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No Dia do Trabalhador, profissionais falam como lidam com o digital na pandemia

Há mais de um ano, profissionais estão precisando trabalhar pela Internet em Campo Grande

Nathália Rabelo Publicado em 01/05/2021, às 07h00

Alguns profissionais relatam benefícios, enquanto outros sentem inúmeras dificuldades
Alguns profissionais relatam benefícios, enquanto outros sentem inúmeras dificuldades - Foto: Arquivo Pessoal

Há mais de um ano, a pandemia do Covid-19 chegou para mudar o mundo. Todos os setores econômicos, sociais, políticos, culturais, etc, sofreram com adaptações intensas para continuarem funcionando, e dentro cenário estão os profissionais. Humanos que precisaram aprender na pele, de maneira bruta e repentina, uma nova forma de viver e trabalhar.

Neste Dia do Trabalhador (1º), nosso foco é mostrar a realidade de alguns profissionais de Campo Grande frente à tamanha transformação. Pessoas, muitas vezes, que necessitaram mudar toda a rotina para se manterem firmes no ofício. O Midiamax conversou com uma nutricionista, um advogado, um juiz e um professor que contaram as suas experiências no digital.

Fernanda Molina

Fernanda Sanchez Molina Tosi é nutricionista e tem 42 anos de idade e está disponibilizando atendimento remoto desde março de 2020. Dentre as mudanças que adotou na rotina, começou a utilizar chamadas de vídeo por aplicativo para atender os pacientes, além de entrevistas, solicitação de exames e parâmetros corporais para a avaliação.

Questionada sobre qual modelo prefere atuar, a nutricionista contou ao Midiamax que prefere o atendimento presencial, mas o remoto permite a ela oportunidades que não conseguia antes.

“O fantástico de ter a permissão para atender via remota, é atender pacientes de várias localidades tanto no Brasil quanto no mundo. Hoje em dia tenho pacientes residentes em São Paulo, João Pessoa, Brasília, Portugal, Miami, Londres e Alemanha. Várias culturas e diversos hábitos alimentares”, explica.

Ela também percebeu que a pandemia fez com que as pessoas se importassem mais com a saúde do corpo, alimentação e maneiras de viver, então sua demanda triplicou. E para manter a produtividade em casa, adotou horário para tudo.

“Atendo alguns dias somente presencial, e outros períodos reservados para online. Naquele horário inicio a vídeo chamada, e pra mim, flui como se estivesse no consultório”, comenta Fernanda.

Aluizio Pereira dos Santos

Aluizio Pereira dos Santos é Juiz da 2ª Vara do Tribunal do Júri de Campo Grande e também deu seu depoimento sobre a rotina de trabalho no digital. Desde março de 2020, ele precisou aderir a novos recursos para continuar trabalhando, como programas de chamada por vídeo e plataformas do sistema judicial.

Além disso, também teve que adaptar a própria residência, como quarto e iluminação. “Prefiro presencial, salvo impossibilidade de o acusado, testemunha ou advogado estar em outro Estado. Para mim, diminui a produtividade”, opina sobre o trabalho remoto.

Outro fator apontado pelo juiz é que a grande falta de acesso à Internet e dispositivos contribui para o atraso da Justiça, que muitas vezes precisa remarcar vários júris e audiências pela impossibilidade de outras partes, como réus e testemunhas de baixa renda que normalmente não têm acesso à Web, por exemplo.

Rogerio Spotti

Também do campo jurídico, entrevistamos Rogerio Spotti, advogado de 43 anos que atua em Campo Grande. Ele disse que também está de home office desde o início da pandemia e teve mudanças significativas na rotina, como preparação de ambiente virtual para peças processuais e audiências online.

“Tendo em vista a impossibilidade de atendimento presencial, as audiências em todos os Tribunais são por plataformas telepresenciais, onde as partes, advogado e juízes permanecem em seus respectivos locais de trabalho, respeitando o distanciamento social e o isolamento”, explicou Rogerio.

Para ele, o trabalho remoto é uma maneira de não gerar prejuízos a nenhuma parte, como também dá autonomia quanto ao tempo, possibilitando mais momentos ao lado da família. Além disso, o advogado também contou que sua demanda reduziu, mas que segue uma rotina adequada para manter a produtividade

“A disciplina é fator preponderante para o sucesso do trabalho remoto. A adoção de medidas para controle de jornada e descanso é de extrema importância para que a concentração e o foco sejam atingidos”, opinou.

