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Reprise cancelada de 'Os Dez Mandamentos' seria rasteira da Record TV em Bolsonaro

Se sustentasse sua decisão, emissora jogaria investimento milionário de Bolsonaro no lixo

João Ramos Publicado em 01/06/2021, às 10h31

Motivo do cancelamento poderia ter a ver com Bolsonaro, mas Record não comenta
Motivo do cancelamento poderia ter a ver com Bolsonaro, mas Record não comenta - (Reprodução)

Em maio, deu a louca na Record TV. A emissora de Edir Macedo anunciou repentinamente, do dia para a noite, duas reprises de uma só vez para sua grade vespertina.

"Os Dez Mandamentos" era o grande destaque e ganhou até chamada, sendo anunciada para o dia 17 do mesmo mês, abrindo um novo horário de novelas no período da tarde. Entretanto, três dias após o anúncio, a Record TV voltou atrás e decidiu que a trama bíblica só voltaria em junho, após o fim de "Belaventura", e que "Prova de Amor" seria o folhetim a inaugurar a "nova" faixa.

Antes disso, "Prova de Amor" era a escolhida para substituir "Belaventura" este mês. Com a reviravolta, antecipação de uma e adiamento da outra, "Os Dez Mandamentos" deveria estrear nesta terça-feira (01), já que a novela medieval terminou na tarde de ontem (31), mas a Record TV desistiu da reprise, sem maiores esclarecimentos ou explicações, depois de ter, inclusive, veiculado uma chamada na televisão.

Bolsonaro seria o motivo?

Pouca gente se lembrou que, apesar de anunciada pela Record, "Os Dez Mandamentos" já está em exibição diária pelo canal do Governo TV Brasil. Nenhum veículo da imprensa associou a reprise da emissora com a compra recente de Bolsonaro pela trama.

Aliada ao Governo, a Record TV vendeu “Os Dez Mandamentos” para a TV Brasil por R$ 3,2 milhões, custo publicado no Diário Oficial da União para a aquisição do licenciamento da novela bíblica, que estreou no dia 5 de abril no canal também da TV aberta.

Fazendo enorme sucesso e impulsionando a audiência da emissora estatal, a trama deixou a Record com os olhos brilhando, e os resultados para a TV Brasil podem ter contribuído para a decisão de escalar a volta do folhetim.

Rasteira e investimento milionário jogado no lixo

Mas depois de vendê-lo por mais de 3 milhões de reais ao presidente, exibir uma reprise logo depois que Bolsonaro desembolsou uma quantia milionária para colocá-la em seu canal soaria como uma afronta, uma rasteira à maior autoridade do país e parceira da emissora.

Demorou menos de um mês para a Record anunciar que também exibiria "Os Dez Mandamentos". A novela começou em 5 de abril no canal do presidente e foi anunciada por sua emissora original em 3 de maio. Quase nenhum espaço de tempo entre as negociações.

Agência Brasil, portal oficial do Governo, vibra com resultados trazidos pela compra da novela (Reprodução)

Esse fato deve ter pesado na decisão da Record TV de cancelar e sequer comentar o cancelamento da reapresentação. Favoreceu ao canal o fato da imprensa ter se esquecido rapidamente da recente venda da obra para Bolsonaro.

A TV Brasil tem comemorado o desempenho de "Os Dez Mandamentos". Na semana passada, o folhetim levou a emissora ao quinto lugar no ranking das audiências. Se a Record tivesse sustentado sua reprise, prejudicaria e muito o canal dp Governo, já que a novela seria exibida em dois canais da TV aberta ao mesmo tempo. Não no mesmo horário, mas em períodos simultâneos.

Novela bíblica é destaque no site oficial do canal estatal e é exibida de segunda a sábado, às 20h30 e 0h45, com melhores momentos aos domingos 20h30

Com maior visibilidade, não sobraria chance para a TV Brasil se destacar e tirar algum proveito de sua aquisição nada barata. É possível que o cancelamento na Record TV venha justamente daí: do medo de ficar mal com Bolsonaro e jogar no lixo seu investimento milionário com a novela.

Jair Bolsonaro estaria por trás da decisão da Record? (Reprodução)

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