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Assalariadas, protagonistas de Salve-se Quem Puder têm rotina de trabalho incomum em novelas sem proposta realista

Representação da rotina trabalhista se sobressai e provoca identificação em meio a acontecimentos malucos

João Ramos Publicado em 09/05/2021, às 15h19

Apesar de não precisarem, trabalho é coisa séria para o trio principal da novela das sete
Apesar de não precisarem, trabalho é coisa séria para o trio principal da novela das sete - (TV Globo)

Volta e meia a teledramaturgia Global conta histórias de brasileiros trabalhadores, que batem ponto, que acordam cedo, pegam condução... Esses personagens costumam aparecer com maior ênfase em novelas das 7, e "Salve-se Quem Puder" se destaca na apresentação de protagonistas trabalhadoras.

Em 2012, o trio de empreguetes de "Cheias de Charme" trabalhava tanto quanto as aventureiras de "Salve-se Quem Puder". As 'Marias do Lar' íam à luta por obrigação, para manter o sustento, enquanto as assalariadas da atual novela das sete pegam no batente sem precisar, e inclusive são proibidas disso pelo programa de proteção à testemunha.

Empreguetes de "Cheias de Charme" e protagonistas de "Salve-se Quem Puder" tem muito em comum (TV Globo)

É aí que se encontra o diferencial, cada uma com seu objetivo, ambas batem ponto todos os dias e são boas funcionárias, com exceção de Alexia, que transforma a Labrador Digital num 'samba do crioulo doido' e já teve salário descontado pelo financeiro.

Apesar de maluca, a representação do servidor proletário provoca identificação em quem assiste e passa pela mesma rotina diariamente. Sempre tem alguém se identificando quando Luna pega a condução para ir atender Téo em sua fisioterapia, quando Kyra passa por percalços e recebe mandos e desmandos na casa de Alan, e quando Alexia tem a relação com Renatinha estremecida, toma café e faz fofoca na hora do expediente, e acaba com os vencimentos descontados por faltar serviço.

Essas representações podem parecer pequenas, simplórias e comuns, mas têm um peso gigante no valor para o telespectador, que ao se identificar em uma situação do folhetim, imediatamente é fisgado e passa a ter empatia e querer acompanhar a vida daquele personagem.

Nada novo sob a luz do sol

Não, não é nenhuma novidade. Mas poucas tramas mostram essa rotina trabalhista tão bem, e quando mostram, precisam ser destacadas. A última novela das sete antes de "Salve-se Quem Puder", por exemplo, tinha uma protagonista trabalhadora, que pegava metrô e tudo mais, mas na representação inconstante e liberal da rotina de Paloma (Grazi Massafera), "Bom Sucesso" fica aquém da atual novela da faixa.

Grazi Massafera como Paloma em "Bom Sucesso" (TV Globo)

De caráter realista, "Bom Sucesso" não conseguiu imprimir, ao menos na protagonista, a rotina fiel de uma cuidadora de idosos. A babá, a fisioterapeuta e a secretária de "Salve-se Quem Puder" são muito mais empenhadas e batem ponto todo dia, sem precisarem fazer isso.

Protegidas por um programa de proteção à testemunha, elas arriscam diariamente suas vidas, para ficar de olho no noivo de uma, cuidar do avô da outra, e descobrir segredos da mãe.

Surpreende que "Salve-se Quem Puder", bizarra, cômica, distante da realidade, tenha um compromisso tão fiel e bem estabelecido na representação trabalhista, mais, inclusive, do que novelas com propostas de realismo, como "A Vida da Gente", "Bom Sucesso", "Amor de Mãe", entre outras. Ali, no meio da maluquice das protagonistas, trabalho é coisa séria, e com certeza esse é um dos elementos que fizeram a primeira fase do folhetim ser um sucesso em 2020.

Juntas, elas se dedicam a seus trabalhos de forma proibida, mas empenhada (TV Globo)

Falta pouco

A reprise de "Salve-se Quem Puder" está terminando, esta é a última semana. A partir da próxima segunda-feira (17), os capítulos inéditos do folhetim gravados durante a pandemia vão invadir a telinha. Para a reta final, os telespectadores podem esperar ainda mais desventuras e aventuras do trio principal.

E até lá, a audiência vai continuar se identificando com as protagonistas, inclusive nas fugas de Alexia/Josimara do trabalho pesado.

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