para criação de gado extensivo. O investimento estimado ao Imasul é de R$ 1,5 milhão.

O último boletim Sigabov, divulgado pela Famasul (Federação de Agricultura e Pecuária de Mato Grosso do Sul) em janeiro deste ano, aponta que quase 30% das áreas de pastagem na região do Pantanal apresentam algum grau de degradação.

Corumbá tem o maior rebanho bovino de Mato Grosso do Sul, com 1,9 milhão de cabeças de gado.

Jornal Midiamax