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Chuvas aceleram corrida contra o tempo em resgate na Tailândia

Retirada de quatro meninos renova esperanças no país; nove pessoas continuam presas

Clayton Neves Publicado em 08/07/2018, às 21h01

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O resgate de quatro dos 12 meninos presos por duas semanas num complexo de cavernas da Tailândia com o seu treinador de futebol veio neste domingo como um suspiro de alívio no drama que comove todo o país e está sendo observado pelo mundo. Em menos tempo do que o inicialmente previsto, a boa notícia de que os primeiros resgatados haviam completado o perigoso trajeto de saída e sido hospitalizados em bom estado chegaram perto de 19h do horário local (09h de domingo do Brasil). Mas a missão dos mergulhadores da megaoperação de salvamento ainda está longe do fim, com outras nove pessoas presas até a manhã desta segunda-feira (horário local), quando deveria acontecer a próxima tentativa de resgate, após uma noite de fortes chuvas, aumentando severamente os riscos para quem está dentro da caverna ou tenta percorrer o longo trajeto de volta. Em toda a Tailândia, os especialistas envolvidos neste trabalho ganharam o status de verdadeiros heróis, sob aplausos generalizados e com notoriedade nacional pelo seus incansáveis esforços.

Segundo Narongsak Osottanakorn, governador da província de Chiang Rai e líder do centro de crise que coordena o resgate, os quatro resgatados, cujos nomes não foram oficialmente divulgados, tiveram que nadar um quilômetro do trajeto sob a água. O tempo do caminho de retorno estava previsto em 11 horas — seis para ir e cinco para voltar, graças à ajuda da corrente — , mas foi completado em cerca de nove horas, o que permitiu aos tailandeses respirarem aliviados e renovarem suas esperanças de ver voltarem todos os presos à vida fora da caverna. Em seguida, as operação foram suspensas, porque as equipes de socorro haviam usado todo o oxigênio, e deveriam ser retomadas dentro de dez e 20 horas, ou seja, entre a manhã e a tarde desta segunda-feira no horário local, madrugada e manhã no Brasil.

— Nossa operação foi mais bem-sucedida do que esperávamos. Todos estão perfeitamente bem — disse o governador, numa entrevista em que jornalistas aplaudiram o resultado da primeira parte do resgate. — Temos milhares de pessoas nos ajudando. Os tanques de ar precisam ser recolocados.

SAÍDA DEIXA OS MAIORES RISCOS PARA TRÁS

Ao GLOBO, Daniel Fernandes, instrutor de mergulho e dono da escola certificadora Diving College, em São Paulo, explicou que a alta qualidade dos equipamentos utilizados e o longo trabalho dos mergulhadores também foram fatores essenciais para facilitar o desafio vivido por estes quatro meninos. Na sua avaliação, seriam improváveis complicações após o mergulho para os menores e, por isso, o fato de eles terem completado o caminho de água escura e lamacenta, na qual a visibilidade é quase nula, já é um bom indicativo.

— Cada criança teve a ajuda de dois instrutores de mergulho em caverna para o trajeto de volta, e estes especialistas deveriam guiar a passagem por locais estreitos e monitorar todo o equipamento, o seu e o do resgatado. Para a criança, bastava respirar com máscaras da melhor qualidade, que cobrem a face inteira, de modo que puxar o ar não exige um esforço tão grande — explica Fernandes. — A maior questão poderia ser a ansiedade, por nunca terem mergulhado antes. Mas tudo indica que houve um trabalho de tranquilização e treinamento bem executado. Se alguma coisa desse realmente errado, dificilmente os resgatados sairiam vivos, então por enquanto temos sinais muito bons. O risco seria de hipotermia, por conta da água gelada, mas a adrenalina pode ser uma ajuda neste momento em que eles queriam sair logo dali.

Ao todo, 90 mergulhadores participam dos trabalhos, sendo 40 tailandeses e 50 de outros países, incluindo britânicos. Na operação deste domingo, 13 estrangeiros e cinco membros da equipe de elite da Marinha tailandesa guiaram os meninos em segurança através de passagens estreitas e alagadas que custaram a vida de um mergulhador dias atrás. Segundo o site do jornal tailandês “Bangkok Post”, um dos meninos resgatados é Mongkol Boonpiem, de 13 anos. Ele teria sido o primeiro a emergir do labirinto. De lá, ele e um colega não identificado teriam sido levados de helicóptero ao hospital Chiang Rai Prachanukrua.

MERGULHO SOB CHUVA AUMENTARIA PERIGO

Do lado de fora das cavernas, 13 grupos médicos totalmente equipados, com helicóptero e ambulância próprios, aguardavam de prontidão dia e noite no lado de fora da caverna em Tham Luang — uma para cada um dos 12 meninos e o treinador. Apesar dos avanços, o clima de incerteza nos arredores da caverna permanece, já que complicações em novas operações poderiam ser desastrosas, segundo especialistas. A grande preocupação era que o avanço das chuvas, previstas para chegarem com ainda mais força nos próximos dias por conta do período de monções, destruísse os esforços de drenagem, essenciais para o sucesso deste domingo.

— O momento de chuva torrencial pode ser muito perigoso, porque o mergulhador não sabe em que proporções e onde estão as inundações. Num sistema de cavernas, há mais de uma entrada e podem existir muitas frestas e caminhos inesperados para a água. Dependendo de como você movimenta a cabeça, a elevada pressão da água pode deslocar ou até arrancar a máscara, mesmo uma de maior firmeza, como a que está sendo usada na Tailândia — explica Fernandes. — É um trabalho contra o tempo, porque provavelmente o nível da água vai subir, embora talvez não tão de repente por conta do sistema de bombeamento sendo utilizado para retirar a água. Mas coisas inesperadas, como deslizamentos de terra, por exemplo, sempre podem acontecer sob estas circunstâncias.

As difíceis decisões, em que nenhuma solução é livre de grandes riscos, estão sobretudo nas mãos de Osottanakorn. O nome do governador da província de Chiang Rai, uma área isolada de 1,2 milhão de habitantes na fronteira com Mianmar e Laos, ganhou grande notoriedade entre todos os tailandeses, unidos desde o início da operação em preces pedindo que os meninos sejam levados de volta para casa. Oficialmente, ele havia sido transferido para uma província vizinha e menor nos últimos dias, mas os seus conhecimentos de engenharia e liderança fizeram com ele continuasse como chefe do centro de crise para este resgate. Agora, não apenas o seu rosto cativou a população, como já há pedidos nas redes sociais para que ele se torne primeiro-ministro do país, tamanha a comoção em volta do drama da caverna.

Jornal Midiamax