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Empoderadas e militantes, mulheres negras são símbolos de resistência em Campo Grande

Para falar sobre o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, confira relatos de mulheres que têm muito para contar

Nathália Rabelo Publicado em 25/07/2021, às 07h00

Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha
Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha - Foto: Reprodução

O Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha é neste domingo, 25 de julho. A data vai muito além de uma simples homenagem no calendário, pois é um dia em que as mulheres negras, indígenas e de comunidades tradicionais refletem e fortalecem as organizações voltadas às mulheres negras em diversas lutas. Mais do que isso, é um momento que reforça o feminismo e a igualdade sociorracial para que esses assuntos não fiquem restritos somente ao 25 de julho, mas sim permeiem diariamente nas discussões da sociedade.

A data nasceu em 1992, durante um encontro de mulheres negras em Santo Domingos, na República Dominicana. Elas apresentaram discussões sobre os vários problemas que sofriam e foi a partir disso que a Rede de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-Caribenhas foi criada, lutando junto à ONU para o reconhecimento do dia 25 de julho como o Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha. A data também é uma homenagem à líder quilombola Tereza de Benguela, símbolo de resistência do povo preto no Brasil. Falaremos mais sobre ela mais tarde.

Vítimas de racismo, sexismo, opressão e tantas outras violências que ultrapassam a barreira física, a mulher negra é, ainda hoje, a principal vítima de feminicídio, das violências domésticas, obstétricas e mortalidade materna. Além disso, elas ocupam, em sua maioria, as periferias brasileiras. Vozes que foram caladas por gerações, mas que sempre gritaram por igualdade.

Agora, essa força está ainda maior e dias como hoje reforçam a vontade da mulher negra em ocupar espaços historicamente destinados aos homens brancos. Engajadas, empoderadas e militantes, o Jornal Midiamax trouxe mulheres negras de Campo Grande que são verdadeiras inspirações na luta contra a desigualdade de gênero e racial. Elas têm muito o que falar e nós estamos aqui para contar um pouco das suas histórias.

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Bartolina Ramalho Catanante (Foto: Reprodução/Instagram)

Bartolina Ramalho Catanante

Bartolina Ramalho Catanante tem 58 anos, é professora de mestrado na Universidade Estadual de MS (UEMS) e também presidenta do Grupo Tez, Organização Social de Militância contra a Discriminação Social e Combate ao Preconceito Racial e Racismo, onde atua como voluntária desde 2019.

Para ela, pensar no Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha é refletir sobre a mulher negra em uma perspectiva histórica em que já existe a imagem do povo latino-americano atrelado a ela.

“Quando a gente faz esse recorte da mulher negra, latina e caribenha, a gente faz o recorte sociopolítico e econômico dessa situação e automaticamente, a mulher negra tem esse reflexo dentro desse conjunto. Ou seja, uma coisa é ser mulher negra, outra é ser mulher negra, latina e afrocaribenha. Assim, a gente reconhece toda a carga de enfrentamento que essa mulher tem que fazer”, explica Bartolina.

Frente às inúmeras dificuldades e barreiras a que a mulher negra é submetida, em pleno século XXI, uma das principais é a obrigação constante de se provar para o mercado de trabalho. Isso porque, culturalmente, a sociedade destina as vagas de serviços braçais a esse público, mas dificilmente consegue enxergá-lo nas posições de poder. E, quando isso acontece, não basta essa mulher ser apenas boa. Tem que mostrar isso constantemente e exaustivamente sem esperar por reconhecimento ou prestígio.

“A gente tem que lutar para se manter no cargo, a gente tem que ser melhor sempre, ninguém te dá o direito de ser mais ou menos. Então, você tem que ser melhor que todas para se firmar como profissional, para provar que você está produzindo. Ou seja, essa intelectualidade colocada ali na minha condição de mulher negra e professora universitária, ela tem que ser mostrada e provada no dia a dia ”, explica Bartolina, que vivencia essa experiência.

Além da mulher negra ter que enfrentar a dificuldade de se manter no mercado de trabalho, existem aquelas que não conseguem ingressar nele, mesmo com um ótimo currículo. “Eu conheço professoras doutoras, amigas negras químicas, historiadoras e que têm uma capacitação bem grande. Então, eu conheço várias mulheres negras altamente capacitadas, mas desempregadas”.

