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Prevenção esbarra no estigma social e o suicídio segue como epidemia silenciosa em MS

Mato Grosso do Sul aparece em quarto lugar no ranking de mortes por suicídios no Brasil 

Mikaele Teodoro Publicado em 07/07/2015, às 09h17

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Mato Grosso do Sul aparece em quarto lugar no ranking de mortes por suicídios no Brasil 

 “Isso tudo é frescura! Falta de surra e covardia.” É comum que relatos de pessoas que atentam contra a própria vida venham acompanhados de frases como esta. Preconceituosas, elas contribuem para isolar e condenar ao próprio sofrimento quem precisa de ajuda. Refutado moral, social e religiosamente, o suicídio é tratado como tabu, quando deveria ser prevenido e discutido como um problema de saúde pública.

O suicídio é uma epidemia silenciosa e preocupante.  O estigma social associado ao impasse mental e emocional impede pessoas de buscar ajuda. Todos os anos milhares de brasileiros se matam. Enquanto você lê este texto é bem provável que alguém, muito possivelmente aqui em Mato Grosso do Sul, esteja se matando.

 De acordo com a Organização Mundial da Saúde, 800 mil pessoas cometem suícidio por ano em todo o mundo. Uma pessoa a cada 40 segundos. Essa é a segunda maior causa de morte em pessoas entre 15 e 29 anos. 

A cada dia, 26 pessoas se matam no Brasil. Em dados gerais, 11.821 suicídios foram registrados entre 2010 e 2012 no país. 

Os dados assustam ainda mais, se for levada em consideração outra informação da OMS: estima-se que para cada caso de suicídio registrado, cinco não foram relatados. E para cada tentativa, outras dez ocorreram.

Diante desse trágico cenário, Mato Grosso do Sul é destaque. Há anos figuramos no topo da lista de Estados com o maior índice de suicídios do Brasil. Hoje, aparece em quarto lugar no ranking de mortes por suicídios, conforme dados do “Mapa da Violência”, divulgado em 2014.

Se a situação é tão grave e tantas pessoas morrem diariamente, por que não discutimos o problema? Para o capelão do Hospital Universitário, teólogo Edilson Reis, que há 15 anos atua na prevenção de suicídios e há 9 organiza o seminário de prevenção, dois grandes motivos respondem a minha pergunta.

“Não temos a cultura da prevenção. A sociedade tem dificuldade de lidar com a morte e principalmente com o suicídio. E a perpetuação de algumas ideias contribui para isso. O primeiro é a postura condenatória das igrejas e o segundo é o mito de que a divulgação midiática estimula outros suicídios”, diz.

Ainda de acordo com Edilson, negligenciar os indícios de um possível suicida é um dos fatores que contribuem para os autos índices. O mesmo é defendido pelo psiquiatra dr. Paulo André Borges. Para ele é preciso estar atento aos sinais e recorrer à avaliação médica sempre.

Mesmo atuando há anos na área, Paulo confessa que muitas vezes é difícil diagnosticar um potencial suicida. “É muito difícil. Fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociais, culturais e até ambientais estão envolvidos. Até nós, profissionais, temos dificuldades em afirmar quem realmente pretende se matar ou não. Por isso, perceber os indícios e passar por avaliação médica é indispensável”, diz o psiquiatra.

Estrutura de enfrentamento

O Brasil é um dos poucos países em que há uma estratégia nacional de prevenção de suicídios. O documento intitulado “Estratégia de Diretrizes Nacionais de Prevenção do Suicídio”, inclui 2.128 CAPs (Centros de Atenção Psicossocial) espalhados por todo o país. Em Campo Grande são seis centros. Destes, apenas três oferecem atendimento 24 horas.

De acordo com a coordenadora de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde Pública, Ana Carolina Guimarães, não é necessário encaminhamento de outras unidades de saúde e qualquer pessoa pode ser atendida nos CAPs. “Temos uma equipe multiprofissional. Não é só a consulta médica, temos um acompanhamento multiprofissional. E um quantitativo acima de três médicos”, disse.

Para Edilson o que a rede pública oferece é insuficiente. “Temos quase um milhão de habitantes. Essa quantidade de centros é suficiente? Quantos deles oferecem atendimento de psicólogos e psiquiatras infantis? É pouco”, questiona. 

Outra queixa de Edilson é quanto ao que poderia ser oferecido. “Temos quatro faculdades que oferecem ensino de psicologia clínica. Nenhuma delas oferece algum tipo de projeto ou serviço de atendimento nesse sentido”, critica.

Projetos de prevenção e apoio 

Faltam psiquiatras e psicólogos para atender na rede pública de MS. Tendo em vista que o maior índice está entre adolescentes de 15 a 25 anos, o HU em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul desenvolve alguns projetos de prevenção em escolas.

Um deles é o Projeto Labirinto que discute com crianças e adolescentes as causas e forma de prevenção do suicídio. Qualquer escola ou empresa pode agendar uma visita do grupo de instrutores.

Além disso, o grupo de pesquisa em Bioética do HU vai oferecer, a partir de 28 julho, o Primeiro Curso de Prevenção do Suicídio do Brasil. Serão 50 vagas para interessados em participar das 200 horas do curso que é gratuito.

Apoio também pode ser encontrado com o Grupo Amor e Vida.Há doze anos eles realizam trabalho de profunda escuta e relação de ajuda à sociedade Brasileira com trabalho humanitário da busca do equilíbrio emocional e prevenção da autodestruição. Interessados podem ligar no número 141.

Apesar de condenado pela maioria das religiões, muitas delas oferecem centros de apoio e prevenção do suicídio. Um delas é a doutrina espírita que realizou nos dias 28 e 29 de julho o Encontro Fraterno Auta de Souza que debateu o suicídio. Foram mais de 320 inscritos de várias partes do Estado. Todos interessados em adquirir conhecimento e experiência sobre a melhor maneira de lidar com a autodestruição. 

“As pessoas desconhecem o suicídio. Tratá-lo como um tabu é agravar essa situação. Por isso decidimos debater esse assunto durante o encontro. Para que todos possamos agir como identificadores desse indícios de possível suicida”, diz Marlos da Silva Pereira, coordenador de estudos do encontro.

Quando toda rede de prevenção é ineficiente e a morte não pode ser evitada o problema não acaba – como deseja a maioria dos que cometem o ato. Pelo contrário, inicia-se uma série de transtornos e dificuldade de aceitação pela família da vítima.

Luciene Ferreira é coordenadora do Gaepe (Grupo de Apoio Espiritual às Pessoas Enlutadas). Por lá, ela explica, o atendimento é feito no sentido de acolher e ouvir as famílias. “Uma dor compartilhada dói menos. É por isso que nós oferecemos o apoio e a troca de experiências com outras pessoas. Até para evitar que familiares façam o mesmo.”, diz ao explicar que muitas mães se matam ao ver filhos e maridos se suicidarem. “É uma coisa muito triste que precisamos discutir”, afirma.

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