A Revolução de 31 de março não foi um golpe, mas um movimento que uniu todas as forças vivas da nação, impondo aos militares acompanhar o brado nascido em Minas Gerais pela união do governador Magalhães Pinto e os chefes militares da área, os generais Mourão Filho e Carlos Luiz Guedes.
Não houve nenhuma resistência. O país estava cansado de invasões de propriedades, desapropriação de empresas, como refinarias, e um grevismo irresponsável. Apenas a intervenção não foi como nas vezes anteriores na República, com a sucessão prevista na Constituição até as eleições seguintes. Com a prorrogação do mandato do presidente Castelo Branco e as cassações numa segunda leva, em 65, começaram as dissidências, aumentadas em 1968, com a decretação dos Ato Institucional 5, instrumento forte que visava combater movimentos armados, sequestros de diplomatas e outros eventos de violência.
A união no primeiro momento pode ser constatada pelo voto do ex-presidente JK no marechal Castelo Branco, ele sendo senador por Goiás, assim como as manifestações da imprensa, em que foram emblemáticos dois editoriais do bravo Correio da Manhã, o “Basta” e, no dia seguinte, o “Fora”. Depois o jornal formou com a oposição ao regime. O livro de Carlos Chagas, um dos mais conceituados jornalistas brasileiros em seu tempo, sobre aqueles dias recorda com base no que foi publicado em O Globo, onde era repórter político, que o deputado Ulysses Guimarães havia concordado com 15 anos, e não dez, na perda de direitos políticos dos cassados. No mais, na imprensa brasileira, apenas o Última Hora, de Samuel Wainer, não apoiou o movimento, embora o dono do jornal tenha alertado o então presidente, de quem era amigo, para os riscos para a estabilidade do governo com o clima de agitação que o país vivia. Não apoiou mas previu.
Outro fato que mostra que o endurecimento do regime foi decorrência da tal luta armada é que, na eleição estadual de 1965, a oposição elegeu os governadores dos dois principais estados – Guanabara e Minas Gerais –, com políticos de alto nível como Negrão de Lima e Israel Pinheiro. Ambos foram empossados pela firmeza do então presidente da República.
Não é justo que se repita à exaustão a inverdade. O movimento evoluiu para um regime autoritário, mas no momento de sua deflagração beirou a unanimidade. Assim como ignorar que o Brasil na época era a 46ª economia mundial e ao passar o governo, 21 anos depois, estava na oitava posição. Hoje, devemos estar entre a 12ª ou 13ª. O Brasil moderno nasceu nos governos de Castelo Branco, Costa e Silva, Médici e João Figueiredo.
No mais, as críticas à censura e aos eventuais excessos na repressão à luta armada fazem parte do debate e muitas das queixas podem ter base em fatos inquestionáveis. Mas a motivação, os resultados econômicos e sociais, a integridade dos presidentes e a qualidade dos ministros não podem ser negados.
Muita gente que sabe e concorda com estas observações prefere hoje o silêncio, o olhar de paisagem. Mas a fraqueza, de um lado, e o revanchismo barato, de outro, não retiram a veracidade do que é colocado.