E o que falar então da questão salarial? No Brasil, dados mostram que existe uma diferença discrepante entre o salário para homens e mulheres que ocupam o mesmo cargo, e isso não é novidade para ninguém. Já para as mulheres negras, o dígito na conta bancária no fim do mês é ainda menor.

“A mulher negra é a que menos ganha. Se existe diferença salarial entre homens e mulheres, então quando a gente vai colocar essa diferença para a mulher negra a diferença é maior. Ou seja, você tem que ser suficientemente muito competente e mesmo assim a condição da mulher negra de forma geral, ela tem um decréscimo do seu salário”, afirma a professora.

Grupo Tez

Nesse cenário de tamanha desigualdade, o Grupo Tez é um dos símbolos de luta e resistência em Mato Grosso do Sul. Com cantores, historiadores, cientistas sociais, professores, psicólogos, estudantes e diversos outros profissionais, eles trabalham para fortalecer a identidade negra, além de discutir questões raciais e lutar contra o preconceito para uma sociedade mais igualitária.

“Nós queremos políticas públicas que favoreçam a mulher negra, que favoreçam a adolescente negra”, acrescenta.

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Romilda Neto Pizani (Foto: Arquivo Pessoal)

Romilda Neto Pizani

Mulher, negra, educadora social, produtora cultural, militante e mãe. Essas poucas palavras definem parte da história de Romilda Neto Pizani, de 44 anos. Para ela, o dia de hoje é uma conquista porque mostra que as mulheres negras estão pautando as suas próprias demandas e compartilhando suas dificuldades. Acima de tudo, trata-se de um movimento feminista que coloca em pauta questões raciais que sempre foram deixadas de lado ao longo da história.

Não bastam números, noticiários ou pesquisas. Quando se trata da realidade negra no Brasil, a sociedade se priva em uma bolha de negacionismo, conforme apontado por Romilda.

“Então, a gente tem que ter a contrapartida disso, mostrando dados científicos para comprovar que a população negra é, sim, marginalizada e que a mulher negra é ainda mais marginalizada. E quando você se coloca para isso, você está indo de frente contra todo esse sistema racista que está colocado na sociedade”. É óbvio, mas mesmo assim precisa escrever: racismo não é mimimi.

Assim, a participante do Movimento Negro em Campo Grande acredita que a união de mulheres negras para reivindicar por seus direitos tem alcançado ótimas conquistas. “Agora a luta é de forma mais conjunta e isso tem surtido resultados muito bons, claro que temos que avançar muito dentro dessa questão do feminismo, mas o fato de termos hoje políticas públicas que olhem para a mulher é um avanço”, conta.

Mãe de duas meninas, uma de 19 anos e outra de 8, Romilda recorda que, desde o anúncio da gravidez, teve que desconstruir as ideias enraizadas sobre o que significa ser mãe de menina. Envolvida nos movimentos de igualdade e ativa na militância sul-mato-grossense, ela transferiu esses conhecimentos na criação das filhas.

“Se você sentar para conversar com as minhas filhas, eu acho lindo. Quando eu ouço elas dando opinião sobre alguns assuntos, eu me encho de orgulho, então, quanto militante eu penso que consegui levar isso um pouco para dentro de casa”, se orgulha.   

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Silvia do Carmo Assis Constantino (Foto: Arquivo Pessoal)

Silvia do Carmo Assis Constantino

Para a advogada e jornalista Silvia do Carmo Assis Constantino, 40 anos, “o dia 25 de julho significa que a luta ainda continua e que precisamos cada vez mais construir caminhos para o enfrentamento ao racismo estrutural e institucional enraizado no nosso país”.

Atuante nas redes sociais, ela é presidente da Comissão da Igualdade Racial da OAB/MS. Assim, Silvia explica que a mulher negra sofre uma tríade de discriminação:

1 – Raça porque é negra;

2 – Gênero porque é mulher;

3 – Classe porque vive na margem da vulnerabilidade social.

