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De MS, Ique se despede das charges e critica algoritmos: restringem e amordaçam o jornalismo

"Vício de transformar indignação em charge" chegou ao fim por preservação à saúde mental

João Ramos Publicado em 26/10/2021, às 09h59

Ique teceu críticas ao comportamento das pessoas na internet e afirmou que o jornalismo é ameaçado
Ique teceu críticas ao comportamento das pessoas na internet e afirmou que o jornalismo é ameaçado - (Fotos: Reprodução)

Desenhista, cartunista, chargista, jornalista, escultor e pintor campo-grandense, Vitor Henrique Woitschach, mais conhecido como Ique, é um artista sul-mato-grossense completo, radicado no Rio de Janeiro. Inclusive, é o autor da estátua de Manoel de Barros, no cruzamento da Avenida Afonso Pena com Rua Rui Barbosa, em Campo Grande.

Artista voraz e faminto por arte, Ique tem em suas veias o desejo de fazer sempre mais pela cultura, mas deu um triste passo em sua vasta e brilhante carreira na noite desta segunda-feira (25). Exausto da polarização política no país e descrente de mudanças, o escultor anunciou sua despedida do trabalho com as charges, que iniciou em Campo Grande, há mais de 40 anos.

"Esta charge [imagem abaixo], marca hoje minha despedida como chargista político. Mesmo não sendo uma atividade profissional regular, permaneci produzindo meu conteúdo. É que o vício de transformar minha indignação em charge, sempre foi mais forte. O fato é que as charges, ferramentas imprescindíveis no jornalismo na década de 80, que me deram dois Prêmios Esso de Jornalismo, não têm mais o mesmo impacto, nem mais espaço profissional nos meios de comunicação", pontuou o artista.

Bolha e mordaça

Ique teceu críticas ao comportamento das pessoas na internet e afirmou que o jornalismo é ameaçado. Sendo assim, não vê sentido em continuar fazendo críticas políticas em forma de desenhos. "Nas redes sociais, manipuladas pelo algoritmo que as restringem a uma bolha, amordaçando sua função jornalística primordial, as charges acabam validando um embate insólito, onde, inacreditavelmente, a vida deixou de ser prioridade, o humanismo desapareceu, o bom senso passou longe, e o negacionismo, que, alimentado por fake news, virou verdade absoluta e ideologia política", disse ele.

"Tal e qual na Alemanha n@zist4, muita gente supostamente esclarecida, culta e inteligente, embarcou numa realidade paralela de uma terra plana, infestada de comunistas maconheiros que comem criancinhas, e que tem que ser exterminados em nome de Deus acima de tudo. É muito absurdo junto, parece filme de ficção. E nessa insanidade, mais de 600 mil vidas foram ceifadas. Perdi muitos amigos para a Covid, mas perdi muito mais amigos ainda para o negacionismo e para a ignorância", destacou Ique.

Saúde mental

O objetivo agora é se cuidar, cuidar da família e se dedicar a outras áreas que, não necessariamente, envolvam política. "Então, exausto, decidi focar na minha sobrevivência mental e emocional priorizando a qualidade de vida, me dedicando integralmente à minha arte na pintura, no desenho, na escultura, nos roteiros, onde tenho ainda muito a realizar. Com amor acima de tudo, quero curtir meus netos, que vieram pra dar novo sentido a vida, junto com a família que me fortalece, e com os verdadeiros amigos", agradeceu.

"Gratidão aos que me acompanharam nos 44 anos de minha carreira como chargista político, da qual tanto me orgulho, e cujo ciclo, encerro aqui", finalizou o artista. A notícia foi recebida com inúmeras lamentações e comentários de gratidão à sua arte. A notável carreira do campo-grandense fará falta na crítica política, mas ele seguirá com suas demais habilidades artísticas, preservando sua saúde mental diante de um cenário absolutamente polarizado.

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