Polícia

Empresário usa ‘sonho da casa própria’ para dar golpe milionário na Capital

Uma das vítimas do empresário chegou a perder quase R$ 100 mil

Renata Portela Publicado em 27/01/2016, às 12h55

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Uma das vítimas do empresário chegou a perder quase R$ 100 mil

O sonho da casa própria se transformou em pesadelo para algumas famílias da Capital, que confiaram suas economias e esperanças ao dono da construtora Casas Campo Grande, Maciel Batista do Santos, de 34 anos, que já tem passagens por estelionato desde 2003 no Paraná, e é alvo de mais de 15 ações na Capital sul-mato-grossense (conforme consulta feita junto ao site do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul). Clientes afirmam que assinaram contratos, pagaram e nunca receberam a obra. Alguns chegaram a entregar carros como entrada e outros firmaram contratos em que o pagamento da obra era parcelado em mais de 20 anos.

Após notícia feita pelo Jornal Midiamax em 9 de dezembro de 2015, em que o empresário registrou boletim de ocorrência por tentativa de sequestro, afirmando que teve três carros roubados, clientes da construtora procuraram o jornal para relatarem que fecharam contrato na Casas Campo Grande, investiram dinheiro e a obra nunca foi finalizada. Um dos clientes, Alberto Lucas Filho, de 46 anos, entregou R$ 92 mil para construção da casa para a filha, que receberia o imóvel como presente de casamento, no dia 18 de dezembro de 2015.

Alberto contou ao Midiamax que viu propaganda da Casas Campo Grande em um canal de TV aberta, em que o apresentador dizia que a construtora era confiável. “Eu conheço o apresentador, liguei pra ele e ele disse que eu podia confiar, então em junho fechei contrato com a empresa”, diz. Ele afirma que fez o pagamento com o cartão do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento), “Até hoje pago o banco, mas nunca recebi a obra”, lamenta.

Para o cliente, Maciel afirmou que a obra seria entregue em três meses, mas até hoje, apenas 35% da obra teria sido feita. “Já até contratei outra empresa que inclusive está refazendo várias coisas que foram construídas erradas. Ele só fez o esqueleto da casa”, conta. Ainda segundo Alberto, a obra servia como 'bode expiatório'. “Ele levava outros clientes na obra da minha casa, para mostrar que estava trabalhando e conquistar as pessoas”, revela.

Segundo Alberto, ele é orientado pelo escritório Márcia Aleixo Advogados. A advogada Márcia afirma que outras vítimas da construtora também são representadas por ela. “De fato existe uma representação criminal e o caso é apurado pela Dedfaz [Delegacia Especializada em Repressão a Crimes de Defraudações e Falsificações]”. Alberto conta que já registrou o caso junto à Polícia Civil e aguarda a prisão de Maciel. “Já perdi as esperanças de reaver o dinheiro”, desafa.

Conforme relatado por ele ao Jornal Midiamax, o 'golpe' aplicado pelo empresário em Campo Grande já beira R$ 6 milhões. A equipe de reportagem apurou que em novembro de 2015, a construtora chegou a comemorar R$ 1 milhão em contratos.

Outras duas vítimas também contaram que souberam da construtora pelo mesmo canal televisivo. Um homem, de 57 anos, fechou contrato em 26 de setembro, para erguer um escritório no terreno, que fica na saída para São Paulo. “Dei uma Saveiro 2011 no valor de R$ 30 mil e R$ 9 mil em dinheiro. Perdi o carro e perdi o dinheiro”, diz o homem que recebeu prazo de entrega da obra para fevereiro de 2016 e, até agora, não viu uma parede sequer ser erguida. Ele conta que também é instruído pela advogada Márcia Aleixo e que aguarda a devolução do dinheiro.

Para Sérgio Ferreira de Lima, de 49 anos, o prejuízo foi de aproximadamente R$ 7 mil. Ele afirma que fechou contrato em setembro de 2015, também após ver a propaganda na TV. “O apresentador dizia que 'essa é boa, essa eu garanto'”, conta. Lima afirma que é cauteloso e chegou a fazer pesquisa para saber se poderia confiar na empresa e, na época, não encontrou nada ilícito ligado ao CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) da construtora.