Diante desse cenário de pré-julgamento construído durante o período da escravatura e após a abolição, o contexto histórico trouxe uma simbologia muito pesada para a mulher negra, que era vista apenas como um objeto. Hoje, o desafio é desconstruir a imagem que o povo negro é incapaz, bem como mostrar a capacidade intelectual de estar em ambientes em que querem estar, e não naqueles que a sociedade impõe.

“Agora, é preciso que haja políticas públicas para que as oportunidades cheguem para todos em pé de igualdade. Importante que haja o envolvimento do poder executivo, legislativo e judiciário para essa mudança”, reforça Silvia.

Mas será que essa luta deve partir somente dos negros? Onde fica a responsabilidade dos brancos? E mais, por que os brancos não enxergam que têm esse dever também?

“É importante dizer que essa luta também é da branquitude que ocupa um lugar de privilégio, enquanto não reconhecermos que a estrutura é racista, não será possível reverter essa situação que é estrutural”, explica a advogada.

Na OAB/MS

Questionada como funciona o seu trabalho na OAB/MS, Silvia conta que tem como escopo a advocacia negra, mas o trabalho transcende as portas da instituição. Construindo novas histórias para a advocacia em Mato Grosso do Sul, a Comissão é também uma inspiração para jovens negros que sonham em ocupar espaços nos quais habitualmente não se veem representados.

“Ser advogada negra neste país significa romper barreiras, quebrar paradigmas, significa estar em lugares que historicamente nos foi tolhido o direito. Nesse sentido, a comissão da Igualdade Racial da OAB/MS surge com o propósito de discutir políticas públicas nas áreas da educação e segurança, haja vista tamanha disparidade nesses seguimentos quando se trata de questões raciais. Acompanhar, denunciar e cobrar a responsabilidade sobre os atos de discriminação racial nos órgãos do judiciário, representando mais uma força na luta contra o racismo na sociedade”, afirma.

Mulheres negras que fizeram história

Você já leu até aqui sobre mulheres negras que estão fazendo história em Mato Grosso do Sul, ditando os caminhos que elas mesmas escolheram seguir. Mas e aquelas que, no passado, resistiram às opressões para oportunizar essa chance hoje? Confira agora quem são Tereza de Benguela e Tia Eva. A primeira está relacionada à narrativa da mulher negra no Brasil, enquanto a segunda é de extrema importância para MS.

Sabe o que elas têm em comum? A cor da pele e, principalmente, como essa cor foi a impulsionadora de uma história pautada na luta em prol de mudanças.

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Tereza de Benguela (Foto: Reprodução)

Tereza de Benguela: você leu lá em cima que o Dia da Mulher Negra, Latina e Caribenha homenageia a Tereza de Benguela no Brasil, certo? Bom, ela foi uma líder quilombola que ajudou comunidades negras e indígenas na resistência à escravidão no século XVIII.

Após a morte do marido, José Piolho, Tereza assumiu o comando do Quilombo Quariterê e o liderou por décadas. Além disso, também ficou conhecida por sua visão vanguardista e estratégica. Tereza de Benguela é, assim como outras heroínas negras, um dos nomes esquecidos pela historiografia nacional.

Tia Eva: a comunidade negra Tia Eva é definida como uma comunidade urbana remanescente de quilombo desde 1905, em Campo Grande, e reconhecida pela Fundação Cultural Palmares. Tia Eva foi uma escrava antes de chegar a Mato Grosso, e trabalhou como lavadeira, parteira, cozinheira, curandeira e benzedeira.

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Tia Eva (Foto: Reprodução)

Procurada por inúmeras pessoas, tornou-se referência na comunidade. Devota de São Benedito, fez uma promessa ao padroeiro para que curasse uma ferida que havia há anos em sua perna, que após muito tempo e, conforme sua crença, milagrosamente, foi curada. Para pagar a dádiva ao santo, construiu, em 1912, a igreja em sua homenagem. Desde 1919, a Festa de São Benedito acontece anualmente. Atualmente, aproximadamente 200 famílias de descendentes vivem na comunidade e carregam o legado de uma das figuras mais emblemáticas que construíram a história do Estado.

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