Polícia

Preso na Capital, Nem da Rocinha diz que entrou no crime para ‘ajudar’ filha

Livro narra a história de um dos maiores traficantes cariocas

Caroline Carvalho Publicado em 26/06/2016, às 16h13

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Livro narra a história de um dos maiores traficantes cariocas

No principio, era Antônio Bonfim Lopes, um cidadão carioca que morava num cortiço com a esposa e a filha e trabalhava na distribuição da revista com a programação da Net. Depois tornou-se 'Nem', um dos chefões do tráfico da Rocinha, a maior favela da América Latina. Uma doença rara encontrada na filha Eduarda, então com noves meses, fez a trajetória do homem mudar completamente. Obrigado a largar do emprego e afundado em dívidas que chegavam a 20 mil reais, Antônio recorre ao único disposto a lhe ajudar: Luciano Barbosa da Silva, vulgo Lulu, uma das principais lideranças da facção criminosa Comando Vermelho.

Treze anos depois, em 2011, Nem que já era um dos criminosos mais procurados pela Polícia Federal, é preso e transferido para a Penitenciária Federal de Campo Grande no mesmo ano, sob justificativa que ele não poderia ficar no estado fluminense. Sua história agora é narrada no livro O Dono do Morro: Um homem e a batalha pelo Rio (Companhia das Letras), do jornalista inglês Misha Glenny, que estará na Feira Literária de Paraty este ano.

De acordo com o site BBC, o autor esteve diversas vezes em Campo Grande para se encontrar com o ex-traficante, que cumpre pena de 16 anos e oito meses por tráfico de droga e formação de quadrilha e aguarda julgamento em oito processos. Na obra, também foram ouvidos moradores, amigos e inimigos do protagonista, policiais, políticos, além do secretário de Segurança Pública do Rio, José Mariano Beltrame.

A ascensão no crime

'Nem' começa como segurança de uma das bocas de fumo da Rocinha, mas com sua inteligência e moderação, logo torna-se o braço direito de Lulu. Na época, os índices de violência da Rocinha despencaram para patamares equivalentes aos bairros de classe média da zona sul do Rio. Lulu, que se considerava um empresário, costumava dizer que “a guerra é ruim para os negócios”.

Favela da Rocinha viveu verdadeiro clima de guerra na luta pelo controle do tráfico, em 2004 (Reprodução)Mas o clima de paz dura pouco. Em 2004, a cúpula do Comando Vermelho ordena que Lulu divida o controle do tráfico com Eduíno Araújo Filho, o Dudu da Rocinha. Contrariado, Lulu se alia à outra facção, o ADA (Amigo dos Amigos). O que se segue é um dos episódios mais violentos da história da favela: Dudu e um grupo de cerca de 60 traficantes saíram do Morro do Vidigal para tomar os pontos de venda de drogas naquela região, e pelo menos três pessoas são assassinadas na mesma noite.

O confronto atrai o BOPE (Batalhão de Operações Especiais) e 1.200 policiais ocupam a Rocinha e matam Lulu. A partir de então, o caos se instala na favela, que é tomada por sucessivas lutas pelo poder e trocas de comando, até que Nem assume a chefia da Rocinha. Ainda de acordo com o BBC, a sua gestão é marcada pela esperteza na logística, aprendida no mercado formal, e redução da violência no local.

Ele orienta os soldados a não ameaçar moradores, mas expulsar do morro os infratores, veta a participação de menores na organização, proíbe o comércio de crack e fortalece a tradição criada por Lulu de oferecer assistência econômica aos moradores. O comércio de cocaína decola e segundo estimativas do setor de inteligência da Polícia, a quadrilha movimentava entre 10 e 15 milhões de reais por mês.

O fim do reinado

Em 2011, às vésperas da ocupação da Rocinha para a instalação de uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), ele já era o traficante mais procurado do Rio de Janeiro. Em novembro daquele ano, foi encontrado em uma blitz na saída do morro no porta-malas de um carro de luxo com maletas de dinheiro – possivelmente para subornar a polícia. O episódio, contato em detalhes no livro de Misha Glenny, acabou em trocas de tiros entre policiais militares, civis e federais, todos querendo se apropriar da prisão do chefão do crime.

(Sob supervisão de Ludyney Moura)

Jornal Midiamax