História de amor que o câncer de mama não interrompeu
“Ela vai fazer 32 anos no dia 24 de outubro”, diz Daran Jr. sobre a namorada. Neste tempo verbal: presente do indicativo. Porém, Carol Mazochin faleceu no dia 9 de outubro, no Hospital do Câncer Alfredo Abrão, por causa de um implacável câncer de mama. Ainda quando era apenas uma suspeita, durante o tratamento e após a cirurgia, Daran sempre esteve ao lado dela. E agora, depois de vários dias de sua partida, ele ‘permanece’ com a namorada.
Casos de mulheres diagnosticadas com câncer de mama e abandonadas pelos maridos são mais comuns do que imaginamos. Uma pesquisa realizada pelo Hospital de Câncer de Barretos (SP) e pelo centro oncológico americano MD Anderson Cancer Center aponta que 40% das mulheres que estão passando por tratamento contra câncer sofrem rejeição sexual ou são abandonadas pelos companheiros.
Por si só, saber que há um amontoado de células que se replicam descontroladamente em seu corpo e que podem te levar à morte já é aterrorizante. O tratamento e a cirurgia – muitas vezes mutiladora -, deixa qualquer mulher em depressão. Junte tudo isso com o abandono daquele que deveria ser o companheiro. Desnecessário tentar ilustrar a dor que essas mulheres passam.
Felizmente não foi o que aconteceu com Carol. Daran, que também é músico, trabalhava em uma imobiliária e decidiu deixar o emprego para ficar com ela. “Comecei a tocar para ter uma renda e ter a possibilidade ajudá-la e acompanhá-la em consultas e sessões de quimioterapia. Ela não queria que eu parasse de trabalhar, mas eu preferi assim”, relembra ele.
“Sempre a acompanhava no hospital. Muitas vezes mulheres ficavam observando e perguntavam se eu era o marido dela. Eu dizia ‘sou namorado dela’ e elas ficavam surpresas e contavam que haviam sido abandonadas pelos maridos. Foram vários casos, muitos mesmo!”
Resistência em se cuidar
Logo que Daran conheceu Carol, em abril de 2015, ele percebeu que ela tinha nódulos no seio. Tanto ele, quanto a mãe de Carol, Rosemari Mazochin Fai, parentes e amigas, insistiam para que ela fizesse exames. Em março ela havia passado por consulta médica e feito ultrassom que apontou a existência de tumores, porém o laudo não foi conclusivo.
Daran conta que ela sempre foi muito vaidosa e “estava sempre linda, arrumada” e foi isso que a fez postergar o diagnóstico. “Ela tinha medo de perder o cabelo, perder o seio e foi deixando. Além disso, ela tinha uma vida agitada e não cuidava de si”, diz ele. E somente em setembro de 2015, quando a dor e o inchaço passaram a incomodar muito, é que ela fez os exames. Os resultados chegaram em outubro do mesmo ano.
Quimioterapias e cirurgia
O que aconteceu nos próximos 12 meses foram maratonas de exames, consultas, ciclos de quimioterapia e a perda do cabelo. “As primeiras sessões de quimioterapia ela aguentou bem”, relata Daran. A mãe, que mora em Cuiabá, tirou licença do trabalho e veio para ajudar. “Mas como ela estava bem e o Daran estava sempre junto, eu voltei e decidi vir novamente quando ela fosse fazer a cirurgia”, diz Rosemari.
Nas últimas sessões de quimioterapia Carol não conseguiu manter o mesmo pique e ficou debilitada. No final de agosto, Rosemari voltou a Campo Grande e a cirurgia foi realizada no dia 14 de setembro de 2016.
“Mesmo tendo passado pelo tratamento, foram retirados quase 2 kg de câncer e depois da cirurgia ela reclamava de muita dor abdominal. Por solicitação dos médicos ela fez ultrassom e tomografia. No dia que saiu o resultado é que caiu a ficha e pela primeira vez eu pensei que poderia perder a Carol. Saí do hospital, sentei e chorei”. O diagnóstico apontado pelos exames foi metástase. Fígado, ossos e cérebro estavam comprometidos.
Os dias que se seguiram foram de idas e vindas ao hospital, pois Carol não queria ficar internada. Daran sempre insistia para que ela voltasse, porque não podia ficar sem medicação para o fígado. A única alternativa de Carol era passar por mais sessões de quimioterapia. No sábado, 8 de setembro, ela deu entrada no Hospital do Câncer pela última vez, com muita dor, sangrando muito. Todos os cuidados foram tomados, medicações para dor foram aplicadas.
“Desde que ela internou no sábado, ela ficou dopada. Só dormia. Não conseguia comer. Nas poucas vezes que abria os olhos não conseguia falar e não se mexia. Eu e dona Rose sempre estávamos com ela, nos revezando.”
‘Amor, estou aqui’
“No domingo a noite eu estava muito angustiado. Falei no ouvido da Carol que iria tomar um ar. Saí do quarto e fiquei uns 3 minutos fora do hospital. Quando voltei, cheguei perto e falei novamente no ouvido dela ‘amor, estou aqui, já voltei’. Naquele momento ela abriu os olhos e parecia que queria falar. Eu me animei porque achei que ela estava reagindo. Ela levantou a mão e encostou o dedo no meu braço e então fechou os olhos. Eu continuei falando com ela, segurei seu rosto e falei ‘amor, estou aqui, pode falar, fala comigo’. Mas ela não respondia.”
Neste momento Daran deixou que Carol se fosse. “Eu disse que ela podia ir, que se Deus a tivesse chamado, ela podia ir. Agradeci por tudo que ela havia feito por mim. Os melhores momentos da minha vida, eu passei com ela. As pessoas dizem que eu fui um anjo na vida da Carol. Eu digo que não, ela foi um anjo na minha vida, ela que me ensinou muita coisa, abriu a minha mente para várias coisas. Então eu chamei a enfermagem e avisei que a Carol tinha ‘parado’.”
Daran foi companheiro até o final. Durante o tratamento ele se mudou para a residência de Carol e ainda não conseguiu voltar para sua própria casa. “Eu vou pra casa e fico esperando ela me ligar pedindo alguma coisa”, diz ele. Para Daran “da Carol, fica tudo! A vida continua, tem que continuar, mas a saudade é grande”.
A mãe diz em meio às lágrimas que somente o tempo vai aplacar a dor. “Tudo aqui faz lembrar dela”. A lição que o câncer de mama deixou é dita em coro por Daran e por Rosemari: “a prevenção é ainda o melhor remédio”.
Outubro Rosa
No mês de outubro os jornalistas do Jornal Midiamax estão fazendo uma série de reportagens com o intuito de ajudar na campanha de conscientização da prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama. Confira outras reportagens sobre o tema:
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