Polícia

Com tráfico, mortes e sumiços, bairro de Campo Grande vive sob medo de facções

Moradores relatam medo após vários crimes cometidos no local

Mariana Rodrigues Publicado em 21/02/2018, às 18h30

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Moradores relatam medo após vários crimes cometidos no local

Enquanto autoridades insistem em minimizar a presença na periferia de Campo Grande de facções criminais famosas nacionalmente, moradores do Bairro Zé Pereira enfrentam a realidade de medo e insegurança desde que ações violentas começaram a ser ligadas à suposta atuação do PCC e CV. O narcotráfico, pelo menos, tem presença confirmada na vizinhança.

Apesar da lei do silêncio imperar, nas ruas quase todos sabem apontar onde funcionariam supostas bocas de fumo, e cada vez mais jovens aderem à ‘correria’. Quem ‘é do corre’, como se referem a quem cumpre pequenas tarefas para traficantes como disque-drogas, fica a um passo da morte violenta em troca de alguns trocados.

A proximidade com o narcotráfico como opção de renda para jovens quase sempre sem qualificação profissional e com poucas perspectivas econômicas é uma preocupação constante para os pais. Mas, nem sempre foi assim. O bairro Zé Pereira, localizado na região Oeste de Campo Grande, já foi considerado um local tranquilo para se morar, antes era chamado de “José Pereira”, mas devido a sua popularidade, passou a ser apenas “Zé”.

Ele existe há 33 anos, de acordo com o Planurb (Instituto Municipal de Planejamento Urbano), alguns moradores são amigos de infância, cresceram juntos e têm amizades que permanecem até hoje. Só que, com o avanço e profissionalização do narcotráfico em Campo Grande, essa rotina começou a mudar desde que o crime tomou conta das ruas do bairro.

PCC x CV

No ano passado, em fevereiro, um jovem de 18 anos foi amarrado e levado para um imóvel, aonde teria sido submetido a um julgamento com integrantes do PCC (Primeiro Comando da Capital) de todo país.  Richard Alexandre Lianho, foi levado dentro de um carro para o Ceuzinho e assassinado a tiros. Depois teve os braços e o pescoço cortado e foi jogado em um barranco. Ele pertencia ao CV (Comando Vermelho).

Em agosto do mesmo ano, Leandro da Silva Martins, 25 anos, morreu após ser esfaqueado em uma vila de quitinetes, no Zé Pereira. a vítima passou pela Rua Homero Lima na companhia de um senhor, entrou em uma vila de quitinetes e saiu, em seguida, ferido a golpes de faca. A vítima seria usuário de drogas e já teria feito alguns furtos para sustentar o vício.

O mais recente caso que aperta o coração de quem vive na região é o desaparecimento de John Marques. Ele estava em casa, no Zé Pereira, quando saiu para fumar e não voltou mais. Supostas imagens de corpo decapitado teriam sido recebidas por um amigo da família, e o caso passou a ser investigado pela Delegacia de Homicídios. Há suspeita de que o desaparecido estaria ‘no corre’, envolvido com facção criminosa.

Bairro normal

O Tenente  Coronel Ajala, comandante da PM na região, classifica o bairro como tranquilo, apesar dos crimes e pontos de vendas de drogas, e não acredita que o local tenha mais influência para o tráfico do que os outros bairros próximos, mas afirma que é um dos bairros que mais cresceu para este tipo de crime.

“O Zé Pereira cresceu para o tráfico. É um bairro normal, que tem bocas de fumo como todos os outros bairros ao redor. Todos os bairros têm”, compara.

Já os moradores, que não se identificam, com medo de represálias, afirmam que não existem apenas “pequenas bocas, mas que o local passou a ser um ponto onde o tráfico de drogas é forte”. Ainda conforme os moradores há as conhecidas bocas de fumo, mas desde a morte de um integrante de facção criminosa, grandes traficantes teriam se instalado no bairro.

Para o policial Ajala, o maior problema está na impunidade como esse tipo de crime é tratado, já que muitas vezes os donos de “boca de fumo” e fornecedores de droga não ficam presos. “A fragilidade da lei nos deixa anulados para prisão desses indivíduos, muitas vezes o suspeito tem direito de custodia, ele tem residência fixa e é solto. Só que na lei dos traficantes não existe impunidade, tudo é cobrado”, lamenta.

Facção criminosa

Os moradores que conheciam John desde a infância têm medo de falar depois que a suspeita de seu desaparecimento possa ter envolvimento com facção criminosa.

Para os moradores, a presença de integrantes de fação criminosa é real no bairro, inclusive depois do desaparecimento de John Marques. “Os comentários são de que ele teria se envolvido com uma mulher de um presidiário integrante de uma facção criminosa e que teria sido morto por isso”, conta uma amiga de infância.

Uma moradora disse ainda que vários desaparecimentos aconteceram no bairro, mas que não chegou ao conhecimento da mídia. “Homens, mulheres, vários desaparecimentos já aconteceram aqui e todos podem estar ligados tanto ao tráfico como o envolvimento com facções criminosas, mas ninguém quer falar, todos têm medo”, afirma ela e acrescenta que as coisas ainda vão piorar.

Com tráfico, mortes e sumiços, bairro de Campo Grande vive sob medo de facções

A equipe do Jornal Midiamax esteve no bairro para falar com os moradores, mas a maioria deles não quis falar sobre o desaparecimento de Jhon, já que ele era conhecido no bairro inteiro, e nem sobre a onda de crimes que acometem o bairro nos últimos anos.

Jornal Midiamax