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Reinaldo Moraes faz o caminho inverso e transforma filme em livro

Escritor está em Campo Grande para o Arte da Palavra

Tatiana Marin Publicado em 24/04/2018, às 14h27 - Atualizado às 14h29

Reinaldo Moraes (Foto: Henrique Kawaminami)
Reinaldo Moraes (Foto: Henrique Kawaminami) - Reinaldo Moraes (Foto: Henrique Kawaminami)

Reinaldo Moraes é escritor, roteirista de cinema e TV e colunista da revista piauí e está em Campo Grande para o Arte da Palavra, promovido pelo Sesc. Na tarde desta segunda-feira (23) ele conversou com o MidiaMAIS e contou sobre o processo de adaptação de um roteiro de cinema para romance, entre outros assuntos.

É dele a foto emblemática do disco Todos os Olhos de Tom Zé, lançado em 1973. Com oito obras publicadas, diversos projetos em paralelo, ele diz que, em comparação com outros escritores, “demora demais para escrever”. Mas talvez seja apenas o tempo necessário!

É que Reinaldo parece ser do tipo perfeccionista e parcimonioso. Ele tem vários encontros com seus textos para, então, finalmente declará-los prontos. “Escrevo de uma forma impulsional. Às vezes escrevo bêbado. Normalmente, à noite, tomo umas ‘biritinhas’, que relaxa e abaixa o superego. E de manhã, com café forte, dou uma revisada. Mas não encerra o assunto, volto a mexer e volto a revisar”, detalha ele.

Trilogia

No momento está finalizando o primeiro volume da história de um escritor que passa por um bloqueio literário. O que não é seu caso. “É um fantasma que assombra todo escritor. Eu nunca tive isso, muito pelo contrário, sempre tenho muitas ideias”, afirma ao revelar que, quando a produção contava com mais de 1,2 milhão de caracteres percebeu que seria melhor compor uma trilogia.

“Estou trabalhando neste romance e tenho que começar o segundo volume. Mas eu demoro muito. E isso trabalhando todos os dias, fim de semana, férias”. Mas a demora, significa, segundo ele, “que (o livro) vai sair melhor”.

Este romance, ainda sem nome, mas que deve ser lançado ainda em 2018, percorre o caminho inverso do que estamos acostumados a ver: um livro que dá origem a um filme. Reinaldo contou que um diretor queria filmar seu livro Pornopopéia, lançado em 2009, mas o escritor já havia vendido os direitos para outro diretor.

Então ele pediu uma continuação, “um Pornopopéia 2”. O escritor descreve que “embora tenha muitos pontos em comum, ficou bem diferente. Achei legal, bacana”, opina. Entretanto transformar o roteiro em livro não é uma tarefa simples, pois, segundo ele, apesar de conter os diálogos dos personagens e descrever o ambiente e o que acontece, o roteiro contém informações técnicas.

Reinaldo Moraes
Reinaldo Moraes (Foto: Henrique Kawaminami)

“Achei que, uma vez que o roteiro já estava pronto, ia gastar uns 3 meses pra ‘desentortar’. Terminei o roteiro em maio de 2013. Parei outro romance que eu estava terminando. Nem sei se eu vou ter tempo útil, biológico, para terminar tudo. Eu precisaria de uma expectativa de vida de uns 120, 140 anos”, brinca ele, que está com 68 anos.

“Quando vou mexer num texto muito técnico, acabo tendo outras ideias. Estou ainda dentro da trama básica do roteiro, com os personagens e motivos. Mas está completamente diferente. É a mesma coisa, mas completamente diferente”, explica Reinaldo, que neste ponto faz uma confissão.

“É muito raro encontrar um escritor que veja a adaptação do seu romance e ache legal. Eu sempre acho uma porcaria, acho que traíram o livro, ‘não é nada disso’. Agora estou fazendo o caminho inverso, estou traindo o filme, é o livro que está traindo o roteiro.”

Revista piauí

“Escrevo esporadicamente para a piauí quando me oferecem algum tema, ou quando eu apareço com algum”, descreve, dando inveja a uma repórter, por ter tanta liberdade para escrever quando, quanto e o que quiser. Realmente o “sonho de consumo” de qualquer profissional que se dedique a escrever.

“Às vezes fico um ou dois anos sem escrever. Resolvi escrever sobre o Marquês de Sade. Eu escrevo do jeito que eu quero, quantas páginas eu quero. Dá a impressão que se eu quisesse, poderia escrever a revista inteira”, brinca. “É o único lugar do mundo, talvez, onde você tem essa liberdade”, completa.

A piauí (assim mesmo, com inicial minúscula) é uma publicação mensal, lançada em 2006. Sem linha editorial definida e colunas fixas, Reinaldo descreve que “eles gostam de maluquices”. A revista é disponível digitalmente apenas para assinantes e sua versão impressa é vendida em bancas.

Arte da Palavra

Reinaldo Moraes está em Campo Grande para participar do Circuito de Autores do projeto Arte da Palavra. O evento acontece nesta terça-feira (24), no Sesc Morada dos Baís com um bate-papo sobre o tema “O comportamento humano em sua dimensão do sagrado e do profano”.

Reinaldo vai participar da discussão, que será mediada por Theresa Hilcar, com o mato-grossense Ivens Scaff, que é poeta, autor teatral, escritor infanto-juvenil, professor, médico e ocupa a cadeira nº 7 da Academia Mato-grossense de Letras. A ação é gratuita, tem início às 19 horas, com classificação indicativa de 16 anos.

O circuito 2018 do Arte da Palavra começou em março e segue até novembro percorrendo os eixos: Autores, Oralidades e Criação literária.

O Arte da Palavra é um projeto que percorre todo o País com ações que atual em toda a cadeia da literatura, desde a formação e divulgação de novos escritores, a valorização das obras e escritores brasileiros e as novas formas de produção e fruição literária, possibilitadas pela emergência de discursos periféricos e a utilização de novas tecnologias.

O Sesc Morada dos Baís fica na Avenida Noroeste, 5140. Mais informações pelo telefone (67) 3311-4300. Acompanhe a programação no site sesc.ms e www.sesc.com.br/portal/site/ArtedaPalavra

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