MidiaMAIS

“A Melhor Paçoca do Mundo” de seu João, in memorian, segue viva e faz sucesso até em Londres

Quem não conheceu o senhor João Virgínio, em vida, saiba o quão especial ele foi. O criador da “Melhor Paçoca do Mundo”, era um homem simples, cearense dos “bão”, muito sagaz, carismático e intuitivamente, um marqueteiro de primeira. Por conta da saúde debilitada, após passar por dois enfartos, seu “João Paçoca”, nos deixou em setembro […]

Leandro Marques Publicado em 05/01/2021, às 08h08 - Atualizado às 09h33

Seu João Paçoca (foto: Elis Regina Nogueira)
Seu João Paçoca (foto: Elis Regina Nogueira) - Seu João Paçoca (foto: Elis Regina Nogueira)

Quem não conheceu o senhor João Virgínio, em vida, saiba o quão especial ele foi. O criador da “Melhor Paçoca do Mundo”, era um homem simples, cearense dos “bão”, muito sagaz, carismático e intuitivamente, um marqueteiro de primeira. Por conta da saúde debilitada, após passar por dois enfartos, seu “João Paçoca”, nos deixou em setembro de 2020. Seu trabalho singelo, com apenas um carrinho de feira e uma placa escrita à mão: “Vendo a melhor paçoca do mundo”, entrou para nossa história popular como das figuras mais emblemáticas do Estado, que ainda será muito mais reconhecido, como nesta humilde “matéria/homenagem/inspiração”.

Como um contador de histórias, um pesquisador de narrativas, me sinto impactado com a forma que ele levava a vida. Conversando com seu filho Luis e seu neto Cristiano Virgínio, me deparei com uma história inspiradora que não poderei contar em poucas linhas, portanto segura firme aqui e leia até o fim, que os exemplos de Seu João Paçoca merecem sua atenção.

“A Melhor Paçoca do Mundo” de seu João, in memorian, segue viva e faz sucesso até em Londres
(foto: Elis Regina Nogueira)

A Receita e o Marketing

“Nem muito salgada, nem muito doce. No ponto”, garantia Seu João Paçoca, que preparava o amendoim, torrava, moía e batia tudo no liquidificador. Depois, acrescentava o melado e um pouco de sal. O padrão de qualidade era alto e ele não economizava nos ingredientes.  Percorrendo bares, restaurantes e órgãos públicos, com cerca de 300 paçocas por dia, logo ele conquistou uma clientela fiel, fãs da paçoca e das histórias que seu João contava.

A ideia de dizer que ele vendia a melhor paçoca do mundo foi uma jogada de marketing genial, que fazia todo mundo se instigar e comprar ao menos um doce para experimentar. No mini-doc da Fotógrafa e Produtora Elis Regina Nogueira, realizado em 2014, ele conta que: “O que manda no comércio é a propaganda, propaganda daquilo que você tá fazendo. Por isso coloquei ‘vendo a melhor paçoca do mundo’, e o pessoal ‘a paçoca dele é tão boa assim?!’ (com tom de curiosidade). É assim”.

Confira o Mini-Doc:

Por dia, mais de 60, 80, 100 paçocas eram vendidas, isso durante quase 3 décadas. O lado empreendedor sempre falou mais alto, ele era independente, nunca foi funcionário de ninguém. Como um grande exemplo na família, ele inspirou os filhos e o neto Cristiano (que hoje vive em Londres) a também trabalharem por seus sonhos. O relato do neto, está mais abaixo. Antes, vou contar como os filhos de seu João, o Luiz (com Z) e o Luis (com S), estão levando a tradição pra frente, seguindo à risca a receita da “melhor paçoca do mundo”.

Pai Herói

“Muitas saudades eu tenho do meu pai, ele amou a todos os filhos, muito. Sempre foi amigo, deu bons conselhos e fez questão de levar-nos à igreja. Ele nos ensinou e incentivou a ler a Bíblia. Nunca gostou de ser dependente de ninguém, sempre foi independente. Gostava muito de viajar e ajudar as pessoas. Meu pai ensinava um ou outro a fazer paçoca, dava serviço pra uma, duas pessoas que estavam precisando. Ele colocava as pessoas para vender as paçocas e às vezes dividia meio a meio, ele só pensava em ajudar”, lembra seu filho, Luis Virgínio.

As palavras de seu Luis, vem em tom de emoção e saudade. Muito espiritualizado, Deus está sempre em suas palavras e nas mensagens de Whatsapp que costumo receber quase que diariamente (fiz um amigo). O pai foi como um herói, como ele bem define, o ensinou a nobreza do trabalho e os valores que carrega até os dias de hoje.

“A Melhor Paçoca do Mundo” de seu João, in memorian, segue viva e faz sucesso até em Londres
Hoje são os filhos de Seu João Paçoca quem dão conta da produção dos doces (fotos: acervo pessoal)

“Eu já era rapaz quando meu pai começou a fazer as paçocas (lá por 1984, 85), fiz questão de aprender. Hoje em dia eu faço igualmente a dele. Saio pra vender na rua e isso tem me ajudado muito”, conta Seu Luis. Com a partida de Seu João, algumas pessoas acham que os doces pararam de ser feitos, mas quem achava isso enganou-se, pois Seu Luis ainda mantêm esta tradição ao lado do irmão, Seu Luiz (com Z).