Segundo Sérgio, ele procurou a Casas Campo Grande e, no dia seguinte, Maciel foi até a casa dele e o levou para visitar uma obra. “Fechei o contrato e repassei 30% do valor, que era o necessário para começar a obra”, conta. “Ele assinou o contrato e eu tinha que reconhecer firma no cartório, mas ele carimbou em cima da assinatura. Eu percebi má-fé naquele instante”, afirma o cliente, que pagou R$ 6.159 de entrada para a obra de uma laje que custaria, no total R$ 20,531.

Após o pagamento, Sérgio lembra que ouvia sempre a promessa de que a obra começaria. “Fui lá pessoalmente e não fui tão bem recebido como da primeira vez. Falei que quitaria a obra assim que ficasse pronta, para tentar persuadir ele a cumprir o contrato, mas ele nem demonstrou interesse”, contou. Após o episódio, acionou a Polícia Civil registrando boletim de ocorrência e também o Judiciário.

De acordo com Sérgio, no dia 23 de novembro Maciel foi notificado. No mesmo dia, o empresário ligou para a vítima, dizendo que levaria uma equipe e material para a obra da laje. “Chegaram dois pedreiros dizendo que o material da construção estava em cima do caminhão e logo chegaria, mas nunca chegou”, relata.

Sérgio deveria receber o dinheiro gasto no fechamento do contrato, mas o valor não foi retornado e, agora, deve ser repassado diretamente ao Judiciário e posteriormente entregue à vítima. “É triste, porque ele trabalha em cima do sonho das pessoas. Eu não guardo rancor, sinceramente. Se porventura eu perder esse dinheiro, a vida segue para mim”, finaliza.

Relato de ex-funcionário

Funcionário que atuava no ramo de coordenador comercial, saiu da Casas Campo Grande aproximadamente 1 mês após começar a trabalhar no local, afirmando que a construtora não tem dinheiro para as obras que promete. “Ele quis criar um sistema que não se sustenta”, disse o trabalhador.

Conforme apurado pelo Jornal Midiamax, a construtora tem apenas R$ 30 mil de Capital Social, que não é considerado suficiente para as obras, uma vez que a empresa fecha contratos de construções avaliadas em mais de R$ 100 mil, parceladas em várias vezes. “Você paga R$ 20 mil, ele te enrola uns 11 meses e usa o seu dinheiro para pagar uma obra antiga, que ele está devendo”, disse o ex-funcionário, que define a empresa como “esquema em pirâmide”.

Ainda segundo o ex-funcionário, a ideia da empresa de Maciel é boa, mas não tem dinheiro para executar o que promete. “Ele não tem dinheiro para injetar, tanto que falava em pegar empréstimos milionários para injetar na empresa”, contou o trabalhador. Ele também conta que, no período em que ficou na construtora viu funcionários sem receberem salário e clientes sem receberem as obras. “A empresa não tem dinheiro para fazer nem uma obra de R$ 50 mil, porque se tivesse faria todas as obras”, revela.

Propaganda na TV

Em contato com a emissora responsável por veicular a propaganda da Casas Campo Grande, a informação é de que o setor comercial recebeu a proposta de fazer anúncios e firmou contrato. “Era como qualquer outra empresa, não tinha reclamações. Já por volta de novembro, algumas pessoas começaram a ligar para nós, falando sobre atraso nas obras”, diz o gerente comercial Maurício Andreoli.

Segundo a emissora, a construtora não fez obras na casa do apresentador do programa em que era veiculada a propaganda. “Esse fato não é verídico. Depois das reclamações, fizemos reunião, conversamos e achamos por bem retirar a propaganda do ar. Infelizmente, ele não se mostrou tão sério como deveria. Entramos em contato com Maciel, falando sobre as reclamações e ele sempre dizia que iria resolver”, conta o gerente comercial. A propaganda ficou no ar por aproximadamente 4 meses e foi retirada em novembro de 2015.

Outro lado

A equipe do Jornal Midiamax tentou contato com Maciel em quatro números de celulares diferentes, além do telefone fixo da empresa, mas ele não foi encontrado. A informação é de que, mesmo com as ações e inquérito policial tramitando, a construtora segue fechando contratos com clientes.

Confira a propaganda da empresa:

Confira o vídeo AQUI

Jornal Midiamax