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Violência obstétrica: as dores que vão além das sentidas no parto

Defensora relata que vítimas acabam internalizando a dor

Daiane Libero Publicado em 12/03/2016, às 19h10

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Defensora relata que vítimas acabam internalizando a dor

"Agora você está chorando de dor, mas na hora de fazer revirou os olhinhos”. A frase foi ouvida através de um relato dado à defensora pública Patricia Cozzolino, e foi dita por uma enfermeira, em tom de grosseria gratuita, para uma mulher em pleno parto, sofrendo as dores e a fragilidade do momento. O absurdo da situação tem nome: violência obstétrica. Diariamente, várias mulheres são vítimas de violência obstétrica dentro de hospitais e unidades de saúde em todos país. Quando falamos em parcela não calculada, nos referimos ao fato de que, como acontece com várias outras violências envolvendo a mulher, essa é mais uma silenciosa, por não haver denúncias por parte da vítima.

Esta é mais uma das reportagens especiais em alusão ao dia 8 de Março, que buscam problematizar aos leitores as violências cotidianas enfrentadas pelas mulheres. No caso da violência obstétrica, a OMS (Organização Mundial de Saúde) define a expressão como o "conjunto de atos desrespeitosos, abusos, maus-tratos e negligência contra a mulher e o bebê, antes durante e depois do parto". Porém o maior desafio encontrado hoje por quem luta para acabar com essa violência é saber quantas mulheres já passaram por isso.

“O problema é que continuamos sem ter mapeamento disso, porque as mulheres não denunciam. Eu não tenho os números, o que nós temos são relatos por meio das pessoas que militam nessa área que volta e meia entram em contato com as mulheres que sofreram violência”, explica Patrícia, que também é diretora ESDP (Escola Superior da Defensoria Pública).

A defensora ressalta ainda que profissionais despreparados deixam de lado o fato da mulher estar em uma situação delicada. “A parturiente está em uma situação de fragilidade, de sensibilidade. Falta muito também sensibilização das equipes que trabalham nessa área”, salienta Patricia. 

“Antes de ontem mesmo conversando com uma senhora que fez um curso aqui na Escola da Defensoria. Ela estava falando que até as enfermeiras acabam tratando com grosseria e ofendendo, falando coisas jocosas”, acrescenta. 

Falta de informação

Muitos são os motivos que fazem com que a mulher se cale e não denuncie o ato de violência sofrida e a falta de informação é uma delas. Patricia relata que principalmente no caso das mulheres mais velhas, muita só tomam conhecimento de que foram vítimas durante o parto, quando são relatados quais são os tipos de violência. Porém, muitas delas não conseguem relatar o que passaram sem sofrer novamente. 

”Tem uma situação a respeito do ciclo da violência. Essas mulheres acumulam vulnerabilidade. Então são mulheres pobres, que muitas vezes não têm um companheiro e que estão acostumadas, infelizmente, com outras formas de violência. Além do que é muito difícil entrar em contato com trauma. Então muitas delas não querem ficar revivendo, é como a pessoa que foi vítima de estupro. Cada vez que ela relata, chora, entra em sofrimento. Ela não quer reviver o trauma”, destaca a defensora. 

Dados da Secretaria da Mulher de Belo Horizonte de 2014 revelam violência verbal contra as gestantes brasileiras / Foto: Reprodução

Um trabalho integrado entre a Escola Superior da Defensoria Pública e o Nudem (Núcleo de Defesa da Mulher) tem buscado combater  esse tipo de violência por meio da informação. Patricia explica que são realizados nos municípios de todo o Estado eventos chamados de "Diálogos Interdisciplinares", onde a Escola da Defensoria Pública leva um médico obstetra, um defensor da área para falar dos aspectos e uma enfermeira. Segundo a defensora, este trabalho já vem colhendo bons frutos. 

“O que aconteceu de modificação após essa política institucional da Defensoria Pública, sobre o parto humanizado, é que os municípios nos quais nós realizamos cursos de educação em direitos, voltados para o parto humanizado ou audiência pública, se organizaram e se estruturaram, e construíram salas de parto humanizado”, destaca.

A defensora explica que é importante que a mulher denuncie os atos de violência, mas por muitas vezes desconhecerem o trabalho da Defensoria, acabam não utilizando. “O papel da Defensoria Pública não só judicializar ações e processos no fórum, mas também interferir por meio da educação em direito, e muitas vezes fazer o acompanhamento dessa mulher administrativamente, porque assim ela recebe o tratamento adequado”, conclui.

Para mais informações sobre a violência obstétrica ou possíveis denúncias sobre esta e outras violências contra a mulher, o Nudem (Núcleo de Defesa da Mulher) está localizado na Rua Joel Dibo, 238, Centro (Próximo ao Sesc Horto). 

Jornal Midiamax