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David Bowie, o ‘camaleão do rock’, completaria 70 anos hoje

Roqueiro morreu em janeiro do ano passado

Celso Bejarano Publicado em 08/01/2017, às 12h03

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Roqueiro morreu em janeiro do ano passado

O antenadíssimo crítico Newton Duarte, imortalizado como Big Boy, foi quem deu o alerta em sua coluna no GLOBO “Top Jovem”, em 23 de setembro de 1972, sobre um personagem que estava surgindo na cena do rock e cujo talento e criatividade marcariam por décadas a música pop. O título da nota (“Mosca e mais mosca”) dava o tom da bobeada da gravadora RCA em não lançar no Brasil o álbum de David Bowie (“The rise and fall of Ziggy Stradust and the spiders from Mars”) que, aos 25 anos, já em seu quinto LP, estava “abafando” na Europa.

“A RCA brasileira está dormindo de touca, tamanco e outros babados, por não lançar imediatamente aqui nas bocas o álbum do cantor David Bowie, a grande sensação da Europa no momento. No mesmo estilo de Alice Cooper, Bowie está abafando, principalmente, na Inglaterra, onde é a grande curtição da rapaziada”, criticava Big Boy em um texto recheado de gírias.

Corrigida a falha, os brasileiros passaram a usufruir, sempre com um gap que podia durar longos meses, dos lançamentos daquele que ficou conhecido como Camaleão, por seu estado de permanente mutação física e, principalmente, musical. A crítica especializada aguardava ansiosa os novos LPs do performer, sempre capaz de surpreendê-la, como afirmava Nelson Motta em reportagem de página inteira sobre o lançamento de “Station to station”, em 1976, “saudado como fenômeno musical por alguns dos críticos mais respeitados do rock internacional, ao mesmo tempo em que explodia nos primeiros lugares das listas de mais vendidos”.

Motta citava trechos de críticas que chamavam Bowie de “um verdadeiro homem da Renascença”, por sua versatilidade já demonstrada também nas telas de cinema, como em “The man who fell to earth” (1976), como afirmava Nicolas Roeg, que o dirigira no filme. Performances, discos e comportamentos eram aplaudidos pelo prestigiado jornal “Village Voice”, que o chamava de gênio sólido. O crítico brasileiro também se juntava às loas ao artista: “Bowie realiza com absoluta perfeição todas as diversas tarefas artísticas que sua inquietação criativa lhe propõe como compositor, poeta, diretor de televisão, de shows, músico (teclados, palhetas), produtor, diretor teatral e mímico”.

Comentava ainda a diferença gritante entre ele e o outro roqueiro com quem havia sido comparado no início da carreira. “À grossura de Alice Cooper, seu falso bissexualismo e inconseqüência, Bowie opôs uma beleza e uma finesse que adornam idéias contundentes e adoça a sua visão feroz da vida, a sua intimidade com o cruel e a violência dos pesadelos surrealistas (…)”, detalhava Motta.

Em 1983, nova surpresa: o artista de criações tão contundentes como o nono álbum “Young americans” (1975), proibido nos Estados Unidos pelas críticas à sociedade americana, e “Aladdin sane” (1973, em que refletia sua visão do pesadelo americano após sua primeira turnê pela América), resolveu convidar todos para dançar com “Let’s dance” (1983), para o qual alguns torceram o nariz. Mas no palco do Madson Square Garden, de onde surgia “sob um facho de luz branca (…)”, “vestindo um terno de linho amarelo claro da cor dos cabelos pintados de louríssimo, elegante como um corretor de imóveis”, mais uma vez fazia público e crítica curvarem ao seu talento, como informava a reportagem “Vamos dançar, a palavra de ordem do novo rei do rock, David Bowie”, da correspondente Sonia Nolasco-Ferreira.

