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Julgamento do impeachment de Trump será ajuste de contas entre republicanos

O julgamento do segundo impeachment de Donald Trump, que começa na terça-feira, deve trazer menos desafios para o ex-presidente do que para o futuro dos republicanos. Trump caminha para a absolvição graças aos senadores do partido. Já a legenda tenta sobreviver em uma capital dominada pelos democratas, diante do crescimento do extremismo de sua base, […]

Agência Estado Publicado em 07/02/2021, às 08h01

Trump foi o segundo a discursas, logo após Jair Bolsonaro. (Foto: Reprodução)
Trump foi o segundo a discursas, logo após Jair Bolsonaro. (Foto: Reprodução) - Trump foi o segundo a discursas, logo após Jair Bolsonaro. (Foto: Reprodução)

O julgamento do segundo impeachment de Donald Trump, que começa na terça-feira, deve trazer menos desafios para o ex-presidente do que para o futuro dos republicanos. Trump caminha para a absolvição graças aos senadores do partido. Já a legenda tenta sobreviver em uma capital dominada pelos democratas, diante do crescimento do extremismo de sua base, divisões internas e sob a influência política de Trump.

“Há uma percepção entre os republicanos de que a ala trumpista controla a base do partido. Fora dos microfones, os republicanos que estão em Washington estão aliviados que Trump tenha ido embora, mas sabem que, no nível estadual e com a base, o trumpismo continua sendo muito influente”, afirma Oliver Stuenkel, coordenador da pós-graduação em relações internacionais da FGV-SP.

Os democratas já sabem que não terão 17 votos de republicanos no Senado contra o presidente, o necessário para condená-lo e torná-lo inelegível na próxima eleição. A previsível absolvição de Trump é sinal de que a base eleitoral do partido está mais próxima das visões do ex-presidente do que do conservadorismo moderado, afirma Stuenkel. “Aquele sonho do Lincoln Project de que a ala moderada voltaria a controlar o partido parece distante hoje.” O Lincoln Project é um dos grupos de republicanos dissidentes que romperam com Trump.

Durante a eleição, nomes tradicionais do partido apelaram para que eleitores votassem em Biden, num sinal da insatisfação de republicanos que se consideram moderados. “Em tempos normais, algo assim provavelmente não aconteceria. Mas estes não são tempos normais”, disse o ex-governador de Ohio John Kasich e republicano desde a juventude ao participar da convenção democrata que nomeou Joe Biden, no ano passado. Kasich foi crítico à escolha de Trump como candidato do partido em 2016, mas se recusou a votar em Hillary Clinton.

Para os congressistas, no entanto, há um cálculo imediato: a eleição de meio de mandato, que renova parte do Congresso, acontece em menos de dois anos. Um voto contra Trump pode representar uma derrota política junto à base de eleitores no futuro próximo. “O partido está se tornando algo mais próximo de um culto pessoal do que de uma organização com base em um conjunto de princípios comuns”, diz Michael Traugott, cientista político e professor da Universidade de Michigan. “A absolvição de Trump aumentará a influência dele no partido.”

Desde a invasão do Capitólio, no dia 6 de janeiro, os republicanos têm sido pressionados a se distanciar de teorias da conspiração e a condenar milícias de extrema direita. Os simpatizantes de Trump que invadiram o Congresso tentavam impedir um dos ritos de confirmação da eleição de Biden.

Muitos republicanos endossaram as teorias infundadas de Trump de que houve fraude na eleição, até mesmo mais de 150 deputados. Além de não contestar abertamente as teorias do ex-presidente, que serviram de base ao ataque ao Capitólio, alguns republicanos no Congresso têm laços com a extrema direita, conforme revelou o New York Times. Há investigações internas em andamento, mas nenhuma evidência de que algum dos parlamentares tenha ajudado os extremistas no ataque.

Republicanos negaram ter qualquer relação com os radicais, mas têm se recusado a expurgar membros que abertamente apoiam teorias da conspiração. O primeiro teste ocorreu na semana passada, quando a Câmara destituiu a deputada Marjorie Taylor Greene de duas comissões. Os republicanos na Câmara se opuseram à medida.

Greene foi eleita após defender abertamente ideias ligadas ao QAnon, teoria conspiratória segundo a qual Trump é um salvador que luta uma guerra secreta contra um Estado profundo globalista, empresários como George Soros, democratas, mídia e até Hollywood para defender os EUA de satanistas e pedófilos.

A reação dos democratas na Câmara veio depois que reportagens mostraram que ela endossou, nas redes sociais, posts que incitam a violência contra parlamentares democratas, incluindo uma publicação que defendia a execução da presidente da Casa, Nancy Pelosi.

O estrategista e cofundador do Lincoln Project, Steve Schmidt, aposta que os republicanos erraram na decisão sobre Greene. E isso terá um custo político. “Marjorie Taylor Greene será a cara do partido, a cara da eleição de meio de mandato, a cara dos extremistas”, disse Schmidt em entrevista à Associated Press.

Mas, na mesma semana, o partido se recusou a afastar de posição de liderança a deputada Liz Cheney, depois que ela votou a favor do impeachment de Trump, uma decisão lida nos bastidores como um sinal de que há divisões sobre como lidar com a influência do ex-presidente dentro do partido.

Diante de uma crise de identidade, os republicanos no Senado preferem ficar na zona de conforto e não arriscar perder os eleitores de Trump. “O comportamento de cada republicano não reflete o que eles acham que está certo ou errado, mas o cálculo que estão fazendo de para onde o partido está indo”, resumiu Stuenkel.

Jornal Midiamax