Polícia

Polícia Civil ouve adolescentes, que negam planos para suicídio coletivo

Celulares foram vistoriados e não há indícios de grupos

Guilherme Cavalcante Publicado em 24/09/2016, às 11h58

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Celulares foram vistoriados e não há indícios de grupos

A Polícia Civil de São Gabriel do Oeste já identificou seis dos 20 jovens que poderiam ser integrante de um grupo de WhatsApp que estariam combinando um suposto suicídio coletivo. De acordo com o delegado da cidade, Fabio da Silva Magalhães, quatros deles já foram ouvidos, mas e negaram a criação do grupo e dos planos de se matarem.

Durante os depoimentos, ocorridos na tarde da sexta-feira (23), os telefones celulares e contas no Facebook dos depoentes, todas adolescentes com idades de 12 e 16 anos, também foram vistoriados e nenhum indício de existência do grupo foi identificado pela polícia.

A delegacia ainda analisa as informações e aguarda mais declarações para concluir a investigação. "Por responsabilidade, ainda não podemos afirmar que as coisas não passam de boato. Tudo que eu posso falar agora é alertar aos pais para sempre monitorarem as redes sociais de seus filhos", alertou Fabio da Silva Magalhães.

Ainda segundo o delegado, das seis adolescentes identificadas, supostas integrantes do grupo, ouviu quatro, uma delas com histórico de tentativa de suicídio. A garota tentou se matar duas vezes, numa delas neste ano, ela tentou se matar tomando dose excessiva de remédio. 

Nos últimos dias, moradores da cidade de 25 mil habitantes relataram preocupação e desespero com o rumor de que 20 jovens planejariam se matar nos próximos dias, em São Gabriel do Oeste.

Um arquivo de áudio que circula no WhatsApp traz uma mulher afirmando que estudantes de uma determinada escola da cidade teriam criado, também no WhatsApp, um grupo chamado 'suicidas anônimos'. Os adolescentes manteriam amizade com uma adolescente de 16 anos que matou-se em agosto passado, dois dias depois do namorado morrer em um acidente de moto.

A situação se agravou ainda mais quando um rapaz de 15 anos, morador da cidade, matou-se em Campo Grande durante uma visita a familiares, na última semana. Ele foi apontado como amigo da adolescente de 16 anos e seria uma espécie de líder do grupo, que planejaria realizar o suposto suicídio coletivo no próximo dia 6, quando ela completaria 17 anos.

Famílias lamentam e reclamam de boatos

Pai de jovem que se matou afirma sofrer com boatos (Foto - Henrique Kawaminami)

A reportagem do Jornal Midiamax entrou em contato com a mãe da adolescente morta em agosto e com o pai do jovem que morreu na semana passada.

No caso da adolescente, a mãe evitou conversas longas, mas destacou que a filha sofria muito com a morte do namorado. Ela também destacou que ficou imensamente triste com os boatos. "Homenagear minha filha se matando é é errado", afirmou. Ela negou que a filha conhecesse o adolescente que se matou e que é apontado como o líder do grupo. "Eles não se conheciam, eu tenho certeza. Estão inventado coisas", completou. A mãe da garota visita o túmulo da filha todos os dias e disse que pretende afastar-se da cidade por um período.

Já o pai do rapaz, Olívio Defonte, que também nega que o filho, Lucas Defonte, conhecesse a adolescente, afirmou ainda estar surpreso com a morte dele. "Ao logo dos 15 anos que viveu ele nunca demonstrou tristeza ou depressão, era um menino feliz. Mas há cerca de dois meses, a avó dele morreu. E isso foi uma única coisa que eu vi abater meu filho", descreveu. "Eu acompanhei toda a história dessa menina, a cidade ficou muito impactada, mas nunca imaginaria que meu filho morreria da mesma forma".

"Diga que meu filho não tem nada a ver com isso [criação de grupo em rede social para combinar suicídio]", disse Defone, nesta sexta-feira (23). Ele visitava o túmulo do filho, no cemitério de São Gabriel do Oeste. Ele disse que o filho tinha ido visitado a irmã, que mora em Campo Grande.

"Ele [Lucas] pediu dinheiro para comprar um celular e uma caixa de som, no Paraguai. "Como você vê meu filho tinha planos, sei lá, não tinha motivos para se matar", desabafou o pai. 

Setembro amarelo

Durante todo o mês de setembro, entidades como Centro de Valorização da Vida (CVV), Conselho Federal de Medicina (CFM) e Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) colocam o tema do suicídio em pauta. O Jornal Midiamax endossa a campanha e promove reflexões por meio das reportagens que noticiam suicídio, a fim de romper com o tabu que promove desinformação. Confira, a seguir, algumas matérias especiais escritas pelos jornalistas do Midiamax:

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