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Ficou sem apps? A verdade por trás do monopólio das redes sociais na era sociodigital

Além de prejuízos diretos na vida dos usuários, como relações sociais e de trabalho, o monopólio das redes sociais coloca em risco a democracia do usuário

Nathália Rabelo Publicado em 05/10/2021, às 07h00

Facebook, Instagram e WhatsApp fazem parte do império de Mark Zuckerberg
Facebook, Instagram e WhatsApp fazem parte do império de Mark Zuckerberg - Foto: Reprodução

O quão independente das redes sociais você se considera? Pensa na seguinte situação: você acorda, prepara um café e a primeira coisa que faz para se informar sobre os últimos acontecimentos é abrir o Facebook ou Instagram. Minutos depois, é preciso checar alguns compromissos pessoais e falar com a família no WhatsApp. No mesmo app, está o seu grupo de trabalho, um grupo só seu com documentos importantes e também clientes precisando do seu retorno. Mais tarde, você acompanha o mundo pelas telas e aproveita para aceitar um convite de happy hour, tudo pelas redes sociais. Mas, afinal, o que acontece se elas caírem ao mesmo tempo?

Para muitas pessoas, um colapso social e trabalhista que se estende por horas a fio vivendo em uma completa angústia. Essa foi a realidade de milhares de brasileiros que precisaram se virar para manter a comunicação e o trabalho em dia sem a trindade da informação que hoje tange a sociedade: Facebook, Instagram e WhatsApp. Todos eles, integrantes do grupo do Facebook liderado por Mark Zuckerberg, completaram mais de seis horas sem funcionamento ontem, na segunda-feira (4).

Muito mais do que ficar sem mandar figurinhas para os amigos e se atualizar sobre as últimas fofocas da comunidade, existe outro universo por trás dessa “colaboração” das empresas de comunicação, em especial das redes sociais. Concentradas em um único gestor, esse monopólio não só implica em consequências diretas para o usuário que depende das redes para além do âmbito social, como também revela uma possibilidade antidemocrática de pensamentos, experiências e ideias.

É o que estuda Helena Martins, professora de Comunicação Social – Publicidade e Propaganda da UFC (Universidade Federal do Ceará). Autora do livro "Comunicações em tempos de crise - economia e política", ela avalia a queda das três principais redes sociais do momento. Portanto, é eminente o quanto as pessoas dependem dos seus funcionamentos para fazer coisas básicas do dia a dia.

“A queda mostra como essas redes se tornaram imprescindíveis para o desenvolvimento das mais diversas atividades sociais, como a atividade de trabalho. Por outro lado, é algo muito preocupante que algo tão importante seja concentrado tanto em mãos de empresas privadas e, além disso, de uma empresa privada apenas. Se nós tivéssemos com a cultura de utilizar outros mensageiros, não nos tornaríamos tão dependentes de apenas uma corporação, que é o Facebook”, refletiu a pesquisadora ao jornal Midiamax.

Foi possível perceber esse pensamento monopolizado ontem mesmo. Logo no início da queda, os usuários pensaram que a Internet não estava funcionando. No entanto, de todo esse universo digital existente, apenas três desses apps apresentavam falhas.

“Significa que a experiência da Internet, que deveria ser um espaço de pluralidades e diversidades, é uma experiência hoje muito restrita com a utilização dessas plataformas”, continua a professora.

Além disso, as pessoas acham que essas plataformas são apenas espaços utilizáveis, no entanto, a mediação que acontece dentro delas é realizada de forma ativa. Ela não é, de forma alguma, neutra.

“Então, é muito importante que a gente também busque outras plataformas com outras lógicas de funcionamento, que não sejam baseadas na coleta de dados, que não sejam baseadas na ideia de mercantilização, para que a gente possa ter uma sociedade menos dependente do funcionamento dessas plataformas”, afirma Helena.

Partindo desse ponto, a professora ainda reflete sobre a importância de criar mecanismos de discussão para abordar o funcionamento e efetividades das plataformas. Já que muitas pessoas usam para trabalhar, nada mais justo do que pensar em soluções de caráter público para atender essa demanda social, bem como fortalecer a infraestrutura digital com segurança e funcionamento adequado pensado no todo.

No entanto, não é sempre que isso acontece. Além do erro coletivo desses apps que culminam em diversos prejuízos — como apontamos na questão de trabalho — essa hiperconcentração de empresas também pode influenciar em algo que você nem imagina: na sua democracia.

Afeta a democracia?

Segundo Helena Martins, a concentração de empresas de comunicação coloca em risco a democracia, já que estamos falando de uma concentração de empresas, poderes, dinheiro, influências e espaços fundamentais para a vida pública da atualidade.

Por isso, autoridades, como Estados Unidos e União Europeia, e intelectuais estão cada vez mais adeptos aos movimentos para colocar limites na concentração de empresas desse segmento. Tema central para o século XXI, agora a missão dessas pessoas é impedir a lógica de aglomerados, que se mostram ruins para várias vertentes, inclusive para a prestação de serviço.

O mesmo vale para as fake news. Uma vez que o Facebook, WhatsApp e Instagram são as plataformas onde as desinformações são mais disseminadas, é importante dar um olhar mais atento sobre elas, uma vez que todas fazem parte do mesmo grupo operacional.

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Redes sociais estão interligadas dentro do mesmo grupo (Foto: Reprodução)

“Os grupos que fazem a operação de desinformação se utilizam dessa arquitetura das redes, dessa forma de colaborar entre elas, e se utilizam também dos dados que são capturados para uma empresa e outra. Os dados que o Facebook tem da nossa navegação nele são complementados até pelos metadados que eles têm a partir do momento que a gente usa o WhatsApp. Esses dados são vendidos, podem ser vazados, então toda essa lógica de concentração também, no mínimo, facilita o acesso a dados de uma forma agregada e esses dados são utilizados por essas políticas de desinformação”.

Por isso, uma boa saída seria, realmente, colocar barreiras legislativas para que esses monopólios fossem disseminados, oportunizando, assim, uma pluralidade de opções e experiências aos usuários.

Limite nas redes sociais – uma utopia?

Pensar numa realidade em que empresas, por si só, adotam estratégias de divisão de poderes em prol dos clientes pode ser visto como uma utopia para muitos.

Porém, uma vez que elas são reguladas pelo Estado, tem crescido debates sobre a regulação das mesmas. Há propostas de projetos de leis, pesquisas nas academias e discussões nos EUA, por exemplo, para impedir a concentração dessas empresas. No Brasil, ainda falta a implementação de políticas completas.

No entanto, vale lembrar que o poder de escolher qual rede social utilizar está, principalmente, na mão do usuário. Por isso, enquanto os monopólios das empresas de comunicação seguem ditando regras, é responsabilidade da própria população buscar meios de driblar essas quedas e problemas que tanto afetam a vida dentro e fora da web.

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Telegram fez sucesso na falta do WhatsApp (Foto: Reprodução)

Para fazer isso, é bem simples. Como Helena disse anteriormente, a Internet é uma infinidade de possibilidades, mas as pessoas acabam reduzindo ela a determinado grupo dominante.

“É possível. Mas não vai ser uma escolha das plataformas, vai ser uma escolha da sociedade”, disse. Então, o jeito é diversificar e conhecer outras empresas e aplicações para não se concentrar apenas em uma. Uma das alternativas que salvou muitas pessoas foi o Telegram, que não teve problemas de funcionamento.

Portanto, conhecer novos acessos, aplicativos e redes sociais é trabalhar na própria independência sociodigital para não ficar à mercê do que "os grandões" decidem.

Jornal Midiamax