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MS tem a primeira 'Casa LGBTQIA+' e ela promete dar o que falar

Por meio da dança e do acolhimento, grupo Hands Up MS se apresenta como a primeira 'Casa' do Estado

Guilherme Cavalcante e João Ramos Publicado em 01/08/2021, às 08h11

Parte da House Hands Up em fevereiro de 2020
Parte da House Hands Up em fevereiro de 2020 - (Foto: Hands Up MS)

Ballrooms. A palavra de origem inglesa é presente na história dos LGBTQIA+ e se refere aos bailes de fim de semana que a comunidade organizava na periferia de Nova Iorque, desde os anos 60, com ápice na década de 1980. Naquela época, por trás das festas regadas a voguing - uma dança urbana cujos movimentos eram inspirados nas caras e bocas das modelos capa da Vogue - estavam as “houses”, irmandades que acolhiam quem era expulso de casa em razão de LGBTfobia.

Mais de 30 anos depois da popularização do movimento, a tradição dos ballrons e das houses se mantém. Descrita no clássico documentário “Paris is Burning”, essa parte da história de LGBTQIA+ está em séries de sucesso como Pose e no reality show de drag queens Rupaul’s Drag Race. Uma tradição que nunca acabou e que alcança novos cenários. Inclusive, Mato Grosso do Sul.

Mais que um grupo de dança, o Hands Up MS agora é também uma “house”, direcionada à memória performática LGBTQIA+, com aprofundamento em culturas importantes para a construção da identidade da comunidade. É na dança e no acolhimento que o Hands Up MS ganha nova forma. E promete chacoalhar a cena de Campo Grande.

"O Hands Up é a primeira house de vogue do Estado, então a gente tem esse papel político de fomentar isso aqui na região. É como se fosse uma casa, como se fossem famílias", explica Júlio Huschel, um dos representantes do movimento em Campo Grande, ao Jornal Midiamax.

Além de ser um estilo de dança marcado por poses, caras e bocas, o vogue é um movimento de reafirmação de identidade de gêneros e sexualidade. Originado nas comunidades LGBTQIA+, negra, latina e periférica dos Estados Unidos, ganhou mais popularidade ainda no finalzinho dos anos 80, com a música e com o videoclipe Vogue, da cantora Madonna.

De acordo com Júlio, o grupo em Campo Grande é formado por bailarinos, porque o vogue, até então, só era conhecido dentro desse aspecto da dança. Mas, um evento, em 2017, mudou os rumos das ações da comunidade na Capital. "Veio uma ‘mother’, a mãe de uma house, do Hands Up, lá do Distrito Federal, e fez um workshop de vogue, convidando a gente a se juntar. Meio que nos apadrinhou para criarmos o Hands Up MS", conta.

"E foi isso, a gente juntou pessoas que conheciam um pouco da estética do voguing de diferentes grupos de dança e formou o Hands Up MS. Há pouco mais de um ano, estamos construindo agora esse conhecimento mais profundo sobre a cultura ballroom, sobre qual a nossa função e nosso dever com esse nome e com esse peso", pontua.

O movimento é documentado e observado no campo da sociologia. O Instituto Pólis (Instituto de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais), inclusive, categoriza o movimento ballroom como uma forma de refúgio, um lugar seguro para a população LGBTQIA+. A cena surgiu na comunidade negra latino-americana LGBT da Nova York dos anos 60 e se espalhou pelo mundo como um movimento político, de ocupação de espaços e de celebração da diversidade de gênero, sexualidade e raça.

"Durante muito tempo, até por falta de conhecimento mesmo, a gente achou que se nomear uma house era só participar de uns projetos de dança que a gente já participa, mas não. House é muito mais que isso, house é acolhimento, é a gente acolher pessoas da comunidade LGBTQIA+ para nós e poder nos tornar uma família", explica Júlio.

Desde então, esse ano, por exemplo, através de editais públicos, o Hands Up realizou um megaevento de balls em Campo Grande. "Foi o primeiro grande evento, a gente até tinha algumas balls antes, só que eram um pouco menores em relação à divulgação e ao peso que elas tinham. Essas últimas que a gente fez no começo do ano foram incríveis e conseguimos, com elas, disseminar muito mais o voguing e a cultura ballrrom", relata.

Para Júlio, esse seria o caminho a ser traçado pelo grupo, se ‘infiltrando’ nos espaços públicos, governamentais, políticos, para que a cultura vogue alcance diferentes lugares. E para que, por exemplo, as pessoas da comunidade LGBTQIA+ periféricas sejam inseridas nesse resgate da cultura.

Muito além da dança

A autodescrição do grupo transcende simplesmente o fomento a um movimento artístico e se insere no campo dos movimentos sociais. Talvez a ideia seja fazer com que os integrantes se reconheçam como sujeitos de direito que, motivados pela cultura, enxerguem que têm lugar ao sol, assim como todos. E todas.

"A gente continua participando de competições de dança, de outros eventos na cidade, mas conseguimos entender que, como house, como grupo, como uma companhia que fomenta a cultura ballroom e vogue, temos um papel político muito maior que apenas participar de competições de dança", pontua.

Dicionário

O Instituto Pólis elaborou um dicionário para melhor compreensão dos termos desses movimentos sociais. Confira:

Ballroom

Um lugar de troca de afetos, conscientização, politização, acolhimento e acesso aos serviços de proteção ao HIV. Uma comunidade onde há arte, cultura, dança, criatividade e família.

Ball

Uma celebração de potências, onde xs participantes “caminham” nas categorias como sensualidade, dança (vogue), desfiles e melhores roupas.

House (casa)

Uma forma de grupo com organização semelhante a uma família. O movimento ballroom é dividido em “houses”.

Mothers (mães)

Líderes da house, responsáveis pelo acolhimento e organização.

Voguing

Dança de rua inspirada nas poses das modelos da revista Vogue.

Runway

Desfile temático em que xs participantes buscam “servir a realness” do tema, ou seja, interpretar um tema definido do jeito mais convincente possível.

Quer ficar por dentro? A Netflix tem no catálogo o documentário Paris Is Burning, uma das maiores etnografias desta parte do movimento LGBTQIA+. Você também confere na íntegra no YouTube:

Jornal Midiamax