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Casas da Cidade de Deus ganham cores pelas mãos de artista da comunidade

Jovem disse que cresceu desenhando 

Raiane Carneiro Publicado em 13/05/2017, às 14h00

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Jovem disse que cresceu desenhando 

Nas ruas de terra com pedras pelo caminho, dentro da comunidade que ainda se intitula ‘Cidade de Deus’, as casas entregues pela Prefeitura no ano anterior deveriam ser todas iguais. Mas não são. Muitas delas têm cara própria para não dizer vida própria graças as mãos de um talentoso jovem da comunidade. 

Jeter dos Santos Ferreira desenha e faz isso muito bem. Ele contou que a paixão por desenhos surgiu desde pequeno quando tentava copiar as coisas, mas foi aos 7 anos que ele se entregou a arte do desenho. “Eu lembro que tinha uma professora que era substituta da [professora] de português. Ela começou a conversar comigo e fez um desenho do Pernalonga de cabeça e aí eu olhei e fiquei doido! Aí que eu comecei a desenhar mesmo”, disse sorrindo o catador de materiais recicláveis, que também é artista. 

Ele conta que desde novo via tudo de um jeito diferente e que por isso ia desenhando o que via.  O jovem já trabalhou no lixão onde ficava a comunidade. Passou 3 anos por lá, mas nunca deixou a arte de lado.

“Quando eu conheci o Jeter, o barraco dele era todo desenhado. No maderite velho e bem mofado tinha umas rosas pintadas, ele dava um jeito de passar as tintas” contou Stefany Nascimento Cardoso, de 25 anos e esposa de Jeter.

Entusiasta do trabalho do marido, Stefany também contribui com divulgação do trabalho nas redes sociais. “Ele é muito impulsivo. Ele faz um desenho daí vê outro mais bonito e faz outro” contou orgulhosa. 

A casa do casal, que vive com as duas filhas ainda crinças, já é um encanto à primeira vista. Logo na entrada, uma bela paisagem tropical de tons quentes, remete quem olha a uma praia. No interior da residência, há enfeites e desenhos de araras e um beija-flor.

Como a comunidade também é sua tela, o muro de uma creche ainda em construção serviu de inspiração para dois desenhos retratando as margens de rios, que ele contou nunca ter visitado na vida real.

Jeter revela que os desenhos eram algo pessoal, mas há uns 3 anos ele passou a ‘emprestar’ sua arte para embelezar casas e muros dos ‘outros’, também para contribuir com a renda da família. 

Por conta da crise, ele disse que cobra barato sua arte e é o cliente quem fornece as tintas. “Às vezes trabalho duas vezes, às vezes uma vez, às vezes nenhuma vez na semana, sabe? Então, quando eu não trabalho nenhum desses dias aí eu tenho que reciclar”, relatou. 

Apesar de revelar que prefere retratar paisagens e animais, na comunidade os vizinhos mostram orgulhosos outros desenhos, como um Chaves, personagem que marcou infância de muita gente, e super-heróis de histórias em quadrinhos. 

Jeter encerrou a conversar com a revelação de que sua inspiração ‘vem de Deus’, e do desejo de um dia poder viver de sua arte. 

Jornal Midiamax