O ataque virtual contra a rede francesa TV5 confirma que os hackers estão atuando em um patamar muito audacioso

Os ciberjihadistas que reivindicaram o recente ataque contra a rede de televisão francesa TV5 Mondesão especialistas de alto nível, certamente organizados em redes e podem operar de qualquer parte do mundo, estimam os especialistas. Desde os atentados contra a revista Charlie Hebdo e um supermercado, no início de janeiro em Paris, os ciberataques se multiplicaram contra todo tipo de alvos, mas o lançado na quarta-feira à noite contra a rede internacional francófona TV5 Monde já se enquadra em outra categoria, muito mais sofisticada.

“Constitui, sem dúvida, mais um passo na escalada”, afirmou Gilbert Ramsey, pesquisador no centro para o estudo do terrorismo da universidade de Saint-Andrews, na Escócia. “Há anos, os ciberataques formam parte da mobilização islamita. Mas desta vez estamos em um nível mais alto”, explica. O diretor-geral da TV5 Monde, Yves Bigot, declarou nesta quinta-feira que o ataque cibernético contra a rede “era totalmente inédito na história da televisão”.

“As unidades de cibercombatentes de grupos como o Estado Islâmico (EI) atuam em redes”, explica Ramsey. “Estamos diante de gente bastante competente, que pode agir de qualquer lugar do mundo”. Além de tomar o controle dos sites da rede de televisão, os hackers conseguiram impedir o funcionamento dos onze canais da TV5 Monde, algo que ocorre pela primeira vez, segundo um investigador que pede o anonimato. “Os ataques ciberjihadistas são comuns, mas é a primeira vez que conseguem deter a difusão de programas” de televisão, diz.

Recrutamento mundial – A tradição de recorrer a combatentes cibernéticos dotados de boas capacidades técnicas já é antiga, destaca Daniel Martin, ex-comissário de segurança do Ministério do Interior francês e cofundador do Cybercrime Institute. “Mesmo na época do Grupo Islâmico armado [organização jihadista argelina, que organizou atentados na França nos anos 1990], enfrentávamos engenheiros informáticos de alto nível, capazes de montar operações sofisticadas”, afirmou. “Por isso não devemos nos surpreender que o Estado Islâmico, levando-se em conta seus meios, possa pagar os melhores especialistas”, afirma. “Alguns têm tendência às vezes a dizer que os jihadistas são terroristas primários, mas não é de nenhuma maneira o caso: eles têm meios e capacidade técnica consideráveis”, acrescenta o especialista.

Para Martin, é evidente que o ataque contra a TV5 Monde é uma operação de grande envergadura, sem dúvida preparada há tempos. “Não é algo ao alcance de um pequeno hacker de base. Não estamos no terreno dos amadores. Desta vez provocaram realmente dano”, afirma. “O recrutamento dos jihadistas é mundial, reúnem suas competências”, acrescenta. Assim “como o exército chinês formou batalhões de guerra eletrônica, os terroristas são capazes de fazer o mesmo. Se converteram em verdadeiros atores da guerra eletrônica”.

Nem mesmo é certo que um comando central no seio do EI tenha coordenado este tipo de ataque, opina Gilbert Ramsay. “Não tenho nenhuma prova a respeito. De fato, o que conta para o EI é o ritmo, o movimento”, diz. “Querem demonstrar que estão na ofensiva, no campo do ciberespaço. Desde as derrotas que sofreram em Tikrit [no Iraque], é importante sem dúvida para eles mostrar que podem travar o combate em outro lugar”. Na quarta-feira, horas antes do ciberataque contra a TV5, o EI divulgou um vídeo no qual cinco combatentes filmados em Raqqa, cidade onde se localiza a sede do grupo na Síria, felicitaram os “cavaleiros dos meios de comunicação” que travam a ciberjihad e pediram que eles intensificassem seus esforços.