“Sabem fazer a paçoca eu e meu irmão. As filhas, algumas delas tentaram fazer, mas pra ficar boa, igual à do meu pai, com a mesma receita, só eu e meu irmão. Minha prima lá em São Paulo, ficou dois anos ela e o Cris (sobrinho) fazendo. Eles aprenderam, se dedicaram, fizeram várias vezes”, revela.

Seu Luis “Paçoca” trabalha onde o pai costumava passar, onde já conhecem a paçoquinha e gostam. Ele também aceita encomenda, basta entrar em contato pelo telefone (067) 99247-8047.

O lado empreendedor e marqueteiro que merece reconhecimento

Uma das características de Seu João Paçoca era a independência, ele era “nômade”, já viajou longe nesse Brasilzão “véio de guerra”… Quem também pegou essa vertente foi seu neto, Cristiano Virgínio, 47, que vive em Londres, Inglaterra, e também sabe bem como fazer a receita.

“Meu relacionamento com meu avô foi muito bom. Até os 18 anos eu o via sempre, mas meu avô sempre foi diferente, ele era meio nômade, sempre ia em busca de novas oportunidades. O que me vem à memória, é que ele era um grande empreendedor, nunca trabalhou pra ninguém e se orgulhava de ser assim, de viajar, procurar novos caminhos, não era ‘escravo’ do sistema, de um salário. Isso fazia dele um homem livre”, lembra Cristiano.

“A Melhor Paçoca do Mundo” de seu João, in memorian, segue viva e faz sucesso até em Londres
Detalhe do preparo feito pelos tios e Cristiano com sua própria produção de paçocas, em Londres (fotos: acervo pessoal)


O lado empreendedor de seu João sempre chamou muita atenção do neto. Ele não passava apuro, simplesmente “tirava um coelho da cartola” e se virava.

“Lembro que ele engraxava porta, sempre tava vendendo um produto novo. Uma época ele chegou em casa com uma espuma, como se fosse um travesseiro e ele tinha um aparelho eletrônico dentro dele que esquentava, era voltado para terceira idade, para os que tinham dores nas costas, na coluna… então a pessoa se apoiava no travesseiro e ele esquentava e vibrava.  Era um produto barato e ele vendia por uma porcentagem de lucro muito alta, porque ele tinha uma narrativa incrível pra vender. Ele dizia ‘quanto vale a sua saúde?; ‘quanto vale você viver sem dores’. Eu gostava muito dos argumentos dele, a maneira que ele expunha os produtos que vendia. Sempre com muita alegria, desenvoltura, não tinha vergonha de ninguém”, lembra ele.

Longe de casa desde os 18 anos, Cristiano também voou cedo… Foi guia de turismo em Porto Seguro, morou por anos em São Paulo e, em uma de suas voltas à capital paulistana, na época da faculdade, ele passou por dificuldades, precisou de um trabalho e sabe o que ele fez?

“Em 1997, voltei pra São Paulo, não arrumava trabalho e meu avô chega em casa com essa nova: as paçocas, “A Melhor Paçoca do Mundo” (diverte-se). Aí ele me viu nessa situação e disse: ‘vou ensinar a vocês a fazer paçoca, ‘ceis’ vão ganhar dinheiro com isso!’. Aí ele foi ao marceneiro, fez o molde da forma (que cabiam 50 paçocas), fomos ao mercado, compramos amendoim, aí ele fez a paçoca. Todo mundo gostou (porque é gostosa mesmo!)”, garante.

A empreitada deu muito certo. Cristiano e sua mãe faziam 100 paçoquinhas por dia. Cada um saía com 50 paçocas e vendiam tudo! “As paçoquinhas me ajudaram muito, iniciei minha faculdade com elas, montei minha moto que estava desmontada e isso me ajudou a dar um impulso, a me colocar de novo no mercado”, diz o neto.

.
“The Best Paçoca Of The World” – A Paçoquinha chegou à terra da Rainha

Em 2003, Cristiano mudou-se para Portugal, trabalhou em restaurantes, mas sentia que lá não era seu lugar. Depois de 4 meses mudou-se pra Londres, na Inglaterra. A namorada o encontrou em Portugal e juntos, em 2006, partiram para uma nova empreitada. “Eu também sou empreendedor, há pouco tempo tive duas casas que alugava por temporadas para brasileiros. Por causa do Covid, perdi meu trabalho no turismo, mas já trabalhei na noite, fiz outras coisas e hoje trabalho com entrega de comida, tipo Uber Eats”, conta.

“A Melhor Paçoca do Mundo” de seu João, in memorian, segue viva e faz sucesso até em Londres
Cristiano com o ator Cuba Gooding Jr, o jogador de futebol David Luiz e com sua família na Inglaterra (fotos: acervo pessoal)

Sobre as paçocas, Cristiano já fez algumas vezes por lá e, segundo ele, foi um sucesso. Na ocasião desta entrevista, o neto de Seu João produziu uma forma de paçoquinhas usando a tradicional receita. “Foi a segunda vez que fiz. A primeira vez não deu muito certo, mas a segunda ficou muito gostosa, ficou padrão “Dão”, meu vô “Dão”. Fiquei feliz com o feedback das pessoas, minha filha também adorou, então deu a vontade de fazer pra vender e deixar em alguns pontos da cidade, pois não tenho tempo de sair vendendo. Se fizer um logotipo legal, uma embalagem, dá pra fazer negócio. Me empolgou e estou pensando seriamente em fazer uns potes, por um papel vegetal que ajuda a apresentar o produto melhor, afinal esta é realmente ‘A Melhor Paçoca do Mundo’!”, enaltece.

E você, já experimentou a melhor paçoca do mundo?

Jornal Midiamax