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Política

‘Poderia salvar vidas’: Pesquisadoras já apontavam falhas na Casa da Mulher há quatro anos

Relatório foi entregue no mesmo ano em que centenas de mulheres denunciaram atendimento na Deam
Dândara Genelhú, Thatiana Melo -
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vanessa mulheres casa da mulher
Denúncias em rede social já apontavam descaso no atendimento da Casa da Mulher Brasileira. (Reprodução, Redes Sociais)

Falhas na Casa da Mulher Brasileira de foram apontadas por relatório entregue em março de 2020. Naquele mesmo ano, centenas de mulheres denunciaram o atendimento da instituição e (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher) nas redes sociais. Falta de acolhimento e atendimento ‘frio’ estão entre os relatos, feitos naquele ano e em 12 de fevereiro de 2025 por Vanessa Ricarte — vítima de feminicídio que denunciou em áudios o atendimento antes de ser assassinada pelo ex-noivo.

Um grupo de mulheres pesquisadoras formadas nas áreas de Antropologia, Direito, , Psicologia, Sociologia, estudaram os serviços prestados na Casa da Mulher Brasileira da Capital — a primeira do país. A análise aconteceu de outubro de 2018 a outubro de 2019.

“O resultado desse trabalho de imersão no dia-a-dia da Casa foi a criação de um relatório final, entregue em março de 2020, contendo inúmeras recomendações para o melhoramento dos diversos serviços então oferecidos pela Casa da Mulher Brasileira”, afirmam as pesquisadoras.

Contudo, questionam o destino que o relatório tomou. “Até hoje não se sabe se nossas recomendações foram ao menos lidas com a devida seriedade. Também não sabemos se com as mudanças de gestores políticos esse relatório foi compartilhado, seja em nível federal, estadual ou municipal”, lamentam.

Consultorias

São responsáveis pelo relatório: Solange Dacach, socióloga, com experiência de atuações no desenvolvimento de políticas de enfrentamento da violência contra a mulher; Priscila Anzoategui, antropóloga, especializada em estudo da violência contra a mulher nas comunidades indígenas do MS; a mestre em psicologia Carlota Phillipsen; Karla Waleska Melo, cientista social; e Pauliane Amaral, jornalista e doutora que lutou pelo reconhecimento legal do assassinato da irmã como feminicídio, a musicista Mayara Amaral.

Após analisar e apontar falhas no atendimento às vítimas de violência, as pesquisadoras levantam dúvidas sobre as consultorias prestadas. “Nesse universo de perplexidades e questionamento sobre o quanto o Estado Brasileiro leva a sério o dever de nos proteger. Por isso nos perguntamos também sobre as finalidades reais das Consultorias realizadas para avaliar ou estudar as políticas financiadas com dinheiro público”.

As profissionais que dispuseram tempo para auxiliar a melhora do atendimento em Campo Grande indagaram:

“Diante do que vimos, ouvimos, sentimos, propusemos, recomendamos, nos perguntamos: o que realmente foi feito para a melhoria do atendimento? Por que a morte de Vanessa Ricarte não foi evitada? Por que uma mulher que precisou fugir do cárcere privado para pedir ajuda e foi morta horas depois de solicitar medida protetiva na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM)?”.

Falta de ajustes

Áudios de Vanessa Ricarte denunciaram o atendimento prestado por delegadas da Deam. Após a divulgação dos registros, os policiais pediram afastamento do cargo. Contudo, permanecerão até o fim das investigações sobre o serviço.

Para as pesquisadoras, a culpabilização das delegadas não é o caminho para melhorias. “A culpa não é da DEAM ou das delegadas que ali trabalham, como alguns acreditam, mas de toda uma falta de ajustes, que uma instituição – especialmente uma precursora como é a CMB – naturalmente precisa passar de tempos em tempos”.

Assim, destacaram que a Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande completa 10 anos em 2025. Apesar de receber a primeira instituição deste tipo do , segue com altos índices de violência contra mulheres.

Em menos de dois meses o Estado já registrou cinco feminicídios.Já é mais que tempo de mudar o que não funciona e ouvir mais as mulheres que usam o espaço, apurar a comunicação entre profissionais de tão distintas áreas e qualificações que se fazem indispensáveis para o funcionamento dos serviços”, criticaram.

(Foto: Henrique Arakaki, Midiamax)

Interesses

O grupo afirmou que “parece haver um excesso de interesses pessoais que permitem que se engavetem recomendações que poderiam não só salvar vidas, mas também gerar conhecimento”. Logo, destacaram que as recomendações podem criar uma ponte com a sociedade.

“Ouvir mais as próprias mulheres atendidas, humanizar no sentido mais radical da palavra, ter como objetivo não só a expansão dos serviços, mas também a sua eficácia”, sugeriram.

Apesar de identificar a importância da Casa da Mulher Brasileira, as pesquisadoras apontam a necessidade de melhoria. “Agora nos questionamos mais uma vez sobre a efetividade dos serviços oferecidos pela Casa da Mulher Brasileira e pedimos que o nosso trabalho seja reconhecido, lido e discutido para que histórias como a de Vanessa Ricarte não se repitam”.

Afirmaram que em momentos de fragilidade institucional — como o causado após sequência de feminicídios no Estado — é necessário questionar: “Quando vamos começar a ouvir as mulheres que usaram e usam a Casa da Mulher Brasileira?”.

Além disso, afirmaram que estas são mulheres “para a qual a vida pode depender de alguns ajustes que demoram ou nunca acontecem”.

Relatos são semelhantes

Humilhação, deboche e falta de acolhimento. Essas são algumas das características apontadas em relatos sobre atendimentos na Deam (Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de MS) realizados há pelo menos quatro anos na Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande. Áudios de Vanessa Ricarte sobre atendimento na quarta-feira (12) mostram que o descaso e erros grosseiros seguem presentes na Deam.

Vanessa detalhou o atendimento na Delegacia Especializada: “bem fria e seca”. A jornalista buscou amparo e denunciou o ex-noivo, Caio Nascimento, pouco tempo antes de ser vítima de feminicídio na própria casa. Ela foi morta a facadas.

Neste domingo (16), a jornalista completaria 43 anos ao lado de amigos e familiares. Agora, deixa memória de carreira brilhante e independência, além das denúncias em gravação de voz.

Falta de acolhimento

O post em grupo do Facebook rendeu diálogo sincero entre mulheres que, infelizmente, se identificaram com a situação. Assim, mais de 500 comentários trouxeram à tona realidade também vivida por Vanessa: falta de acolhimento.

“Sinto que muitas vezes falta amor nesses atendimentos (acolhimento)… Só sinto tristeza, de verdade”, lamentou uma mulher no grupo. Os relatos femininos são de ‘humilhação’ durante os atendimentos.

“É uma vergonha. Passei por isso, é muita humilhação”, disse uma internauta. Outra integrante do grupo apontou tratamento com ‘grosseria’ no atendimento psicológico. “Eu fui tratada com grosseria por uma das psicólogas lá dentro. Eu precisava de apoio, não de apanhar mais, palavras também ferem, tanto quanto um coice”, lamentou.

Vale lembrar que os comentários são de quatro anos atrás. Contudo, vítima do primeiro feminicídio de Campo Grande em 2025, Vanessa também relatou tratamento ‘frio’ dentro da instituição.

“Eu, que tenho instrução, escolaridade, fui tratada desta maneira. Imagina uma mulher vulnerável… essas que são mortas”, disse a jornalista em mensagem a uma amiga.

“Tudo protege o cara, o agressor”, resumiu Vanessa.

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