Seu primeiro show no Brasil, em setembro de 1990, na Praça da Apoteose, surpreendentemente decepcionou os fãs. “Sound and vision” não cumpriu o que prometera, proporcionando pouco impacto visual, num espetáculo com “telões furrecas”, como classificou Tom Leão, e que reuniu no Sambódromo Caetano Veloso e o poeta Geraldinho Carneiro, entre outros. Só sete anos mais tarde ele brindaria os fãs brasileiros com uma performance à altura de sua genialidade. “A revanche carioca do camaleão do pop – Bowie incendeia platéia mesmo privilegiando seus últimos e menos conhecidos discos”, dizia o título da reportagem sobre o show no Metropolitan, na Barra da Tijuca, em novembro de 1997.

Em abril de 1993, abandonando a imagem andrógina dos primeiros tempos, ele se declararia um “heterossexual compulsivo” e que perdera a “fome pelo caos”, em entrevista sobre “Black tie, white noise”, ao lado da mulher Iman. Antonio Carlos Miguel observa em sua crítica que no novo álbum Bowie dera “a volta por cima” seis anos após o decepcionante “Never let me down” (1987), além dos dois discos com o grupo Tin Machine. “Outside” (1995) traria não mais um, mas sete personagens “para contar a história pós-apocalíptica de um mundo em que os homicídios foram levados à categoria de arte”, explicava o correspondente José Emílio Rondeau, para quem o disco surpreendia mais por seu conceito do que pelo conteúdo, em que “todas as faixas estão interligadas por uma idéia original única”, um recurso narrativo comum nos anos 70, mas meio abandonado então.

Num retorno às letras e melodias simples, em 1999 o inglês nascido em Londres, em 8 de janeiro de 1947, lançou o CD “Hours…”, o 23º da carreira, chamado de “Pequeno disco feito por um gigante do rock” pelo crítico Carlos Albuquerque, com a “maior parte das músicas composta especialmente para o videogame ‘Omikron: the nomad soul”’, protagonizado pelo roqueiro e Iman. (…) “Hours…” fica, assim, perdido no meio do duelo entre a tecnologia de ponta e o nostálgico olhar para o passado”.

Para quem achava que a hora do astro havia passado, “Heathen” (2002) reafirmava a trajetória mutante de Bowie nas 12 faixas em que baladas, rocks com fundo new age, incursões eletrônicas e arranjos de cordas traziam um “tom geral elegantemente sombrio ou melancólico”, comentava Toni Marques. Pessoalmente, conservava, aos 55 anos, “a jovialidade mesmo fora do palco”. Sua inspiração para o álbum viera do compositor Richard Strauss e dizia manter a mesma percepção da vida que tinha aos 20 anos, com uma série de temas como isolamento, abandono e falta de fé.

Em 2005, houve o lançamento de dois DVDs, “Love you till Tuesday” e “Reality”, “um documento histórico” que mostra Bowie “no início das experimentações, em 1969 e 1970, e a atual fase pós-tudo, de 2003”, afirmava Bernardo Araújo. Nos DVDs, há desde filme, peça filmada e outros momentos do jovem David Robert Jones até o espetáculo em Dublin, na Irlanda, da turnê “Reality”.

A crítica de “Blackstar”, seu 26º e derradeiro disco, lançado em 8 de janeiro de 2016, anunciava “uma impressionante guinada musical – mesmo para quem passou por tantas e significativas outras páginas fundamentais da enciclopédia do pop no século XX”. Pela primeira vez, o ídolo absteve-se de ter sua foto na capa, ilustrada por uma estrela negra, mesmo nome de uma das faixas. Na reportagem, intitulada “Ressurgido no crepúsculo”, Silvio Essinger comenta que o álbum é um “grande jogo de luzes e sombras”. “É Bowie em seu mais emotivo e inspirado, reinventando-se em seus dias crepusculares para dar ainda uma ou outra lição à juventude”.

Dois dias depois, surpreendendo mais uma vez, Bowie, que sobrevivera a seis infartos nos últimos anos, morria, cercado pelos familiares, após lutar por 18 meses contra um câncer de fígado.

Jornal Midiamax