Polícia

'Queremos que seja feita Justiça', diz filho de pescador morto em acidente causado por assessor de Reinaldo

Filho da vítima confirmou que viu Nivaldo fugir e se livrar de garrafas de bebida na embarcação

Guilherme Cavalcante e Thatiana Melo Publicado em 03/05/2021, às 13h45

Vítima tinha 59 anos; autor fugiu sem prestar socorro
Vítima tinha 59 anos; autor fugiu sem prestar socorro - Foto: Reprodução | Facebook

Filho de Carlos Américo Duarte, vítima fatal de acidente ocorrido no sábado (1º) no Rio Miranda, o estudante Cae Duarte, de 32 anos confirmou que Nivaldo Thiago Filho de Souza seguia em alta velocidade no momento da colisão e que teria se livrado de garrafas de bebida dentro da embarcação. A informação também consta no boletim de ocorrência registrado por ele na Delegacia de Miranda, na tarde do acidente.

Ao Jornal Midiamax, Cae relatou que o acidente ocorreu pouco após o meio-dia, cerca de 15 minutos após ele, o pai e o piloteiro, Rosivaldo Lima, saírem para pescar. “Começamos a subir o rio e estávamos muito felizes, aproveitando o momento. Depois de uns 15 minutos, tirei uma selfie com meu pai. Foi quando uma lancha em alta velocidade nos atingiu”, relatou.

Cae conta que, durante o impacto, o pai e o piloteiro foram atingidos pela outra embarcação enquanto ele perdeu a consciência. “Quando voltei à realidade, me deparei com o autor do crime tentando funcionar o barco para fugir e jogando todas suas bebidas alcoólicas no rio”, conta. “Nesse momento, me levantei e me deparei com meu pai caído, já sem vida”, acrescenta.

Fuga

Após a tragédia, e percebendo que o barco iria afundar, eles trocaram de embarcação. Enquanto outros pescadores seguiram atrás do autor, que havia fugido (confira o vídeo abaixo), Cae, Rosivaldo e o corpo de Carlos seguiam para a margem do rio, na altura da pousada.

“Ficamos esperando a PMA (Polícia Militar Ambiental) chegar, liberar tudo. Mandaram a gente de volta para onde tínhamos deixado os carros e a polícia orientou passar na PRF (Polícia Rodoviária Federal). Quando parei lá, o criminoso já estava no local, tinham pego ele. Estava tudo numa boa, ele mexendo no celular. Mas, eu não o reconheci naquela hora, estava de cabeça baixa. Só fui reconhecer na delegacia, quando ele chegou escoltado pela PRF”, diz.

Após ter depoimento coletado, Cae e o piloteiro foram para o hospital, em Miranda, onde passaram por atendimento. Ambos tiveram alta no mesmo dia. Rosivaldo saiu por volta das 23h do sábado e está em casa, com bastante dor e sob efeito de analgésicos, mas sem risco de morte.

“Machuquei meu braço, minha perna, meu pé. O piloteiro teve alguns cortes e se machucou, também. Meu pai perdeu a vida. Quando estávamos no hospital, a Marinha chegou e me entrevistou, fez algumas perguntas, mas a gente perdeu a fé, porque já sabíamos que ele [Nivaldo] tinha se recusado a fazer o bafômetro, mas assumido que bebeu. E mesmo assim foi solto. Queremos que seja feita Justiça e que ele pague por tudo".

Ocorrência

Conforme o boletim de ocorrência, ao qual o Jornal Midiamax teve acesso, Nivaldo Thiago Filho de Sousa foi abordado pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) no posto Guaicurus, na BR-262. Os policiais teriam tentado obter exame de alcoolemia, mas este foi recusado por Nivaldo. No entanto, o suspeito confirmou que havia bebido cerveja pela manhã, cerca de 4 garrafas de 205ml. Segundo o registro, ele não apresentava traços de embriaguez.

O boletim também traz que não houve perícia no local por não se saber exatamento onde o acidente ocorreu e porque as embarcações não foram recolhidas. O boletim traz, no entanto, que a PMA teria recolhido a embarcação de Nivaldo enquanto a das vítimas estaria na Pousada Beira Rio, onde estavam hospedados.

Naquela ocasião, ainda segundo o boletim de ocorrência, a Marinha compareceu à delegacia para solicitar cópia da ocorrência e afirmou que iniciaria a perícia na manhã desta segunda. A informação foi confirmada ao Jornal Midiamax por meio de nota. O boletim aponta, ainda, que Nivaldo não era habilitado para conduzir a embarcação.

Temor por impunidade

Pescadores que testemunharam o acidente que matou Carlos Américo Duarte temem pela impunidade na responsabilização do autor, Nivaldo Thiago Filho de Sousa. Isso porque, conforme relatos, Nivaldo teria envolvimento com diversas autoridades, que o pretegeriam das imputações. Ele é genro de parlamentar de MS e nomeado a cargo comissionado na Casa Civil de MS.

Depoimento de um pescador que presenciou o acidente narra que o autor estava na contramão do rio e em alta velocidade no momento da colisão. Conforme o relato, Nivaldo estava conduzindo a lancha - para a qual não seria habilitado - ao lado da esposa, também embarcada. O veículo teria motor com potência de 115 cavalos, o que não seria permitido para o Rio Miranda.

“Ele veio na contramão e bateu de frente com a lancha (…). Ele jogou toda a bebida no Rio e fugiu (…). Levou um amigo nosso e o piloteiro está em estado grave. Quando ele viu que matou nosso amigo lá, ele jogou toda a bebida no rio e fugiu”, traz o depoimento de integrante de grupo de pescadores que não será identificado por temer represálias de grupo político.

O relato também descreve que os pescadores esbarraram em dificuldade para identificar Nivaldo, que contaria com acobertamento de autoridades da região, sem especificar quais. A partir desta situação, surgiu o temor da impunidade. Nivaldo também teria "ficha longa" de problemas recorrentes na região, sem a devida responsabilização. Nesse contexto, depoimento comemora a entrada da Marinha nas investigações do caso.

“Conseguiram pegar ele. Ele fugiu dos outros piloteiros, chegou escoltado pela Polícia [Rodoviária] Federal. A gente tem que divulgar o máximo, porque poderia ser um de nós”, conclui o relato, que pode ser conferido na íntegra abaixo:

Jornal Midiamax