Mauro Rocha Mathias

Mauro Rocha Mathias é professor. Ele atua em duas escolas da Rede Pública – ensinando português – e em duas da rede privada – com aulas de redação e literatura. Questionado sobre o que mudou na sua vida ao transferir as aulas presenciais para as remotas, Mauro foi didático: “tudo”.

Com a necessidade de adotar o novo sistema, no início foi uma bagunça porque ninguém estava preparado para a situação. Apesar de já existirem tecnologias para as salas de aulas, era raro algum professor que já possuía muita prática no dia a dia. O que era pra ser 15 dias, acabou se extendendo até os dias atuais.

“Foram mudanças radicais. Se antes a aula passava por um planejamento metódico, por uma abordagem numa sala de aula real, elas precisaram ser adaptadas para um universo remoto”, contou o professor, que viu sua demanda triplicar durante esse período.

Além de se adaptar a novos horários, dar aulas, fazer planejamento, corrigir atividades no digital, tentar manter os alunos engajados, ir atrás de cada um para manter produtividade e se adaptar a vários formatos online, Mauro também precisa preencher relatórios burocráticos que surgiram com o ensino à distância.

“Eu já cheguei a sentar na frente do computador às 7h da manhã e sair no outro dia às 2h da manhã, ou seja, passar o dia inteiro até varar a madrugada pra dar conta de responder tudo”, comentou.

Dentre as práticas que adotou para lidar com esse imprevisto, Mauro precisou reformar um quarto da sua casa para ter um espaço adequado ao ensino, como também adotou um novo chip no celular para separar as conversas pessoais das profissionais. Jogos, aplicativos, podcasts, vídeos, quizes e outras ferramentas digitais foram a saída que o profissional encontrou para manter o engajamento na aula, apesar de ser muito difícil mensurar o envolvimento da classe à distância.

“Tudo para oferecer o mínimo de qualidade para eles, mas dando o máximo do nosso comprometimento”, disse. Inclusive, se tem profissionais que estão trabalhando muito além do que deveriam, fora os médicos e enfermeiros que estão na linha de frente do Covid, são os professores.

Mauro está dando aulas online há mais de um ano em Campo Grande (Foto: Arquivo Pessoal)

Romantização da educação

Frente às inúmeras transformações que a educação precisou passar ao longo de um ano, o professor Mauro comenta sobre uma situação recorrente e prejudicial na vida dos educadores: a romantização da educação em tempos de pandemia e o quanto ela cria um cenário falso de como está o ensino brasileiro atual.

“Fora que a cobrança também foi muito grande da parte de alguns segmentos. Por exemplo, cobrar de nós, professores, uma característica que todos nos tornássemos Youtubers, que todos tivéssemos um cenário no fundo, que não tivesse barulho externo e que virássemos Youtuber pra ensinar essa garotada. Tem professor que domina excelentemente o conteúdo, mas de repente trava diante de uma câmera e a sociedade nos cobrava uma postura como se fôssemos Fernanda Montenegro em frente a uma câmera, atuando pra ensinar o filho”, opinou o professor.

Fora isso, ele ainda pontua inúmeras dificuldades existentes: ir atrás de alunos, buscar maneiras de tornar as aulas mais acessíveis para quem não tem Internet, tentar manter a produtividade de todos, corrigir tarefas, fazer devolutivas, preencher formulários, planejar aulas, horas extras intermináveis e a privação da vida pessoal em prol de um ensino de qualidade. Essa sim é a realidade de milhares de professores brasileiros. Uma rotina exaustiva, para se dizer o mínimo.

A verdade é que pandemia também deixou a diferencia social entre a rede pública e privada ainda mais escancarada. Não somente no ensino, mas também nas questões de acessibilidade e falta de oportunidade dessa classe, uma vez que alunos de escolas públicas têm mais dificuldade em ter dispositivos, notebooks, celulares e Internet. Isso impacta em toda uma cadeia de ensino.

“Eu espero que esses alunos, que são os frutos da pandemia, que estão sofrendo todo esse processo, que daqui uns 10 anos consigam estar formados, que nós tenhamos já a vacina, que nós possamos estar sem máscaras e que nós tenhamos uma educação e um valor significativo por cada professor que fez um esforço descomunal para estar presente”.

Jornal Midiamax